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O fio da memória

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As entrevistas saltaram de um programa radiofónico para um livro para nos levarem de volta aos tempos, onde o romantismo dominava os sentimentos dos homens sensíveis, enquanto outros experimentavam as improvisações de jazz ou uma outra dança no Xipada. É “O Fio da Memória”.

Durante 14 anos, João de Sousa, da cabina de rádio, fez uma corrida na direcção inversa ao tempo para um “encontro com a memória”, quando a música criou os seus ídolos e os jovens de Moçambique Colonial iam a Xipada, no Xipamanine, dançar Spokes Machiane para esquecerem as frustrações, como disse Albino Magaia. Todos esses anos aparecem agora acumulados num livro com o mesmo nome do programa, “O Fio da Memória”.

O locutor que, aos 17 anos, apareceu em frente a António da Fonseca com uma humildade – isso o próprio Fonseca conta no prefácio do livro, que envergonha (o seu interlocutor) – foi buscar gente marcada pelas músicas dos anos em que Roberto Carlos embalava os corações apaixonados com o romantismo da poesia.

Arminda Reis que em 1996 foi ao “Fio da Memória” lembraria-se desse “flow” provocado pelas músicas do “rei”, que surgiu da Nova Guarda e fez a sua caminhada, por vezes, na companhia de Erasmo Carlos ou na velocidade de um “Calhambeque” para satisfazer a vontade das “mil garotas” que o admiravam pelo mundo.

“Eram músicas que nos arrastavam para a dança”, justifica-se Reis nessa entrevista reproduzida no livro de Sousa. “E hoje”, acrescenta, “lembrar Roberto Carlos é lembrar os meus tempos de escola, dos namoros, daqueles momentos em que nós começámos a despertar para a vida”.

Mas, quando Roberto Carlos entra para a rota moçambicana, Arminda Reis trabalhava e criara outros sonhos. “Eu sonhava com o romantismo, sonhava com o casamento ideal; sonhava com o futuro da minha vida.”

É neste “O Fio da Memória”, onde o autor teve preocupação de manter a “oralidade radiofónica” que recriámos mentalmente a segurança de Albino Magaia, quando fala do seu prazer de escrever, ouvindo música. Mas, era a música clássica que dominava o seu espaço de trabalho, quando se encontrasse em casa, “pelo simples facto dela ser envolvente”. É, também, segundo Magaia, “uma música que não nos obriga a termos que marcar o compasso com o pé ou com a mão.”

Mas Albino Magaia faz uma viagem musical pelo “Messias” de Haendel que o levava invariavelmente a lembrar-se do maestro Justino Chemane. “Lembrei-me dele, porque sei que o nosso maestro já trabalhou sobre uma parte instrumental do “Messias”.

Nesta entrevista a João de Sousa, o falecido jornalista “desafia” a sua memória numa conexão de lembranças. Maestro Chemane parece oferecer uma base para esse retorno, como acontece na referência a Daniel Marivate.

“Ele faz-me lembrar um outro músico que teve influência em Moçambique, e aventuro-me mesmo a dizer que teve influência em Chemane, que é Daniel Marivate. Ele tem aquelas músicas dos anos 50, naqueles tempos do gramofone, que são umas músicas lindas, lindas, lindas...”

Marivate era a estrela do tempo num Moçambique que a África do Sul era “el dourado”. Era idolatrado cá como no Gazankulo. E Albino Magaia faz um paralelismo entre ele e Chemane. “Depois ele (Marivate) ordenou-se sacerdote, teve o mesmo percurso que Chemane. O Chemane que tem músicas profanas e músicas litúrgicas”.

Magaia também faz uma parelha entre Chemane e um outro músico que se perdeu no silêncio do tempo. “Há um jovem cá da terra que tem um génio musical excelente, para não dizer fantástico. Ele chama-se Lararita. Só que esse jovem tem um problema. É ultra-sensível”.

Essa sensibilidade condenada por Magaia, teria, segundo o escritor e jornalista, responsável pela sua colocação no segundo plano musical, mas também o fez entrar para o clube dos românticos, havendo mesmo quem o chamasse de “Roberto Carlos moçambicano”.

Mas é no Xipada, quando os empregados domésticos, “os moleques” de Loureço Marques “aos fins de semana punham sapatilhas e andavam por aí a descarregar toda a raiva acumulada, toda a frustração,” iam danar Spokes Machiane.

No entanto, Magaia não era fiel. “Em relação à música, eu sou uma ‘prostituta’”, define-se. “Gosto de música... Música clássica, música moçambicana, música internacional, música de jazz...”

É no jazz também que encontramos Artur Garrido, que se deixou enfeitar primeiro por Nat King Cole de quem ouvia “When I Fall in Love”, quando punha disco e “cantava por cima”. Foi assim que ele aprendeu a falar inglês, pelo menos é o que o diz no “Fio da Memória”, de João de Sousa.

Garrido que era de Ressano Garcia, atravessaria com frequência a Komatiport para vasculhar nas discotecas tudo de Nat King Cole. Mas abriu-se para ouvir discos de Perry Como, “quando Perry cantava, dava-nos a impressão de que estava fora dos tempos, o que não era verdade”. Foi essa “impressão” que o fez gostar dele. Ou melhor, “tenho a impressão de que foi Perry Como que me influenciou a cantar Jazz”.

Mas seguiriam-se outros senhores da música. No entanto, seria marcado por Frank Sinatra depois de ver o seu filme e os amigos o chamariam de “Mr. Strangers in The Night”. “Essa canão marcou-mês bastante. Acho que canto bem essa canção”.

A outra figura que aparece no meio deste “Fio da Memória” é António Alves da Fonseca, que foi responsável pela entrada de João de Sousa para a Rádio (na altura Clube) Moçambique. Fonseca, como “senhor de rádio”, fez chegar a Lourenço Marques a notícia dos Acordos de Lusaka. Na altura da ocupação da Rádio, ele encontrava-se em Lusaka e estava a mandar, em deferido os discursos de Samora Machel.

“O Fio da Memória” é uma viagem pelo passado, feita através de vozes de gente como Leite de Vasconcelos que tem o seu nome ligado à Revolução de Abril em Portugal que contribuiu para o fim do colonialismo. Vasconcelos trabalhava na Rádio Renascença, foi responsável pela senha que iniciou a marcha contra o fascismo.

O livro editado pela Marimbique traz trinta e duas entrevistas com pessoas de diferentes áreas e tem como base, a música que ouviram ao longo da sua juventude. Na “nota do autor”, João de Sousa diz que o programa pensado por António Alves da Fonseca, Leite de Vasconcelos e Carlos Silva e que ele viria a ser a sua principal voz nos últimos anos teria se chamado “Para Maior dos Quarenta”. Não ficou com esse nome, mas as recordações levam-nos para “os maiores dos quarenta”.

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