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Telemóvel: o novo sindicalista

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Por Emídio Beúla

Na ausência de sindicatos legitimados pela massa laboral, as manifestações desta semana foram convocadas via telemóvel. As mensagens
começaram a circular dois dias antes. Os serviços de segurança do Estado, a Polícia e o próprio Governo, não foram apanhados de surpresa, tal como aconteceu nas manifestações de 5 de Fevereiro de 2008. E as causas não variaram: subida do preço de combustível, de pão, de energia, de água…
O porta-voz do Comando-Geral da Polícia da República de Moçambique, Pedro Cossa, apareceu na noite de terça-feira a anunciar que quarta-feira seria um dia normal e que não haveria, portanto, nenhuma manifestação. A justificação era que nenhum pedido de manifestação tinha dado entrada no Ministério do Interior, conforme manda a lei.
A FEMATRO, a Federação das Associações dos Transportadores Rodoviários, também apareceu na noite de terça-feira a acalmar os munícipes das cidades de Maputo e de Matola. Falando à imprensa, Luís Munguambe, vice-presidente da FEMATRO, disse que não haveria nenhuma manifestação na quarta-feira e, por via disso, apelou aos transportadores a operarem.
Logo pela madrugada, Maputo e Matola estavam povoadas de agentes da PRM. O Comando-Geral colocou estrategicamente e em pontos de maior concentração de pessoas brigadas policiais armadas para reprimir qualquer sinal de manifestação.

Actuação da Polícia

Tirando a forte presença policial, Maputo e Matola pareciam as cidades normais prometidas por Cossa e Munguambe. Carros a circular, incluindo os transportes público e semi-colectivo (chapas), crianças e jovens a caminho da escola, trabalhadores dirigindose aos seus locais de trabalho, serviços formais e informais a funcionar. Por detrás da aparente calma, os manifestantes preparavam-se para o terreno. Nem a forte presença policial serviu para conter os ânimos. Os manifestantes fizeram-se às ruas, os autocarros retiraram-se das estradas, os serviços ficaram paralisados, as escolas, bancos, restaurantes, mercados, farmácias, bombas de combustível, lojas, padarias, supermercados fecharam.
A Polícia, mais uma vez, demonstrou que não está preparada para responder a este tipo de manifestação. Respondeu com tiros. A FIR (Força de Intervenção Rápida), um dos braços mais temidos da PRM, só tinha um carro de assalto a circular nas duas cidades. Outros elementos daquela força circulavam em viaturas normais, disparando contra os manifestantes balas de borracha. A equipa do SAVANA só conseguiu contar um agente da FIR que trazia escudo. Os restantes estavam equipados como quem vai a uma guerra.
Os agentes da Polícia de Protecção – cinzentinhos – portavam armas com balas verdadeiras. Supõe-se que a maior parte das vítimas mortais e outros feridos graves foram atingidos por balas verdadeiras disparadas pela Policia de Protecção.

Quinta-feira

Na manhã desta quinta-feira, Maputo acordou com duas faces, qual cidade do colono cortada ao meio, magistralmente grafada por Frantz Fanon. Na periferia – a cidade de má fama de Fanon – a população continuava a protestar não só contra o custo de vida, mas também contra as intervenções das autoridades moçambicanas. No centro da cidade, - a cidade farta e indolente de Fanon – Maputo fingia alguma calma. Era uma cidade de serviços mínimos: poucos carros a circular, alguns postos de combustíveis a abastecer, pequenas lojas e alguns restaurantes abertos. Mas o grosso de actividades e serviços estavam paralisados.
A fúria popular de quinta-feira não visava apenas o custo de vida, mas também os discursos dos dirigentes do país consideradas insultuosas e vazias de sentido. Primeiro foi Edson Macuácua, o secretário de Propaganda e Mobilização da Frelimo, como que a substituir o governo, veio a público apelar à calma e à cultura de trabalho e de diálogo. Como se a manifestação fosse contra o trabalho e o diálogo. Segundo, foi o ministro de Interior, José Pacheco, que depois de conotar os manifestantes como criminosos, disse que a situação estava sob controlo. A sua intervenção foi intercalada em reportagens televisivas que mostravam uma Polícia mal preparada e que não conseguia conter os ânimos dos revoltosos. Terceiro foi o discurso do Chefe do Estado que não veiculou nenhuma esperança. O discurso de Armando Guebuza era o mais esperado, pois acreditava-se que o mais alto magistrado da Nação, para além de apelar à calma, podia ser mais objectivo e concreto.
O Chefe do Estado lamentou, apelou à calma e agradeceu os que o escutaram. Logo pela manhã de quinta-feira, os manifestantes incluíam no seu coro reivindicativo uma resposta do executivo e alegavam que “Guebuza nos ofendeu, chamou-nos de preguiçosos”. Queremos justiça, repetiam em coro, movimentando-se pela Avenida Acordos de Lusaka.

Fonte: SAVANA, edicão de 03.09.2010 in Dário de um sociólogo

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