À VOLTA DA FOGUEIRA - A generosidade da avó Mandevane



Escrito por Jornal Noticias
Quarta, 03 Novembro 2010 09:24

A avó Mandevane vivia numa cabana que o filho construíra para ela e ai a abandonara, para perseguir novas aventuras nas terras do Djone. Tinha como companhia um gato preto que ajudava a trazer para a casa rações de massengane que caçava nas matas ao redor da habitação.
Ela era uma mulher empreendedora, que não se sentava sobre a esteira, de braços cruzados, a espera que o alimento lhe viesse a boca ou a lenha para a lareira, de algum caridoso lha depositasse a porta da cozinha. Cultivava os terrenos adjacentes. Era dona de machambas donde colhia milho, mandioca, feijão nhemba, amendoim xigongondzuana, nkakana. Nas baixas que se abriam nas valas próximas produzia batata-doce, tomate e cebola que vendia às mulheres que vinham da Aldeia dos Pescadores. Destas adquiria peixe que depois defumava e guardava como reserva na despensa.
Ao lado da casa da avó, um senhor da cidade, de nome Baião, ergueu uma habitação que, para os padrões do lugar, era um verdadeiro de palácio. Era uma construção de alvenaria rodeada de um quintal enorme. Ai iniciou uma criação de coelhos, frangos e porcos que, no início, e pelos cuidados que punha no empreendimento, lhe auguravam a acumulação duma grande fortuna. Os animais reproduziam-se que até dava gosto ver.
A sovinice do senhor Baião custou-lhe dinheiro e esforço. Se, a princípio, pagava aos criados para zelarem pelos seus interesses, aos poucos foi deixando acumular dívidas no pagamento de salários. Os animas, um depois doutro, foram desaparecendo sem deixar rastos. Os guardas da casa, o Mbowene e o Naisone, diziam sempre que nas redondezas havia cobras que invadiam as capoeiras e ai faziam aquelas matanças que, a eles próprios, deixavam em cuidados e sem meios para agir.
Em muitas ocasiões, a avó Mandevane testemunhou o abandono da casa e da criação do senhor Baião, ate de vendas de cuja receita os mesmos empregados se serviam para a compra de viveres e de bebidas. Logo pelas manhas, aqueles saiam da propriedade e dirigiam-se as bhangas de Ka Nwachitsene, do bairro Ferroviário e ate de Albasini, para aí se entreterem e consumirem aguardente e mal-coado. Regressavam com o sol já posto e dormiam até à manhã seguinte, sem darem acordo de si. E os porcos guinchavam de fome nas pocilgas, as galinhas cacarejavam, nervosas, e atiravam-se contra a rede da capoeira, à procura de espaço e liberdade para bicarem no chão; os coelhos mal podiam suster-se em pé e arregalavam os olhos, a espreita dalguma sombra que lhes trouxesse algumas folhagens para comer.
A aflição dos animais tirava o sono a avo. Aqueles estavam ali naquele sofrimento e abandono por culpa do patrão que não cumpria as suas obrigações, sempre distante lá na cidade, e dos dois empregados que deixavam os animais a sua sorte. Não que tivesse grande simpatia pelo senhor Baião, um homem que se dava ares de fidalgo, e falava de sobranceria para ela, como se fosse o dono daquelas matas e senhor dos destinos de toda a gente. Preferia manter uma distância prudente em relação ao vizinho e viver a sua vida.
Naquela manha a avó decidira preparar a mandioca colhida na véspera. Dela faria raspados para fazer rhale, e a outra pô-la-ia a secar.
O tempo era de canícula. Gentes e animais madrugavam para saudar o sol de cada dia. Assim, a avo testemunhou a saída dos dois guardas do senhor Baião para as jornadas habituais as bhanghas da periferia. Depois de encherem os recipientes de água na pocilga, na coelheira e na capoeira, ala! aqueles que vão, a cortar pelos carreiros que conduzem a Ka Nwachitsene.
O sol do meio-dia sufocava os animais nos currais. A fome prolongava a sua agonia.
A avó Mandevane terminara o descasque da mandioca e juntara os desperdícios num saco de serapilheira. O que fazer com estes? Porque não deita-los nos currais do Baião para minorar o sofrimento daqueles pobres animais? A sua compaixão e generosidade chegavam a tanto. Se assim o pensou, melhor o fez. Levantou-se do lugar onde se sentara e carregou as costas as cascas da mandioca empilhadas no saco. Atravessou a entrada da residência do vizinho. Esta estava deserta. Com gestos lentos, de quem distribui pão a uma multidão de mendigos, foi espalhando o conteúdo do saco na pocilga, na coelheira e nas capoeiras. Retirou-se feliz com a consciência de ter praticado um acto de caridade louvável e exemplar.
O resto do dia decorreu sem novidades: avo sempre absorta nas lides da sua casa; a residência do vizinho sempre deserta; os animais entregues à sua sorte.
A noite chegou. Estranhamente, durante a mesma não se escutaram os guinchos dos suínos nas pocilgas, nem o cacarejar das galinhas nas capoeiras. Os empregados, dormiam a roncar sem se espantarem com a tranquilidade dos animais.
O novo dia anunciou-se com as primeiras claridades vindas de nascente. Um dos guardas despertou, ainda cambalente de lazeira, a cabeça a estalar, cheia de vertigens. Mas eis que, aos seus olhos estarrecidos contemplou o espectáculo mais macabro da sua vida: todos os porcos jaziam espalhados no lamaçal da pocilga, sem vida; os coelhos e as galinhas eram seres imóveis por detrás das redes de contenção. Gritou por socorro. O companheiro correu apressado ao local para testemunhar a desgraça que ocorrera na casa. Era aquele o fruto de negligencia e de abandono a que votaram a propriedade e os bens do seu patrão. Conferenciaram em surdina; o medo e o pânico superavam a tomada de uma postura de homens que arcavam com a responsabilidade pelo acontecido. A socapa, embrulharam os seus parcos haveres, transpuseram a porta da casa e escapuliram-se pelos matos dentro. Há quem os tivesse visto no apeadeiro de Bovole, a muitos quilómetros de distância, a aguardar pelo comboio que os levaria a um destino só por eles conhecido.
No espírito da avó Mandevane ficou a angústia de ter adiado um sonho do seu vizinho, o senhor Baião, mercê de um acto de generosidade. E só pede aos seus deuses que a perdoem pela pecaminosa caridade, porque ela nem sequer sabia que a casca daquela mandioca era venenosa.
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