Acção de funerárias nos hospitais



Escrito por Jornal Noticias
Quinta, 29 Julho 2010 14:14

Parte dos utentes dos serviços da Saúde na cidade e província de Maputo está preocupada com a possibilidade de existência de uma relação estranha e perigosa entre alguns trabalhadores hospitalares, particularmente médicos e enfermeiros, e as agências funerárias. Efectivamente, está-se a desenvolver a percepção, de que há mortes estranhas em alguns centros hospitalares que visam beneficiar algumas agências funerárias.
As últimas queixas públicas foram apresentadas ao ministro da Saúde, Ivo Garrido, em dois encontros de auscultação realizados na Matola e na capital do país nos dias 10 e 17 de Julho, respectivamente. Não obstante, segundo apuramos, estas percepções e suspeitas, mesmo sem fundamento, evidências materiais e tangíveis fazem parte de conversas comuns, principalmente nos círculos de pessoas que tem pessoas enfermas e que por uma razão ou outra tem contacto com os hospitais.
A nossa Reportagem, em busca de respostas e principalmente das causas que geram tais percepções ouviu durante dez dias vários sectores, nomeadamente agências funerárias, hospitais, Direcção da Saúde e dialogou com alguns cidadãos.
No essencial as instituições da Saúde e agências funerárias refutam as suspeições. No entanto, a nossa Reportagem apurou que as agências funerárias estabelecem contactos nas morgues com os trabalhadores locais para persuadirem os familiares dos defuntos a usarem os seus serviços, na intenção objectiva de fazer negócio.
Por outro lado, em tempos, as agências funerárias tiveram autorização implícita para funcionarem junto dos hospitais, com o objectivo de facilitarem a assistência às famílias, na sequência do crescente índice de mortalidade devido a doenças associadas ao HIV/SIDA. Entretanto, esta autorização foi revogada como consequência dos mal entendidos com as famílias enlutadas.
Uma das razões da desconfiança dos cidadãos prende-se com a presença de trabalhadores das agências funerárias nas enfermarias que, amiúde, se oferecem para facilitar os enterros. Os referidos funcionários abordam as famílias enlutadas no recinto hospitalar minutos depois de tomarem conhecimento da morte de um certo parente e, como se não bastasse, antes mesmo dos enlutados comunicarem aos demais familiares e planificarem as cerimónias fúnebres.
Dizem ainda as pessoas que acreditam nessa ligação que a falta de cortesia e uso de linguagem menos cuidada por parte de alguns profissionais da Saúde só acontece porque não há respeito pelos pacientes e famílias, numa altura em que muitas pessoas estão a morrer devido à SIDA.
Na reunião realizada na cidade capital, Narramo Charif, residente no Polana-Caniço “B”, contou, embora sem apresentar provas evidentes, que funcionários das agências funerárias entram diariamente nas enfermarias do Hospital Geral de Mavalane e de outras unidades para perguntar aos enfermeiros e pessoal serventuário da ocorrência ou não de óbitos. A conversa desenrola-se em regime de código e ouvem-se expressões do tipo “que tal há carapau hoje”, em referência aos mortos de idade adulta. Os menores são designados por “carapauzinhos”.
Na sua intervenção, Charif afirmou que para travar as alegadas mortes em benefício das funerárias o Estado devia voltar a encarregar-se dos serviços funerários como o que aconteceu depois da independência, banindo as agências privadas, pois “a morte ficou como um negócio, o que choca com a moral”.
Alexandre Conde, residente em Maxaquene “A”, revelou, por seu turno, que recentemente perdeu uma sobrinha que esteve internada no hospital de Mavalane, mas que, na sua opinião, registava melhorias satisfatórias. Falou ainda de um caso que o julga “muito estranho” em que uma vizinha saudável ficou de baixa a cuidar de um neto doente no hospital. A criança teve alta, mas a cidadã morreu, sem uma explicação que o convence.
Gaspar Tchuma, um dos líderes do bairro de Xipamanine, acha que actualmente há uma competição aberta entre os hospitais e as agências funerárias. Enquanto uns lutam pela vida, outros esforçam-se em ter muitos mortos para sustentarem os seus negócios obscuros, entretanto, não apresentou dados que pudessem sustentar as suas afirmações.
FUNERÁRIAS NOS HOSPITAIS
Um dos elementos que preocupa a população, que se queixou ao ministro da Saúde, relaciona-se com a presença de trabalhadores das agências funerárias nas enfermarias das unidades sanitárias.
Virgínia Jorge, cidadã residente no bairro de Maxaquene “C”, arredores da capital, disse, durante o encontro do passado dia 17, que acredita que há falsos enfermeiros que circulam nas enfermarias, habitualmente às 12 horas, alegadamente para avaliar o estágio da saúde dos doentes e pôr o pessoal das funerárias em alerta, caso seja necessário.
Virgínia Jorge contou que, recentemente, teve o seu filho internado na Cirurgia 2 do Hospital Central de Maputo (HCM). Na sua percepção, o menor registava melhorias. Todavia, certo dia foi informada na enfermaria que o seu filho não mais fazia parte do mundo dos vivos, o que, no seu entender, aconteceu de forma obscura e incrível.
A nossa Reportagem soube que a presença de agências funerárias nos hospitais foi permitida pelas autoridades depois da Constituição de 1990, uma vez que após a independência o Governo havia chamado a si a responsabilidade de fabricar, vender urnas e prestar os serviços fúnebres.
Aliás, uma série de instrumentos legais sobre a área foram aprovados, dentre os quais o decreto nº 42/90, de 29 de Dezembro, e a lei nº 4/91, de 9 de Janeiro.
“A nova legislação liberaliza o sector e autoriza a realização da actividade de forma lucrativa ou não. É neste âmbito que trabalham as fábricas de urnas e agências funerárias existentes neste momento”, explica Xavier Timane, porta-voz da Direcção da Indústria e Comércio.
Neste ambiente, a Direcção da Saúde da Cidade de Maputo permitiu que estas pudessem entrar nos hospitais, de modo a encontrar as pessoas que necessitassem dos seus serviços.
Só que, com o passar do tempo, as famílias das pessoas que perdiam a vida nas diversas unidades sanitárias não viam com bons olhos esta situação.
Algumas pessoas entrevistadas pela nossa Reportagem sustentam esta realidade, tendo em conta certa estranheza com que ocorrem alguns óbitos.
Edgar Jamisse (C. Capela)
AGÊNCIAS RECONHECEM CONTACTOS NAS MORGUES
AS agências funerárias ouvidas pela nossa Reportagem reconhecem as suspeitas da população, mas garantem que não existe nenhum conluio entre si e os funcionários dos hospitais no sentido de tirar a vida aos doentes, embora admitissem que existem trabalhadores nas unidades sanitárias, principalmente nas morgues, que servem de angariadores de clientes para eles.
Ao que soubemos, algumas agências colocam parte dos seus trabalhadores nos hospitais de modo a buscarem clientes. Entretanto, as agências funerárias que, por sinal, são as que mais enterros realizam, com destaque para a Moçambicana, Pfunane, Timpsâlo e Banze, não quiseram falar à nossa Reportagem, mesmo após muitas insistências.
Isac Araújo, proprietário da Funerária Araújo, sem nada a perder, admitiu que há funcionários da Saúde afectos às morgues que estão ao serviço de algumas agências, contactando as famílias que para lá se dirigem com vista a tratar dos corpos dos seus ente queridos.
Araújo distancia-se completamente da atitude e condena veementemente os seus pares que procedem daquela forma. Para o nosso interlocutor, este contacto entre o pessoal da Saúde, especificamente os funcionários das morgues, não ético.
Entretanto, Isac Araújo descarta a possibilidade de o pessoal médico nas enfermarias estar em esquemas de matanças com as funerárias e assegura que a desconfiança popular gera-se devido à ligação entre os funcionários das morgues e das agências.
“Que cada agência fique no seu gabinete. As famílias irão para lá em caso de necessidade dos seus serviços. Nada de ficarem junto dos hospitais”, apelou, explicando que a sua instituição, localizada no bairro de Chamanculo, nos arredores, não recorre à contestada estratégia, pelo que há dias em que não realiza nenhum enterro, facto encarado com normalidade.
Edgar Jamisse, proprietário da Funerária Jamisse, disse que há alguns anos circularam rumores de que ele foi surpreendido a envenenar uma fonte de água de um privado que abastece os bairros de Hulene e Mavalane. A ideia, segundo a acusação levantada por alguns residentes embora sem provas, foi de que o plano visava matar gente da zona, o que alimentaria o seu negócio. Todavia, as investigações concluíram tratar-se apenas de um boato.
Conforme explicou, não possui nenhuma ligação com nenhum hospital e nem angaria clientes. “As famílias contactam-nos aqui e quando vou para o hospital limito-me a retirar o corpo e transportá-lo para o cemitério”, ajuntou.
Enquanto isso, Jorge Alves, dono da Funerária Liberdade, localizada no bairro do mesmo nome, na Matola, referiu que a sua firma não angaria clientes, funcionando apenas nos seus escritórios. No seu entender, a sociedade tem a sua quota-parte de culpa no problema que se levanta, pois há famílias que procuram pelas agências nos hospitais, o que, do seu ponto de vista, é errado.
Para aquele agente funerário activo desde 2005, os angariadores que estão nas morgues ou nas entradas dos hospitais devem ser corridos pela Polícia.
Maria Benigna Matsinhe (C. Bernardo)
GOVERNO REORGANIZA O SECTOR
AS preocupações levantadas pela população no que tange à provável ligação entre alguns funcionários hospitalares e as agências funerárias já estão a ser devidamente analisadas, segundo apurou a nossa Reportagem junto de alguns responsáveis do sector da Saúde.
Leonor Marraneja, delegada dos Serviços Funerários da Direcção da Saúde da Cidade de Maputo junto da morgue do HCM, negou qualquer ligação com as agências funerárias.
Em média, aquela morgue recebe diariamente 27 cadáveres registados dentro do HCM e entre 12 a 16 provenientes de fora. O universo tende a subir nos últimos tempos, o que está relacionado com o crescimento urbano, associado à ocorrência de muitas mortes.
“Os nossos funcionários estão proibidos de facilitar o contacto entre as famílias dos mortos e as agências funerárias. Fizemos questão de colar nas nossas vitrinas que isso é proibido”, sublinhou.
“Até digo que se tivesse que punir alguém devido às eventuais negociações seriam as famílias, pois nós escrevemos que isso é proibido aqui”, diz ela.
Castiga Sitoe, jovem que trabalha na morgue do Hospital Geral de Mavalane, explicou, por seu turno, que é impossível qualquer negociata entre si e as agências funerárias, uma vez que a Direcção do Hospital proíbe a presença dos trabalhadores daquelas micro-empresas.
As palavras de Sitoe foram reforçadas pelo administrador daquela unidade sanitária, Luís Fanheiro, que assegurou que “anteriormente as viaturas das agências funerárias entravam, mas nos últimos anos isso está fechado”.
Devido às queixas da população, em 2006, a administração do Hospital decidiu integrar algumas pessoas da comunidade nas enfermarias para controlar a possível relação entre os funcionários e as agências funerárias.
“Até aqui ainda não fomos notificados sobre a provável existência desse tipo de relação, o que significa que não há esse tipo de prática aqui”, sublinhou.
Maria Benigna Matsinhe, Directora da Saúde da Cidade de Maputo, refutou qualquer ligação entre o pessoal da Saúde e o negócio das funerárias, afirmando que esta percepção resulta do crescimento do número de mortes que ocorrem devido ao HIV/SIDA – primeira causa de mortalidade.
Conforme disse, muitas funerárias surgiram para responder às necessidades impostas pela pandemia de HIV/SIDA.
“Naturalmente houve algumas falhas, como por exemplo o facto de termos aberto as portas para se angariar clientes dentro dos hospitais. Todavia, quando a população começou a levantar queixas nós cortámos essa relação. Por isso, quem quiser pode ir a qualquer hospital da cidade de Maputo que não vai encontrar nenhum trabalhador das agências funerárias”, garantiu.
Na ocasião, a directora afirmou que o médico ou enfermeiro é formado para salvar vidas, daí que não faz sentido que possam estar a matar pacientes para tirar proveito disso.
“Matar é um acto difícil cruel e não passa pela nossa cabeça a possibilidade de isso estar a acontecer”, disse Maria Matsinhe.
A nossa entrevistada relacionou o boato ainda com a falta de cortesia entre alguns médicos ou enfermeiros. Todavia, o Ministério da Saúde lançou, em Março último, uma campanha visando melhorar a forma de lidar com o doente.
Para devolver a harmonia entre as partes, a Direcção da Saúde tem vindo a realizar uma série de encontros nas unidades sanitárias e nas comunidades. Nesses eventos foi recomendado que é preciso capacitar os médicos e enfermeiros. A formação visa melhorar a forma como os médicos e enfermeiros se comunicam com as famílias dos doentes ou transmitem a notícia da morte.
Lamentou o facto de muitos doentes da SIDA continuarem a chegar ao hospital na fase terminal. Esta situação faz com que no cumprimento do seu dever, o médico dirige-se à família dizendo que são poucas as hipóteses de o paciente sobreviver dada a gravidade com que entrou no hospital.
Só que quando o paciente, perde a vida e, à saída, é interceptado por trabalhadores das agências funerárias para facilitar os funerais, a família conclui que há uma ligação, o que não é verdade.
“Neste momento já foram capacitados médicos, enfermeiros e outros técnicos. Estamos a preparar conteúdos para capacitar os nossos serventes que são considerados pela população os mais problemáticos, devido à forma menos cuidada com que se dirigem aos doentes e famílias”, frisou.
Todavia, apelou à sociedade para acarinhar as pessoas que cuidam dos doentes quer nas enfermarias, quer nas morgues, porque é um sector sensível. “É preciso notar que temos o problema de recursos humanos, daí que a sociedade deve contribuir também para facilitar o nosso trabalho”, destacou.