Quarta, 23 Maio 2012 English Chinese (Simplified) Finnish French German Italian Portuguese Russian Spanish Login

Legislação Moçambicana & Documentos

Pesquisar neste portal

Login

 
• Esqueceu Password - Nome de utilizadorCriar nova conta

sales@euroasiatrucks.com

Japanese Car Exporter

Home Noticias Arte & Cultura LITERATURA AFRICANA - “No Interior da Noite” de Léonora Miano

LITERATURA AFRICANA - “No Interior da Noite” de Léonora Miano

PDFVersão para impressãoEnviar por E-mail

Léonora Miano nasceu em Douala, nos Camarões, e reside em França desde 1991. Depois do romance que é objecto de recensão hoje neste espaço, já publicou “Contornos do Dia que Nasce” e um terceiro. Em “No Interior da Noite” Eku era uma aldeia parada, escrava das tradições e do obscurantismo e das cíclicas calamidades naturais... A terra que Deus lhes tinha dado revelara-se avara... e as mulheres ficavam carregando nos ombros o mundo inteiro... Para além do peso do mundo...arrastavam consigo, no fundo de si próprias, desde o primeiro dia... o cadáver do sonho cujos despojos tinham sido encerrados num túmulo, para toda a eternidade..... a nobreza das mulheres estava no facto de terem sacrificado o sonho.

No meio desta mesmice mortal, surgiu um homem diferente: Eké. Casou com a estrangeira Aama. Ajudando-a, e não admitindo mais mulheres, transgredia as regras por que sempre se tinha regido o clã.Não emigrou, como os outros. Ficou na aldeia, e arranjou o se trabalho: fazia estatuetas, tigelas, e jarros, de barro vermelho. Não fazia parte dos costumes daquela gente tirar da terra algo mais do que o pão de cada dia. Era como o Fernão Capelo Gaivota, ou o Okolo de Gabriel Okara.

Aama era uma louca, aos olhos de todos os outros. Quis agir como se tivesse poder de decisão sobre a cadência que arrastava a ronda dos seus dias  Este casal era o inconformismo, o conflito entre a tradição e a modernidade Seguramente, os tempos tinham mudado. E esta mudança não augurava nada de bom. A aldeia condenou-os ao total isolamento. Só a velhinha Io se afeiçoou à Aama e ia à casa dela, correndo o risco da maldição da aldeia. De tanto a observar e escutar, conseguiu penetrar-lhe na alma... encontrava, pela primeira vez, um ser humano do qual era absolutamente inútil desconfiar.... Aama era feliz. Vivia naquele paraíso que as mulheres de Eku julgavam perdido.

Nasceu-lhes Ayané, menina enfezada, que cresceu, e foi estudar para longe, o que, mais uma vez, não fazia absolutamente nenhum sentido. As mulheres da aldeia consideraram-na louca e inútil como a mãe. Entretanto, o pai Eké morreu mordido por uma cobra.

A guerra civil chegou a Eku. A população pacata teve de se habituar à desordem das FORÇAS DA MUDANÇA. Foi no interior da noite que chegaram os guerrilheiros. Todos sabiam perfeitamente que, se nada podiam esperar do poder vigente, muito menos obteriam dos recém chegados.

O velho régulo Eyoum ... os seus pensamentos estavam agitados, naquela hora precisa, em que a noite se aproximava, trazendo consigo o reino do invisível. Tinha lágrimas no coração. O guerrilheiro Isilo explicou-lhe: atravessámos a água para restabelecer a verdade que os Brancos mascararam, quando vieram para aqui apossar-se das nossas vidas...a nossa história foi maltratada pelos colonos e a nossa família esqueceu-se de manter os laços que unem os seus membros uns aos outros. E exigiu-lhe jovens para a guerra. E repreendeu-o, por não lhe apresentar mais homens válidos. O velho ajoelhou-se diante dele, e Isilo mandou-o matar, ali mesmo, diante de todos. Escondida na copa de uma árvore, Ayané susteve a respiração, perante a facilidade com que o abateram. Ela conhecia Isilo : era gelado por dentro, insensível à sorte de quem quer que fosse, mas capaz, ao mesmo tempo, de se emocionar até às lágrimas, ao pensar em certas figuras históricas como Shaka...

Isilo discursou ao povo aterrado: tendes que tomar consciência do vosso valor e dos tesouros não materiais aqui conservados, em África, por vontade de Deus... as identidades africanas foram mutiladas, a espiritualidade destruída... era preciso apagar... todo o servilismo, o medo do futuro, a ignorância sobre si próprio... não era a água que devia ser usada, na limpeza, mas o sangue. Era mesmo necessário lavar toda aquela vergonha com o sagrado. Isilo justificava assim o sacrifício cruento de um rapazinho: O pequeno soltou um grito agudo, que para sempre ecoaria na memória de cada um. O uivo invadiu a noite. Os que o mataram não eram novatos em matéria de sacrifícios humanos. No interior da noite realizou-se aquele sacrifício humano macabro e redentor. Tinham de comer aquela carne da carne deles, e beber aquele sangue que circulava nas veias deles e os unia, o sangue da aliança eterna, derramado pelos filhos mais velhos do mundo, para remissão das traições feitas a si próprios. E foi o chefe Isilo a dar a todos esta comunhão macabra. Naquela noite, em Eku, era a África perdida, estupidificada pelo choque do encontro com outra cultura, que tentava reerguer-se. Mas o choque cultural que sofrera turvara-lhe o entendimento. Lembrando-se apenas vagamente do que era na realidade, reinventou-se de modo macabro, perante os aldeões reunidos.

Ayané, no seu esconderijo, ouvira aquele grito horrendo. Era o uivo que ouviria indefinidamente. O grito que transformaria todos os sons da sua existência num patético barulho de fundo. Quando os milicianos se foram, saiu do esconderijo e juntou-se à gente. Inoni descarregou sobre o seu marido toda a sua fúria, para o matar à enxadada, por ele não se ter recusado a colaborar na chacina da criança. E as outras mulheres condenaram e repudiaram os maridos. Ao ver Inone a matar o marido, com anuência das outras, Ayané era como ser projectada com a velocidade de um raio para um planeta inexplorado... estava certa de possuir já elementos suficientes para entrar no primeiro avião e virar para sempre costas àquela noite macabra. A sua presença ali não tinha mais sentido. Afinal, ela sentia desde a infância não pertencer àquela gente. Via com tristeza e revolta que toda a vida dos africanos era passada a evitar a morte. E a morte estava nas tradições. Naqueles comportamentos necrófilos... A morte transformara a África no seu reino.... Temiam a morte, mas viviam em permanente contacto com os mortos.

Fez-se o velório, no interior da noite, a nona desde a passagem dos homens armados por Eku, correspondia à altura em que os espíritos dos que tinham perdido a vida seriam libertados dos corpos. Por coincidência Ayané apareceu. Regressava a Eku para aí encontrar respostas para as questões, que, sem tréguas,  a atormentavam. Permitiram-lhe participar no velório. Durante a cerimónia, Inoni em vão pediu para confessar-se à comunidade: Tenho que expor os motivos do meu crime, uma vez que o homicídio, entre nós, faz parte dos actos mais repreensíveis, a par do incesto, da feitiçaria e do suicídio.

Em vão a tia de Ayané procurava fazer-lhe compreender os valores dos aldeões de Eku, a sua visão do mundo. Ayané só pensava na morte da Eyia, no facto de a comunidade o ter comido. No seu coração, não podia entrar luz. Todo o espaço era ocupado por aquele grito, aquele corpo mutilado. Tinha a certeza de que as trevas eram mais espessas em África do que nos outros sítios. O interior da noite era sobretudo no seu íntimo. Era a noite da sua profunda crise de identidade. Sentia-se como se tudo lhe tivesse sido tirado... lá fora, estavam as pessoas e a parte de si própria sobre a qual ignorava tudo. Uma das suas profundas conclusões: Chegou a altura de reconhecermos que participámos no nosso próprio massacre... Enquanto mendigamos a culpabilidade do ocidente, a quem poderão as nossas crianças exigir emendas?

Comentar

NOTA SOBRE COMENTÁRIOS:
- Os comentários publicados no “site” são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
- Ao comentar declara que todos os conteúdos por si enviados não infringem direito de terceiros e assume ser o único e exclusivo responsável por eventual prejuízo causado a terceiros.
- O conteúdos dos comentários não exprimem de forma alguma a opinião do Zambézia Online e muito menos a manutenção de tais conteúdos no “site” poderá ser considerada como uma concordância do Zambézia Online com relação a tais conteúdos.


Código de segurança
Actualizar

Economia & Negócios

Recursos moçambicanos atraem empresas britânicas
“A interacção com empresários brit...
EUA lideram investimento estrangeiro em Moçambique
África do Sul, Maurícias e Portugal ...

Actualidade Nacional

Código de ética veda conflito de interesses
A Asembleia da República aprovou ontem...
“Giovanna” dissipa-se mas alerta mantém-se
O Ciclone “Giovanna”, que se encont...

Desporto

Mart Nooij afastado dos "Mambas"
  O TÉCNICO holandês Mart Nooij foi ...

Africa

UA reconhece CNT como Governo líbio
  A UNIÃO Africana (UA) reconheceu on...