MEMÓRIAS - “Conversations With Myself”



Escrito por Jornal Noticias
Quarta, 20 Outubro 2010 10:03

Nelson Mandela é sempre um holofote de que reluz uma história e uma personalidade que causam muito mais do que admiração. O ícone da luta dos sul-africanos pela liberdade está de novo no centro das atenções, pelo lançamento, recentemente, do seu novo livro: "Conversations with Myself".
Neste livro, lançado em todo o mundo (20 línguas, 23 países), Mandela faz algumas revelações, como a de que não queria, depois de liberto das amarras do apartheid, que nunca pretendera ser Presidente do seu país, projecto em que "acabou embarcando".
Documentos inéditos, cartas da prisão, enviadas ou retidas pela censura, notas em diários e calendários em que conta sonhos, expõe pensamentos pessoais e reflexões políticas, foram algumas das fontes para “Conversations with Myself”, que foi prefaciado pelo Presidente norte-americano, Barack Obama.
"(Estes) arquivos contêm vestígios da minha vida e a daqueles que comigo viveram. Qualquer pessoa que tenha explorado o mundo dos arquivos saberá que encerra tesouros, surpresas, caminhos cruzados, becos sem saída, lembretes dolorosos e perguntas sem resposta", escreve o ex-Presidente sul-africano e ícone da luta contra o apartheid numa pequena síntese de apresentação do livro.
Nunca neutro, mas objectivo e justo, mesmo quando à frente tinha opositores. Soube encontrar em campo inimigo homens moderados e bons. Ponderado e contido, apesar de usar a arrogância, enquanto jovem, para esconder fraquezas, como ele próprio descreve.
Delicado na forma, firme nos princípios. Lutador. Características que já transpareciam na autobiografia "Longo Caminho para a Liberdade". Agora, com "Conversations with Myself", são mais evidentes. E profundo. No fim, foi pela palavra que venceu. E é pela palavra que se redime.
E se, neste livro, Mandela for o mais verdadeiro e transparente que alguma vez poderá ser, confirma-se o seu lado humano, contido e ponderado. Tê-lo-á sido mais na última fase da vida. E mesmo em jovem, quando defendeu a luta armada – e a violência com o mínimo de vítimas entre civis, mas apesar de tudo a violência – como única forma de vencer o regime do apartheid.
“Os meios que são utilizados pelos oprimidos para avançar com a sua luta são determinados pelo próprio opressor. (...) Se o opressor recorre à força, o oprimido retaliará recorrendo também à força. Era esse o meu argumento. (...) Esta é uma lição da história, ao longo dos séculos e... em qualquer parte do mundo".
ARROGANTE PARA ESCONDER FRAQUEZAS…
Em 1998, Nelson Mandela vivia os últimos meses como Presidente da África do Sul, fechava um capítulo da sua vida, abria outro. Tinha então 80 anos. Casava com a moçambicana Graça Machel e redigia o rascunho inacabado do primeiro capítulo da segunda autobiografia, sequela nunca publicada de "Longo Caminho para a Liberdade".
Embora considere muito difícil, "quase impossível", fazer uma escolha, Verne Harris, director do Centro de Memória e Diálogo da Fundação Nelson Mandela, elege esse rascunho como a passagem, neste livro, mais relevante para perceber a personalidade de Mandela. É também essa que o historiador e escritor sul-africano Tim Couzens, que participou na investigação e selecção dos arquivos a publicar, juntamente com a equipa do Centro de Memória, escolhe como a mais importante do ponto de vista histórico, de "significado seminal" e por isso escolhida como aquela que fecha o livro.
"Quando era jovem... reunia em mim todas as fraquezas, todos os erros e faltas de discrição de um rapaz do campo (...). Confiei na arrogância como forma de esconder as minhas fraquezas. (...) Uma questão que me preocupava seriamente na prisão era a falsa imagem que eu, sem qualquer intenção, projectava para o mundo exterior; a de ser encarado como um santo. Nunca fui um santo, nem mesmo na acepção terrena de um santo como um pecador que não cessa de se esforçar."
VÁRIAS RELÍQUIAS À VOLTA DO SEU NOME
Mais de 20 anos depois de escrever essas linhas, Mandela vê-as publicadas. "Penso que o material que recolhemos e juntámos como um conjunto permite-lhe fazer, através do Centro da Memória e do Diálogo, o que ele queria fazer naquela altura (em 1998, quando redigiu o rascunho)", continua Verne Harris. É então, nesse sentido, um livro muito importante para Mandela? Aquele em que se mostra e ao mesmo tempo se redime? Harris sintetiza: "É um livro arriscado para o seu legado."
O prefácio é do Presidente Barack Obama, por sugestão do embaixador dos Estados Unidos na África do Sul, Donald Gips, que, já na fase final do trabalho, visitou o Centro da Memória. Na sala dos arquivos, Gips viu os diários, os cadernos de apontamentos, e "emocionou-se muito com essa experiência", conta Harris.
"Perguntou-nos se nos importávamos que falasse ao Presidente Obama para escrever um prefácio. Não acreditámos que isso alguma vez acontecesse." Aconteceu. "Ficámos muito surpreendidos."
"Como todos nós, (Mandela) também tem as suas falhas. Mas são precisamente essas imperfeições que deverão inspirar todos e cada um de nós. (...) Todos nós travamos batalhas grandes e pequenas, pessoais e políticas – para ultrapassar o medo e as dúvidas (...)".
Em 1999, depois de deixar a presidência, confirmando a opção de não se candidatar a um segundo mandato, Nelson Mandela criou a fundação que tem como missão continuar a apoiar causas sociais e humanitárias, como a luta contra a sida. Integrado na fundação, o Centro de Memória e Diálogo dá a conhecer ao mundo informação sobre a vida e a época de Mandela.
Nesse centro, está a maior parte dos seus arquivos. São caixas e caixas em prateleiras cheias de papéis. Alguns registos "perderam-se pelo caminho", lê-se na introdução do livro. "Alguns foram confiscados pelo Estado, outros foram destruídos ou usados como prova. O arquivo privado de Mandela é hoje um arquivo disperso e fragmentário." O que não está no Centro de Memória, está nos Arquivos Nacionais da África do Sul e na National Intelligence Agency (serviços secretos), entre outros. Alguns registos estão nas mãos de privados.
Por sorte a equipa de Verne Harris encontrou, nos últimos meses de investigação, o arquivo mantido pelo antigo guarda prisional Jack Swart, que acompanhou Mandela durante os 14 meses que antecederam a sua libertação, na prisão de Victor Verster, quando Mandela passou a estar instalado numa vivenda espaçosa, em 1988, já depois de iniciadas as negociações secretas com o Governo sul-africano. Antes, no regresso de uma estadia no hospital, fora colocado numa cela sozinho na prisão de Pollsmoor, em 1985, aproveitando para iniciar contactos com o Governo e para negociar as condições para a sua libertação, que passavam, entre outras coisas, pela libertação dos outros presos políticos e pelo fim da proibição do Congresso Nacional Africano (ANC). A propósito da opção política de iniciar conversações, escreve Mandela, já em 1998:
"O ANC nunca se afastou do princípio de que a libertação do nosso país acabaria por se tornar uma realidade através do diálogo e da negociação. No entanto, iniciei os contactos com o Governo sem dizer nada aos meus camaradas de prisão."
ALGUMAS INSPIRAÇÕES PARA UMA LUTA INCOMUM
Maputo, Quarta-Feira, 20 de Outubro de 2010:: Notícias
"Conversations with Myself", que não é exclusivamente cronológico mas segue uma evolução aproximada dos acontecimentos, reúne cartas escritas da prisão - umas enviadas, outras que nunca chegaram ao destinatário por controlo das autoridades do apartheid - e rascunhos. Tem também excertos de um diário que Mandela escreveu em 1962, já na clandestinidade, quando saiu da África do Sul e viajou por vários países africanos e Londres. Nesse périplo, inspira-se das formas de luta na Argélia, recebe garantias de apoio em países como a Libéria e lê várias obras sobre guerrilha, enquanto molda e reflecte sobre o ideal político pelo qual iniciava uma luta. Para ele, era fundamental dar um sentido à luta armada, ligando-a a um ideal político. Noutros momentos, cita outras obras, as preferências pelos clássicos gregos como “Antígona”, ou outras referências como “Guerra e Paz” de Tolstoi.
No Egipto, interessou-se "por uma questão da maior importância para os pensadores africanos", ou seja, "em recolher provas científicas para desmontar a pretensão fictícia propagandeada pelos brancos de que a civilização teve início na Europa e que os africanos não possuem um passado tão rico como o deles".
Com Richard Stengel, fala também do encontro na Etiópia com o imperador Hailé Selassié, e sobre uma cerimónia de entrega de distinções a militares americanos e outros estrangeiros diz: "Ver brancos a dirigirem-se a um monarca imperador negro e a fazerem vénias foi também muito interessante."
Uma observação que vai ao encontro da própria génese da luta anti-apartheid. E que lembra outra: quando questionado por Richard Stengel sobre se ainda existe na sua geração "alguma espécie de deferência perante o homem branco", Mandela corrige o termo e diz que não pensa que haja um sentimento de "inferioridade (do negro) em relação ao homem branco". Porque era disso que se tratava antes da Campanha de Desobediência de 1952, em que um dos objectivos era "incutir este espírito de resistência à opressão: não temer o homem branco, o polícia, as suas prisões, os seus tribunais...
A propósito daqueles de quem discordava, Mandela defende que "as críticas devem ser dignificantes". E mesmo sobre aqueles cujas ideias não aprecia, diz ser importante respeitar a sua reputação, na forma como a eles se refere na autobiografia. Isso sobressai em algumas conversas com o escritor-fantasma Richard Stengel ou com o amigo Ahmed Kathrada - como aquela em que recusa referir-se aos outros presos (não políticos) da penitenciária de Robben Island como "criminosos", mais uma vez corrigindo o seu interlocutor para que a eles se refira como "presos de delito comum".
Esta preocupação com o outro, seja ele quem for, leva o historiador Tim Couzens a dizer: "Embora haja laivos de ira e dor profunda nos seus escritos pessoais, esses momentos são sempre contidos e controlados. Dignidade por fora. Dignidade por dentro."
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