Escrito por Jornal o Pais Quarta, 19 Janeiro 2011 07:25

Nasceu quando os melhores músicos de Dakar se reuniram para tocar num clube selecto, mas transformou-se numa banda pan-africana, símbolo de um continente a libertar-se do colonialismo europeu. Hoje, 40 anos depois, a Ípsilon escreve sobre eles e acredita serem ainda um tesouro africano.
O baobab (baobá ou embondeiro, em português), árvore de grande porte que pode atingir 25 metros de altura e dez de diâmetro, cuja longevidade chega a ultrapassar um milénio, é o símbolo do Senegal.
Em 1970, um grupo de jovens políticos e empresários do Senegal decidiu abrir um clube moderno e sofisticado que reflectisse o novo rumo do país, o qual designaram-lhe Baobab, ou seja, “Clube Baobab”.
No primeiro andar, a sala de refeições. No rés-do-chão, o clube propriamente dito, com música tocada ao vivo todas as noites, um bar de dimensões consideráveis construído, precisamente, em forma de embondeiro.
O seu proprietário principal era Adrien Senghor, ministro da Agricultura e irmão mais novo do primeiro presidente do Senegal independente, Leopold Sédar Senghor, intelectual africano e teórico da Negritude. Adrien - que fundara um clube onde receberia políticos, artistas e homens de negócios dos países africanos circundantes e do Ocidente - ambicionava a excelência, por isso, os músicos que ali tocariam teriam de ser os melhores. Mais do que isso, teriam de representar o melhor de África na sua diversidade.
o resultado da banda, que reunia malianos, senegaleses, togoleses, filhos de marroquinos ou guineenses, foi a música que cruzava várias línguas e que fundia harmoniosamente o highlife ganês e nigeriano; as melodias wolof e as baladas da Guiné; os ritmos luxuriantes, incessantes, da região de Casamansa, e, ingrediente fundamental, o “son” cubano que era na época a grande sensação em Dakar.
A banda homenageou em canção o herói revolucionário Amílcar Cabral e o músico Ibrahim Ferrer. A canção “Hommage a Tonton Ferrer”, mesmo a decisiva influência cubana, era uma busca identitária. Segundo afirma o guitarrista Lafty Benjeloum, “levaram os nossos ritmos [para as Caraíbas] e puseram-lhes harmonias clássicas espanholas por cima. Nós decidimos recuperar esses ritmos e enquadrá-los nas nossas linguagens clássicas”.
Tocando quase diariamente no Clube Baobab para um público selecto, tornaram-se primeiro a banda mais falada da capital, mas depois extravasaram.
No final da década 70, esgotavam estádios em todo o continente africano e mantinham uma edição regular de álbuns - editaram cerca de 20 entre 1970 a 1985. Em 1979, o Clube Baobab encerrou, mas a banda continuou sem ele.
Deixara de ser a banda residente dois anos antes, porque ambicionava um melhor “cachet”.
Em 1987, porém, separaram-se, pois já tinham sido ultrapassados pelos acontecimentos.
A Star Band, que estivera na génese da sua formação, fora regenerada e os seus membros mais jovens, incluindo a futura estrela Youssou N’Dour, saíram para fundar um grupo novo, os Etoile de Dakar, mas já com um novo estilo, o “mbalax”, mais agressivamente ritmado e que rapidamente se transformou no preferido da juventude senegalesa.
De repente, a Orchestra Baobab parecia velha e anacrónica. Os seus músicos, porém, recusaram forçar uma modernização. “Decidimos não seguir a moda”, explicou Barthélemy Attisso ao “Guardian”, em 2007. “Isso significou o nosso declínio gradual, mas aceitámo-lo para proteger a nossa originalidade, a nossa identidade”.
Attiso regressou ao Togo e à advocacia, actividade que mantém até hoje - metade do tempo é advogado no seu país natal, no restante é um inesperado “guitarista-herói”, de óculos e fato formal percorrendo o mundo com a Orchestra Baobab.
Rudy Gomis iniciou uma carreira a solo, partilhada com a fundação de uma escola de línguas africanas para residentes estrangeiros - é formado em Línguas. Os restantes mantiveram-se ligados à música. Lafty, o licenciado em Filosofia que era suposto ter-se tornado professor - “tentei dois anos, mas não era a minha vocação estar numa sala em frente aos alunos” - foi tocando em hotéis com o vocalista Balla Sidibe e o baixista Charlie N’Diaye. Até que, em 1989, a editora World Circuit reeditou “Pirates Choice”, álbum de 1982, e a Orchestra Baobab começou a ser conhecida no Ocidente.
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