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REPORTAGEM - Xiquelekedani já não vive na rua

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Com recursos florestais diversos, desde madeira, pele e chifres de animais selvagens a outras matérias-primas peculiares, e com um mínimo de criatividade, artesãos colocam a mão na massa e produzem diversas obras de artesanato. É na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo (FEIMA), recentemente inaugurada pelo edil de Maputo, David Simango, que os artesãos expõem as suas obras – e fazem algum dinheiro. Tudo indica que melhores dias virão, uma vez que a feira é nova e precisa de uma maior divulgação. Os expositores estão optimistas quanto a isso, apesar de enfrentarem o momento da mudança, uma vez que antes se encontravam a desenvolver as suas actividades na rua.

Foram dias de trabalho intenso os que marcaram a transferência dos artesãos e vendedores de artesanato de algumas ruas do centro da cidade para o espaço da nova feira, em pleno Parque dos Continuadores.

Há artesãos e outros vendedores de artesanato que ainda demonstram alguma resistência em aderir à feira por entenderem que o melhor é continuarem a caçar os seus clientes nas ruas do centro da cidade, com particular destaque para as avenidas Julius Nyerere e 25 de Setembro.

“É característica de qualquer momento de mudança de uma realidade para a outra”, segundo o gestor do projecto, Estêvão Machado Langa. Não são somente os expositores os convidados a mudarem de mentalidade, os compradores também. “No lugar de irem à rua, na feira permanente os compradores têm mais opções de escolha, pois é onde encontram várias obras expostas”, elucidou a fonte.

Montada junto ao Parque dos Continuadores, a FEIMA é um autêntico labirinto que se estende pelo parque como uma espécie de serpente, desdobrando-se em curvas desde a entrada que se situa do lado da avenida Mártires da Machava, até lá para os lados da avenida Mao Tsé Tung, onde se encontram os floristas. É nesse labirinto do parque, coberto com chapas, que os compradores que chegam ao local se perdem. No meio de diversas obras de artesanato que lembram a própria floresta selvagem, há girafas, rinocerontes, tartarugas, elefantes, aves e outras espécies selvagens. São peças feitas a pau-preto, pau-rosa, sândalo, jambire, umbila, lacata, entre outros materiais, as quais atraem a atenção dos turistas e outros compradores afins.


DA CAÇA AO TURISTA AO DÓLAR

É onde encontramos Castelo Alfredo, artesão, 25 anos. Ele aprendeu a esculpir obras de artesanato com os seus pais, que sempre viveram na base daquela actividade. Para ele, cada obra tem sua própria identidade, conhece-a pelo seu próprio nome. Mas quando chegam os clientes, prefere tratar cada obra pela sua utilidade, pois os clientes são curiosos e querem perceber ao mínimo pormenor antes de adquirirem qualquer peça apreciada. É o caso, por exemplo, das travessas, estátuas de família, caixas-baús, recipientes para canetas no escritório, batuques, mapas de África e de Moçambique, violas, entre outros.

Enquanto polia com pomada de sapatos um porta retrato feito com madeira sândalo de forma a ganhar brilho, Francisco Domingo, artesão, 27 anos, contava-nos a sua experiência iniciada há 16 anos no bairro de São Damaso. Foi com os seus pais que aprendeu a desenvolver aquela actividade.

Domingo explicou que há turistas que não gostam de ver obras feitas com peles ou chifres de animais. Sobretudo os turistas, pois eles dizem que eles estão a matar animais para ganharem dinheiro. “É por isso que no lugar de chifres de animal ou mesmo de marfim, usamos plástico”, elucidou a nossa fonte.

A maior parte da madeira que usam os artesãos que expõem as suas obras na feira vem da zona sul do país, mas há madeiras preciosas como o caso de pau-preto que vem da zona norte.

Para Castelo Alfredo e Francisco Domingo ainda é difícil avaliar a actividade na nova feira, uma vez que a mesma funciona há somente duas semanas. Entretanto, eles esperam melhores dias. “É preciso divulgar mais a iniciativa”, disse Domingo.


ROUPA AFRICANA A RIGOR

Enquanto nos perdíamos no labirinto da feira, obedecendo as curvas que a cobertura espécie serpente nos induzia, no meio daquela representação que nos lembra a selva, íamos descobrindo também a multiplicidade das obras expostas.

É o caso, por exemplo, das obras da senhora Célia Fernanda. Esperamos enquanto ela tirava as medidas de uma cliente que queria requisitar um vestido. É exactamente o que ela faz: roupas de croché e capulana. Ela antes desenvolvia a sua actividade em casa, mas logo que ouviu falar do espaço da feira, aderiu à iniciativa. Para além de roupas, estão ali expostos outros adereços que interessam à beleza feminina, incluindo bolsas, carteiras, fios de missanga.

Fernanda está satisfeita com o negócio, mas reclama o espaço por ser pequeno. Contudo, disse Fernanda, “é melhor do que estar na rua. Espero ter mais clientes”.

Ao lado desta senhora, está um outro artesão. Antes mesmo de o abordarmos, ele já vai atirando que o jornalista é um parceiro. “Nós aqui temos muita coisa que as pessoas procuram, mas ainda não conhecem este lugar. É preciso promovê-lo aqui e além fronteiras, usando o nome de Moçambique e atraindo mais os turistas”, disse.

Mais a frente há mais expositores de roupa africana, havendo também os que exibem camisetas com símbolos da africanidade, mostrando a identidade cultural africana. É visível a bandeira de Moçambique nas camisetas expostas no local.


TRIBO MASSAI

Na indústria do artesanato há sensivelmente um ano, Pires Barbosa começa por dizer que não é a pessoa indicada para falar da sua actividade. “Fale com os mais velhos, eles têm mais experiência”, disse.

Insistimos e, sem mais, ele foi desfilando o rolo. Falou daquelas estatuetas que ultrapassam a sua altura. “Estas estatuetas representam a tribo massai, os homens e as mulheres em idade primitiva. São, geralmente, as mais procuradas, sobretudo quando tiverem sido feitas com recurso a madeira preciosa, como o caso de pau-preto”, elucidou Barbosa.

Há, ao seu lado, outras estátuas, com menor altura. São caçadores, andam com lanças e escudos. Estes foram feitos com madeira menos resistente, mais sensível, mas o nosso interlocutor avisa-nos que nada disso retira a beleza dos objectos. “As vezes trabalhamos com pau-ferro, mas hoje não temos”, disse a nossa fonte.


NO MEIO DE PLANTAS E FLORES

É do lado da avenida Mao Tsé Tung que fica a floricultura. Miguel Samuel, 28 anos, mostra-nos várias plantas que ali expõe, como o caso de grão de arroz, maranta, bongavília, bananeira de jardim, bambu, difambaquia, frangipani, ibiscas, diversidade de crótonis, ficos, cactos, espargos, fetos, violetas, alecrim, lavanda, doranas, entre outras.

Samuel diz que foi uma excelente ideia manter os expositores de plantas e flores virados para fora da feira, visto que geralmente as pessoas que precisam de flores nem descem dos seus carros. “Basta dizerem o tipo que querem para nós entregarmos”, destacou o expositor.

Mesmo assim, a fonte referiu que há alguns aspectos que precisam de ser melhorados. É o caso, por exemplo, da necessidade de se montar um alpendre, uma vez que algumas plantas não suportam o calor.

Nos dias de sol intenso, como no passado sábado, o negócio dos floristas sofre grandes quebras. É o que nos disse Julião Cuna, 33 anos. Embora as suas rosas, lírios, cravinos, cravos, mamos, maminhos, casa brancas, bungavílias e outras flores estejam num lugar coberto por um alpendre, as mesmas sofrem com o calor que se faz sentir. “Porque a cobertura é de chapas, quando aquece, as flores murcham”, destacou.

Há dois anos no negócio das flores, maioritariamente trazidas da África do Sul, Cuna entende que as flores devem ser vendidas debaixo da árvore.

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