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Como conter uma explosão social

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EDITORIAL DO Savana

Nada que não estivesse previsto, exceptuando o momento da sua ocorrência. O que torna surpreendente a maneira
como as autoridades policiais e o governo em geral enfrentaram (ou foram incapazes de enfrentar) os tumultos da última Quarta-Feira nas cidades de Maputo e Matola.
Um custo de vida em crescendo não é algo que uma população grosseiramente empobrecida pode aguentar por muito tempo. Em determinado momento, a corda já não pode esticar mais, e rebenta.
É por isso que será errado considerar os tumultos de 1 de Setembro um evento. Eles foram um processo que foi sendo construído ao longo de meses, com uma sucessão de eventos políticos e de decisões governamentais que apesar de serem necessárias, revelavam um espírito de arrogância, prepotência, irreflexão e falta de cultura de diálogo intoleráveis numa sociedade democrática.
Comportamentos políticos e medidas económicas focalizadas em fins eleitoralistas são de um expediente de curto prazo, sem qualquer sustentabilidade a longo prazo. O que aconteceu esta semana foi apenas o colher de dividendos de investimentos mal idealizados há um ano atrás.
Vir agora a público, como uma ilustre figura governamental o fez, dizer que a crise não é só em Moçambique mas sim global, não resolve o problema dos moçambicanos. Pois a crise é sentida de diferentes intensidades, de acordo com as condições localmente prevalecentes. Alguns países têm recursos que lhes permitem absorver os choques ocasionais de uma economia mundial em constante mutação. Outros não têm.
Mas se o governo tinha avaliado, na altura da sua eclosão, que a crise nunca nos afectaria, como é que estaria preparado a enfrentá-la?
Bom, tudo isso deve ser água debaixo da ponte. O que é importante é que perante uma crise de dimensão mundial, Moçambique deve encontrar formas criativas de enfrentar a sua quota parte desta crise global. Fundamentalmente, e a médio-longo prazo, será necessário aumentar a produção e melhorar a eficiência na
produção para baixar os preços.
Mas para que isso aconteça é necessário libertar a iniciativa criadora empresarial dos moçambicanos, desconcentrando as oportunidades de investimento, que neste momento estão concentradas numa pequena elite exclusivamente ligada ao partido no poder.
Só quando todos os moçambicanos com espírito empreendedor tiverem a possibilidade de aceder a todas as oportunidades que se oferecem, e em circunstâncias iguais, com a eliminação de esquemas de clientelismo, é que poderá haver maior oferta de emprego, e consequentemente uma melhor distribuição da renda nacional.
Moçambique não pode continuar a ser um país onde a elite é uma pequena ilha cercada de um mar de gente
extremamente pobre, e que nunca sabe de onde virá a sua próxima refeição; onde o pretensiosismo substitui-se à substância. Sociedades como essas nunca poderão alcançar a estabilidade, uma vez que os pobres não podem dormir porque estão esfomeados, enquanto os ricos nunca podem dormir porque os pobres estão permanentemente acordados.
Outras medidas temporárias para lidar com a actual situação de crise devem incluir um esforço especial do governo de reduzir as suas próprias despesas. Por exemplo, fazendo cortes substanciais nas regalias que oferece aos seus membros e outros funcionários superiores do Estado. Viagens não essenciais devem ser reduzidas ao mínimo, incluindo reavaliar se a frequência das Presidências Abertas torna-as eficazes e absolutamente necessárias.
Isto para não falar das várias reuniões de ministérios e outras instituições do Estado realizadas nos mais exóticos lugares, mas de cujos resultados pouco se sabe.
Estes são momentos excepcionais que requerem, por isso, medidas excepcionais. Pode se dar todos os nomes mais feios que se pode encontrar no dicionário aos jovens que estiveram à frente das manifestações de 1 e 2 de Setembro, mas o mais fundamental ainda será reflectir profundamente sobre as causas que os levaram a ter a coragem de enfrentar contingentes fortemente armados da polícia nas ruas de Maputo e Matola.
Uma sociedade sã é aquela em que há um diálogo permanente e aberto entre os governantes e todos os elementos da sociedade, e não onde os governantes vivem na sua deturpada crença de que sabem tudo o que é bom para o resto da sociedade.

Fonte: SAVANA, edição de 03.09.2010, in Diário de um sociólogo

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