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Um cinema de festivais

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A relação obsessiva dos cineastas africanos com os catálogos e os calendários dos festivais confirma uma das excepções do cinema africano: trata-se dum cinema de festival e para os festivais.

Em conversa com os cineastas Sol de Carvalho e Pedro Pimenta para diferentes artigos do “O País”, a questão sobre se o cinema moçambicano era dos festivais repetiu-se. O cinema moçambicano, nos últimos anos, parece ter encontrado nos festivais internacionais uma porta para o mundo. No entanto, o especialista em cinema, o costa-marfinense Mahomed Bamba faria uma abertura mais “africanista” dos festivais em “Papel dos Festivais na Recepção dos Cinemas Africanos”.

Neste artigo, duma forma clara, uma construção histórica do cinema deste continente dá-nos uma visão não só dos festivais, como o papel do cinema em cada período. Diz Bamba que há 50 anos o cinema africano “nascia e afirmava-se como um cinema engajado, comprometido social e ideologicamente com as lutas de emancipação que agitavam toda a África nos períodos da descolonização”.

Mas aquela tendência cinematográfica que se verificava no período das lutas foi se perdendo por aquilo que Bamba classifica de “novas prioridades” que “afastaram os governos africanos do seu cinema”. Assim, a partir dos anos 70, os cinemas africanos “tornaram-se de vez filhos da cooperação cultural”. A opinião a qual Bamba se refere, de uma tendência mais “cooperacional”, não foge da mesma caracterização feita por Sol de Carvalho numa grande entrevista publicada no “O País Fim-de-semana”, onde o realizador moçambicano faz um olhar ao cinema nacional.

Mesmo reconhecendo a importância das cooperações culturais para o cinema africano, no artigo publicado ano passado no www.buala.org, Mahomed Bamba diz que muitas vozes denunciaram os efeitos perversos da política de ajuda, principalmente a francesa nas cinematografias africanas. Diz Bamba que os que mais se revoltam com estes apoios são os próprios cineastas que vêem, nesta forma de apoio, uma forma de desacelerar e “um empecilho à emergência de políticas cinematográficas endógenas”.

Estas críticas também fazem-se sentir em Moçambique, onde alguns cineastas justificam o facto de fazer-se tendencialmente cinemas de uma única linha – HIV/Sida, por exemplo – como uma imposição dos financiadores, muitas das vezes estrangeiros.

Mas estes “antagonismos” podem ser benéficos para o cinema africano. Como escreve Bamba, toda a ambiguidade da ajuda ocidental às cinematografias africanas decorre do facto de ela carregar boa parte das contradições que cercam as relações do ocidente com o outro e com essas culturas. Bamba vai buscar em Olivier Barlet a melhor forma de explicar essa relação paradoxal existente entre o ocidente e a África cinematográfica.

“Os sucessos dos filmes africanos fragilizaram esta cinematografia: há muita pressão sobre os conteúdos e a política de ajuda, ao corresponder a uma necessidade ocidental de imagens do sul, tende para uma adaptação às normas de qualidade internacional,” escreve Barlet citado por Bamba.

Mesmo assim, estes autores não falam duma “negação de ajuda”. Sol de Carvalho referiu-se a este ponto na entrevista ao “O País Cultural”, dizendo que o cinema ocidental assim como de Hollywood depende de apoios. Refere-se também a questão duma tendência a HIV e lembra “Filadélfia” como um bom exemplo.

Escrevíamos que estes autores e cineastas não estão contra uma cinematografia assistida, pois – dizem eles - “todo o cinema é, aliás, assistido, inclusive Hollywood”. O problema, de acordo com Barlet, neste artigo de Bamba “é que esta ajuda é baseada no princípio de um gesto bondoso de um centro em relação ao outro, à sua cultura e ao seu cinema, isto é, um cinema diferente. Isso não deixa de acarretar consequências no plano temático e ideológico, nos trabalhos dos cineastas africanos que se sentem cada vez mais impelidos a conformar os conteúdos de seus filmes às expectativas ligadas a esta solidariedade”.

Com ou sem ajuda, o cinema africano continua a ser feito com muita dificuldade, mesmo assim, os festivais dedicados exclusivamente a filmes de continente – constata Bamba – “multiplicam-se nos quatro cantos do mundo.” No entanto, estes festivais internacionais, que poderiam alavancar o lançamento comercial dos filmes realizados por cineastas africanos, acabam funcionando apenas como única oportunidade de exibição pública. Os maiores festivais europeus são um termómetro que afere a saúde do cinema feito na África: quando há mais filmes africanos seleccionados, por exemplo no festival de Cannes, isso é percebido pelos críticos como um sinal positivo da dinâmica da produção naquele ano. Ao contrário, a ausência dos filmes africanos da selecção oficial do maior festival do mundo durante dois anos consecutivos foi percebida como um sinal alarmante da situação que vem atravessando o cinema africano ao longo destes cinco anos.

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