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TEATRO - Libertos da miséria em tempos de paz

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Um poeta, um louco e uma Miséria, a representar a completa miséria, são os ingredientes principais da peça de teatro “O Liberto da Miséria”, do escritor Eduardo White, que, em reposição, sexta-feira e sábado, leva ao palco por um misto de actores consagrados e novos, entre eles Mário Mabjaia, Graça Silva e Adelino Branquinho. A reposição da peça, que voltará a ter como palco o Teatro Avenida, surge depois de vários pedidos do público, segundo a equipa de produção. E a ocasião para voltar a permitir que este trabalho seja revisto acontece em pleno fim-de-semana em que os moçambicanos assinalam o 4 de Outubro, feriado que evoca a assinatura do Acordo Geral de Paz, celebrado em Roma há 18 anos.

“O Liberto da Miséria” é um espectáculo que se baseia numa interacção entre quatro disciplinas artísticas, nomeadamente, a literária, a plástica, a visual e a musical e que acabam por contar a história de um personagem que multiplicando-se em outras duas, retrata o seu mundo interior quando confrontado com outro que é o da sociedade nos seus aspectos de inequívoca pobreza.

Tal confronto é simultaneamente narrado pelo «Poeta», pelo «Louco» e pelo «Todos um Pouco» através do texto literário, da projecção de fotografias simbolizando a realidade que eles habitam, da pintura que é o cenário da visão idílica que têm dessa mesma realidade e, finalmente, a música que representa as compatibilidade que estes vão encontrando entre elas.

O “Libreto da Miséria” é, deste modo, um itinerário dramático e, ao mesmo tempo, quimérico de um homem que procurando ser puro na sua humanidade encontra uma outra que lhe é contrária e a questiona apresentando o grito da miserabilidade ante a luxúria da riqueza e como a violência da primeira acaba sendo a necessidade vital à sobrevivência da segunda.

Essa dicotomia entre as notórias e distintas verdades das sociedades de hoje, são, no fundo, o que substancia e justifica, fugindo ao clássico libreto, o interagir dos artistas entanto que fazedores de artes diferentes na intenção de se retratarem com elas num modo de ver o mundo e as suas coisas de uma forma indistintamente plural sendo singularmente distinta.

Invulgar no tratamento, este espectáculo vislumbra vários talentos, que viajam da própria concepção à materialização da ideia. O da concepção pertence exclusivamente a Eduardo White e os outros, com que converge no produto final, são os companheiros de trabalho em “O Liberto da Miséria”. O palco é à partida recheado, vislumbra-se uma beleza de cenário, acrescida de várias belezas de talento – Branquinho, Mabjaia e Graça Silva são apenas uma constelação numa galáxia em que João Cabaço, Chico António e Zé Maria também participam.

Este retrato refere-se especificamente à miséria que descreve a vida de muitos cidadãos moçambicanos e do mundo hoje em dia. Na opinião de Eduardo White, a prevalência desta, descrita sobretudo pela carestia material e, também, de acção.

Entretanto, como para todos os males, para esta miséria também há culpados. E para Eduardo White esses são os políticos e aqueles que eles têm à volta. A acusação é clara, como se pode ouvir da cadeira de rodas em que deambula pela cidade o poeta da peça, num papel que é interpretado pelo actor do Mutumbela Gogo Adelino Branquinho. 

A peça decorre como uma sucessão de diálogos que se podem considerar absurdos. Hoje em dia, praticamente ninguém tem a paciência de, pelas ruas da cidade, ouvir os diálogos ou os monólogos dos loucos. Mas o autor de “O Liberto da Miséria” faz destes infelizes personagens do nosso dia-a-dia homens e mulheres a quem se deve (por vezes) dar ouvidos. É que, pelo que White demonstra na peça, vale a pena ouvir os loucos, porque loucos podemos estar todos nós por não vermos e não debatermos o óbvio. E o porta-voz do escritor para narrar esse óbvio que apenas em surdina pode ser debatido é Mário Mabjaia, que aparece a encarnar superiormente o papel de um desses homens e mulheres que, a falar sozinhos, dizem coisas ou incómodas ou engraçadas, mas no caso concreto ao mesmo tempo incómodas e engraçadas.
A peça de Eduardo White corre e o que fica é a sensação de que se trata de um desabafo de quem mora num país que ainda está a ser feito e que os que estão no poder devem cada vez mais aprimorar a sua acção em prol de todos, porque é disso que Moçambique e o mundo precisam.

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