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Literatura que não recusa atravessar fronteiras

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Não há quem negue uma realidade aberta e evidente ao mundo. As atenções do mundo perseguem Mia Couto.
O escritor moçambicano tem nove livros publicados pela “Companhia das Letras”, um infantil pela “Língua Geral” e é presença constante nos eventos literários realizados no país. Agora, a Editora UFMG quer fazer o mesmo com a poesia, esta, sim, inédita para a maior parte dos brasileiros. Pensando nisso, acaba de lançar, com organização da portuguesa Ana Mafalda Leite e do brasileiro Wander Melo Miranda, a Colecção Poetas de Moçambique.

Os dois primeiros títulos trazem poemas de Rui Knopfli (1932-1997) e José Craveirinha (1922-2004), e outros dois trazem textos de Glória de Sant’anna e Luís Carlos Patraquim, os quais chegam ao mercado em 2012.

A colecção foi apresentada no Fórum das Letras de Ouro Preto, por Roberto Said, vice-director da Editora UFMG. “O leitor de poesia é sempre um clandestino e essa colecção é dedicada aos bons leitores de poesia. É uma tentativa de trazer ao país um pouco da poesia feita na terra de romancistas já consagrados, mas de poetas inéditos”, disse Roberto Said, que pretende, com o tempo, ampliar a colecção, referindo que “A nossa ideia é trabalhar com a literatura africana de língua portuguesa, e há potencial aberto para fazer o mesmo com os poetas de Angola”.

Para Ana Mafalda Leite, professora e pesquisadora de literatura africana de língua portuguesa, a literatura é feita de romance e de poesia, e a poesia moçambicana é de uma enorme qualidade. “É um pouco dramático ver que só o romance moçambicano tem leitor, e o que essa editora está a fazer é um enorme trabalho em prol da literatura africana”, disse.

A ideia dessa colecção nasceu de um encontro com o também professor Wander Melo Miranda, da UFMG, em 2006, e porque a bibliografia para a adopção em sala de aula era escassa. “O estudo da literatura africana está a crescer nas universidades brasileiras e ter matéria-prima é primordial”, comentou Mafalda Leite.

Roberto Said disse que pretende promover lançamentos em Portugal e Moçambique, que provavelmente serão realizados durante um seminário preparado especialmente para apresentar as novas obras.

“Rui Knopfli e José Craveirinha são os fundadores da poesia moderna moçambicana e nada mais justo que a escolha dos dois nomes para o lançamento da colecção. Craveirinha é mais nativista e Knopfli mais universal. Eles são os dois maiores marcos da poesia moçambicana”, referiu Ana Mafalda Leite.

Gloria de Sant’Anna é, segundo Ana Mafalda Leite, a voz feminina da literatura moçambicana. Ela começou a escrever nos anos 60 e morreu recentemente. “Ela tem uma obra diversificada, sofreu influência de autores brasileiros como Cecília Meireles e transita entre o bucolismo e a poesia local”. Já Luís Carlos Patraquim é uma voz representativa e é o único vivo dos quatro.

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