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Invasão "boer" a Matola: Reafirmada cooperação Moçambique-África do Sul

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O Ministro sul-africano da Arte e Cultura, Paul Mashatile, disse ontem que a invasão das tropas do ex-regime do “apartheid” à cidade da Matola, na madrugada de 30 de Janeiro de 1981, deve servir de ponte para o reforço da cooperação entre Moçambique e o seu país.
Paul Mashatile falava na Escola Central do partido Frelimo perante centenas de moçambicanos e sul-africanos que ontem se juntaram para comemorar os 30 anos da invasão das tropas do ex-regime do “apartheid” à cidade da Matola. O titular da pasta da Arte e Cultura da RAS afirmou que o ataque afectou a soberania de Moçambique, desafiou a sua dignidade e violou a sua integridade territorial.

O dirigente do Governo sul-africano reiterou que a fatídica invasão das tropas do ex-regime sul-africano a Matola não mais acontecerá e a RAS continuará a viver em paz com os seus vizinhos na região.

“Iremos usar o nosso legado para promover o contacto entre as pessoas. Reafirmamos o nosso cometimento de lutar contra a xenofobia e todos os actos errados que afectam o continente”, disse, acrescentando que Moçambique continua a ser um parceiro próximo e privilegiado da África do Sul.

Para Paul Mashatile, Moçambique e África do Sul partilham duma visão comum, na perspectiva de preservação e valorização do legado e herança cultural. Num gesto de consolo aos familiares das vítimas do assassinato, aquele governante sul-africano afirmou que estes devem se sentir confortados por saberem que o sangue derramado pelos seus ente queridos em Moçambique e noutros países do continente não foi em vão.

Por seu turno, o Ministro moçambicano da Cultura, Armando Artur, afirmou que a comemoração dos 30 anos da invasão das tropas do ex-regime do “apartheid” à cidade da Matola tem lugar no ano em que também se comemora o 25° aniversário do desaparecimento físico do Presidente Samora Machel. O Governo moçambicano declarou 2011 Ano Samora Machel.

Armando Artur explicou, na ocasião, que foi a 14 de Fevereiro de 1981 que o falecido Presidente Samora Machel, após o raid da Matola, fez um importante discurso no qual reafirmou o apoio incondicional à causa do Congresso Nacional Africano (ANC) e do povo sul-africano na luta pela liberdade e erradicação do sistema do “apartheid” na RAS. Samora Machel declarou 14 de Fevereiro Dia de Amizade entre Moçambique e África do Sul, durante as comemorações do primeiro aniversário do ataque à Matola.
Casa “Ninho do Terror”
Casa “Ninho do Terror”
MEMORIAL EM HOMENAGEM ÀS VÍTIMAS DA BARBARIDADE



UM memorial e um centro de interpretação serão construídos na cidade da Matola em homenagem às vítimas da invasão das tropas do ex-regime do “apartheid”. As obras de construção arrancam já no próximo mês e segundo foi anunciado nas cerimónias comemorativas, o memorial e o centro de interpretação serão erguidos na ex-Praça Quatro Cantinas, hoje Praça da Juventude.

Trata-se dum projecto conjunto Mocambique-África do Sul, cujo memorando de entendimento foi ainda ontem rubricado pelos titulares da Cultura e Arte dos dois países. Um comité intergovernamental, envolvendo técnicos de Moçambique e da África do Sul já lançou mão à obra. As duas partes irão estabelecer uma estrutura e plano de gestão conjunta do futuro memorial e centro de interpretação.

Armando Artur disse que com este projecto, as duas partes pretendem perpetuar a obra e os feitos dos irmãos tombados pela causa da liberdade e igualdade entre os homens, contribuindo dessa forma para a paz e convivência harmoniosa na região e no mundo.

Segundo apurámos, a Praça da Juventude, onde será erguido o memorial, vai mudar completamente de face. Mas as árvores que hoje a circundam não serão deitadas abaixo. O monumento terá três grandes pilares que simbolizam as três casas que acomodavam guerrilheiros do ANC atacados pelas tropas do ex-regime do “apartheid”. Ao lado dos pilares serão erguidos outros simbolizando outras residências atingidas e todos ostentarão os nomes dos heróis do ANC.

As estradas que dão acesso à praça serão totalmente melhoradas e criadas outro tipo de condições à sua volta. O exterior do centro interpretativo vai ostentar todos os nomes dos heróis do ANC e o seu interior será equipado com modernos equipamentos electrónicos. Estará disponível no centro interpretativo a documentação sobre o ataque, bem como toda a informação relativa à guerra travada pelo ANC contra o “apartheid”. O centro deverá ser alimentado por um sistema de energia altamente controlado de tal forma que não afecte o meio ambiente.

O ACTO COMEMORATIVO

O ACTO comemorativo começou logo pela manhã, com a realização duma cerimónia de deposição de flores no Cemitério de Lhanguene. Os sul-africanos mobilizaram-se em peso para conferir a merecida dignidade aos seus heróis. Tudo estava organizado até ao último detalhe. Viaturas de luxo vieram da África do Sul e outras mobilizadas a nível interno, transportando ilustres figuras do ANC. Para além do ministro da Arte e Cultura, as autoridades sul-africanas destacaram outras figuras do seu Executivo, incluindo o chefe do Exército.

Também presenciaram à cerimónia deputados sul-africanos, veteranos e combatentes do Umkhonto We Sizwe, braço armado do ANC, entre outras figuras de proa na história de libertação da África do Sul e da política sul-africana.

O Bispo dos Libombos, Dom Dinis Sengulane, foi quem proferiu a oração. Do lado moçambicano, presenciaram a cerimónia os ministros da Cultura e da Presidência para os Assuntos Sociais, Feliciano Gundana, e o veterano e fundador da Frente de Libertação de Moçambique, Marcelino dos Santos, entre outras figuras.

Após a cerimónia de deposição de flores, e já na cidade da Matola, foram visitadas as três casas onde ocorreu o assassinato dos militantes do ANC. Uma dessas casas, senão a principal, é a chamada casa “Ninho do Terror”, onde era traçada a estratégia de guerra dos guerrilheiros do ANC em Moçambique. Situa-se na Avenida Ngungunhane número 877. A denominação “Ninho do Terror” foi dada pelos generais sul-africanos do “apartheid”.

A casa “Ninho do Terror” é hoje uma residência particular pertença do cidadão Pedro Muianga, que nos disse que aquando do ataque, foram mortos nove militantes do ANC e um soldado “boer”, que atacou a residência, também foi morto, numa acção de reacção à barbaridade. Conta o velho Muianga que provavelmente os soldados sul-africanos terão usado armas de tiro curvo, pois na varanda do segundo piso podem-se ver marcas de balas.

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