Escrito por Jornal o Pais Terça, 08 Fevereiro 2011 06:34

Poucos dias antes de se falar de amor, entrevistamos, por e-mail, a cantora brasileira Joanna, que se prepara para um espectáculo, no dia 11 deste mês, em Maputo, num evento produzido pela Stv e Bang Entretenimento. Joanna fala da sua entrada para a MPB, das influências tidas no Brasil apaixonado pela rádio e que se foi alimentando de Chico Buarque, Roberto Carlos e Gonzaguinho. Mas também olha com expectativa para o espectáculo da próxima sexta-feira, apresentando-se como a “mensageira da felicidade”.
Das diferentes análises que se faz da sua música insiste-se em a caracterizar como uma das “mais belas vozes do MPB”. Consegue olhar para si como uma tradicional cantora da MPB?
Sim, considero-me uma cantora da MPB. eu nasci escutando MPB, através da minha família que é muito apegada à música. sempre fui deslumbrada com a nata da MPB, desde Ataulfo Alves, Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Pixinguinha, Cartola, Dolores Duran, Chico Buarque, Roberto Carlos, Jorge Ben e o samba em geral, incluindo um dos nossos maiores poetas, Paulinho da Viola. Toda a minha vivência musical como cantora sempre foi baseada na escuta desses grandes mestres da música. Minha veia e caminho musical verga-se sempre para o tradicional, o atemporal. Lembro que nasci escutando rádio, dormia escutando rádio, então, tudo que sei está baseado num tempo em que se valorizava a música brasileira pelo seu teor musical, pela capacidade de todos emocionarem-se com verdadeiras pérolas poéticas, com conteúdo e qualidade e não com imediatismo e concessões.
A sua carreira foi construída ao lado dos principais compositores da MPB. referimo-nos a Chico Buarque, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro e Ivor Lancelloti, assim como Renato Teixeira. Como é que estas figuras contribuíram para a formação de Joanna, que Maputo espera com ansiedade?
Todos os artistas citados foram grandes referências primordiais dentro da minha formação. Gonzaguinha, por exemplo, era antes um amigo, parceiro das minhas emoções. tudo que era composto para o meu repertório era baseado nas nossas conversas que adentravam noites e noites.
Nunca pedi a Gonzaga que fizesse um sucesso, sempre o deixei a vontade para que ele pudesse perceber, mediante a sua sensibilidade, coisas ligadas ao meu instinto pessoal, a minha maneira de ser e de olhar a vida. Nasceram inúmeras canções que vieram a ser conhecidas e amadas por boa parte dos brasileiros, e que se consagraram como verdadeiros clássicos dentro do meu repertório. Gonzaga ensinou-me a encarar o meio musical como um dia após o outro, com a calma que lhe era peculiar, com a mansidão dos mestres.
Chico Buaque sempre considerei como um dos maiores poetas da música brasileira, não há muito o que dizer dele, pois tudo que fosse dito seria pouco mediante à sua grandeza. Não existem mais “chicos buarques” na música brasileira, ele é único! Sua base poética influenciou a minha maneira de me expressar musicalmente. Gravei algumas das suas grandes pérolas: “Eu Te Amo!”
Outro grande poeta na minha vida em outra escala, e não menor, é Paulo César Pinheiro, autor de inúmeros sucessos da gloriosa Clara Nunes. Mas sua carreira foi sempre recheada de um trabalho minucioso, de uma consciência social ímpar, de versos eternos na sua beleza e inteireza como poeta e ser humano. Com ele aprendi que a frase mais simples de amor vira um refrão de sua própria vida.
Renato Teixeira, meu amigo e parceiro, é, sem sombra de dúvidas, o maior guitarrista do nosso Brasil. Cantor e compositor, autor de um dos meus mais expressivos sucessos “Recado”, foi também o que compôs “Romaria”, gravado por Elis Regina. De temperamento dócil mas altamente visionário, Renato fez uma carreira única, incomparável com qualquer outro no seu género. Hoje somos amigos e parceiros, pena não ter tanto tempo para sentar, compor e trocarmos uma prosa. Dono do dom da fala, conta prosas de morrer e rir e fala de um Brasil cheio de brasis, encontrando, em cada palavra por mais dócil que seja, uma verdade nua e crua de um Brasil das diferenças. Renato mexeu com o meu jeito de compor, influenciando-me a olhar o planeta como um todo.
Podemos olhar para a filosofia da sua formação artística como uma ligação entre a religião e o Brasil musical que procura dominar a world music? referimo-nos concretamente à sua tendência de cantar as músicas religiosas que é interrompida durante um percurso de tantos álbuns românticos e apaixonantes para depois voltar a música sacra com “Oração”.
Não, a minha ligação religiosa com a música sacra está, especificamente, relacionada com o CD “Joanna Em Oração”, foi basicamente um tributo, uma homenagem, uma devoção à figura de Nossa Senhora por ter ligações muito antigas, através de minha família ao culto Mariano. E por razões pessoais e familiares resolvi fazê-lo. Achei interessante também porque tive a oportunidade de resgatar canções de um jeito mais actual e torná-las conhecidas ao grande público de uma forma que, através do seu teor religioso, existem nas entrelinhas histórias que remetem a uma reflexão mais profunda do quanto à fé é importante na vida de cada um. O meu trabalho de MPB é independente desse projecto. “Joanna em Oração” teve por base um gosto particular e pessoal em fazê-lo. Gostava de repeti-lo, algum dia!
A sua imagem como artista é de uma cantora romântica, hoje considerada uma das melhores vozes da América Latina. Quando começou a sua carreira, depois de um concurso para novos talentos, definiu de imediato que seria uma cantora romântica? Essa é a imagem de Joanna fora dos palcos ou é a imagem construída para espectáculos?
Sim, comecei como a minha velha amiga Alcione: nos bailes da vida (música que depois de alguns anos acabou sendo criada para mim por Milton Nascimento e que virou um grande hino na minha carreira).
Esta fase de se confrontar com programas de concurso é extremamente importante para que se crie um embasamento necessário numa vida futura musical polivalente, consistente, criando, em torno de si, um lastro de experiências enormes. Sou de um tempo em que ser julgada por um corpo de jurado era uma honra e saía dali com a certeza de que era possível dar os primeiros passos, pois haviam pessoas de alto nível musical dando conselhos e incentivando a acreditar no seu sonho.
Quanto a optar por um repertório mais romântico, isso veio espontaneamente. As rádios do meu país elegeram a canção “Descaminhos” como aquela que seria a de trabalho, por acaso era romântica e minha composição, pois o disco era totalmente mesclado com todas as tendências musicais. No palco sou uma cantora que se atira as canções com o coração aberto, sou um personagem que vive as minhas emoções, muitas vezes sendo a protagonista do enredo. No palco somos muitas procurando dentro da nossa canção fazer com que os outros se enxerguem nelas. Essa é a missão de quem quer como objectivo não ser um espectador de si mesmo, e sim deixar que o outro perceba, através da tua palavra anunciada, aquilo que no fundo se identifica com ele. Essa é a grande magia!
É uma artista tendencialmente influenciável. Esta pergunta surge pela sua interpretação do tema de Rui Veloso. Como é que chega a esta música? Estamos a falar de uma cumplicidade com o músico português.
Não somos nós que chegamos à música, ela é que chega até nós, normalmente pela identificação que temos com ela. Quando gravei “A Paixão” (de Rui Veloso) chamou-me a atenção não a bela música, mas essencialmente o conteúdo. Na vida, acredito que pares que se integram falam a mesma linguagem. Logo após a gravação, tive o prazer de almoçar com ele a falarmos algumas horas sobre as nossas vidas, inesquecível!
A mesma pergunta leva-nos a outros nomes que parecem ligados a si. referimo-nos a Maria Bethania e Zeca Pagodinho. Como é que estes dois músicos atravessam a sua música e surge essa ligação?
Bem, o Brasil sabe da minha paixão musical por Bethania, sempre tive uma reverência pelo lindo trabalho dela, sempre foi a minha influência mais constante. Alguns anos depois tivemos a oportunidade de nos conhecer um pouco mais, e fiz-lhe um convite para participar do CD “Entre Amigos”, no qual participaram vários outros amigos: Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Fagner, João Bosco, Jorge Aragão, Emílio Santiago, Tereza Cristina, Eduardo Dusek, entre outros.
A presença do Zeca Pagodinho foi um presente, pois eu sou uma apaixonada pelo trabalho dele. de quintal gosto do samba que fala das coisas das gentes. Gosto do samba de raiz, do pagode autêntico com todos os adereços percussivos que um samba tem por distinção. Zeca é isso, samba puro. Tive a oportunidade de gravar com ele duas vezes e foram dois momentos especiais e deliciosos, porque afinal Zeca é a pureza do samba e de uma autenticidade fora do comum, assim como de uma intensidade típica dos brasileiros.
Que Joanna se pode esperar para o espectáculo do dia 11 em Maputo? Teremos uma cantora que faz um percurso por toda a sua criação musical ou vai escolher uma época para oferecer a este público?
Fazer um balanço de 30 anos de carreira é um tanto quanto difícil, mas vou adicionar músicas de épocas distintas para que o corpo do show agrade a todos. Isso regado com muito carinho.
Cantar especialmente para um dia dedicado aos namorados exige de si uma escolha aturada. Há um olhar diferente para este espectáculo comparando com os outros feitos em dias sem esta ligação histórica a São Valentim?
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