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Cidade da Beira: A desordem instalou-se na zona da Praia Nova

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No centro da cidade da Beira, a segunda maior do país, continua a crescer uma aldeia constituída por casotas na sua maioria erguidas com base em caniço e sem qualquer orientação urbanística. Trata-se de uma situação desoladora para quem decide visitar a Praia Nova, como é conhecido o local, concretamente na zona “B”, onde gravitam uma imensidão de males sociais e ambientais. Apesar de a referida zona aparentar estar sob controlo do poder político-administrativo daquela autarquia, na verdade, os seus moradores e futuros hospitaleiros vivem uma autêntica anarquia, fazendo o que bem quiserem, concretamente na área de edificação. A Praia Nova é uma pequena república naquela urbe, onde a ordem não é cumprida.

Aliás, a desordem parece ser apadrinhada pelos órgãos Estatais que por sua incumbência deviam pôr algum freio aos malefícios que dia pós dia se multiplicam naquela área.

Para quem chegue à cidade da Beira pela primeira vez e depare com o “modus vivendi” dos moradores da Praia Nova, a primeira impressão será talvez que a zona é um campo de refugiados ou um local onde estão a decorrer filmagens de terror.

Na verdade, um número considerável de pessoas que passaram a residir na zona “B” vem de diferentes pontos. Uns das zonas rurais e outros preferiram vender ou arrendar as suas moradias nas zonas de cimento para viver naquela área.

A precariedade da zona fez com que os moradores da zona “A”, ainda naquela área, saíssem em debandada para a já lotada zona “B” devido à gritante problemática de erosão que afecta quase toda a costa beirense.

O cenário começou a ganhar outro espaço nos últimos três meses, sob o olhar passivo de quem de direito. Maior parte das casas está nas proximidades da marginal que dá acesso ao Palácio dos Casamentos, com muita imundície à mistura.

São casas que, igualmente, foram edificadas junto de algumas valas de drenagem, além de charcos que estão a condicionar a propagação de mosquitos e outros insectos causadores de várias doenças, com destaque para malária e cólera.

“Estamos na Praia Nova há 10 anos, antes vivíamos na zona “A”, mas por causa da erosão tivemos que sair. Aqui na zona “B” estamos há três meses. Estamos cientes de que estes charcos à volta da nossa casa vão nos criar doenças, mas não temos outra saída, aqui que é o nosso local. Para conseguir um talhão é um problema sério”, lamentou um dos residentes locais identificado pelo nome de Atanásio Guerra.

Guerra falava na companhia da sua esposa cujo nome preferiram não revelar. Eles disseram que as autoridades municipais teriam recentemente feito um levantamento das pessoas residentes na Praia Nova, para alegadamente lhes ser atribuídos talhões em lugares seguros, mas os moradores não mostraram muita fé no assunto por advogarem que este “ disco já está muito riscado”.

“Como havia dito, nós moramos na Praia Nova há 10 anos. O município já falou sobre o assunto várias vezes, mas nunca saímos. Na verdade, a primeira vez que ouvi falar desta nossa transferência foi em 2003 e sempre as zonas de Chota e Maraza têm sido apontadas como sendo as que serão a solução do nosso problema, mas na prática nada acontece.


ESFAQUEAMENTOS NA ORDEM DO DIA

ALÉM da malária e diarreias, outra inquietação apresentada pelo responsável da praia Nova está relacionada com a criminalidade. Disse, a propósito, que diariamente há registo de casos de esfaqueamentos relacionados com assaltos na calada da noite.

“Há muitos jovens que bebem demais aqui e nas noites procuraram assaltar aos outros, só que muitas vezes isso termina em esfaqueamentos quando a vítima tenta resistir. Tivemos há dias na zona “B” um caso de um senhor que foi agredido e tiraram-lhe a receita toda da venda de peixe, estimada em mais de três mil meticais. Coitado, o homenzinho ficou sem os dedos, além de esfaqueamento de que foi vítima em outras parte do corpo. A situação não está boa, aqui”, deplorou      

Entretanto, as informações à volta da retirada da população da zona “B” da Praia Nova para uma outra região têm várias explicações. Uma delas, segundo os locais, está relacionada com a cedência do espaço a um grupo de chineses que poderá desenvolver alguma actividade comerciais, dai que algumas pessoas acreditam que a saída poderá desta vez ser consumada por haver interesses fortes por parte da edilidade.

Aliás, recentemente, o presidente do Conselho Municipal da Cidade da Beira teria visitado a Praia Nova, onde garantiu que a edilidade iria ceder uma área com talhões bem divididos para as pessoas em alusão. “Passaram por aqui alguns responsáveis do bairro e exigiram que nós déssemos fotocópias de BI’s e já entregámos. Eles disseram que estão a fazer um levantamento para saber quantas famílias existem aqui na Praia Nova para depois nos retirarem daqui para uma zona já parcelada. Disseram-nos também que esta zona ‘B’ vai ser ocupada pelos chineses e já estamos a ver máquinas, como é o caso de uma niveladora”, afirmou a residente Marta Manuel.

Questionado a-propósito, o secretário adjunto do bairro da Praia Nova, João Xavier José, disse ao “Notícias” não possuir qualquer informação oficial que assegure que existe um projecto de ocupação da zona “B” e que esteja relacionado com os chineses. Assegurou no entanto que é um dado adquirido que a população será transferida para uma zona já parcelada.

“Os nossos superiores já disseram que esta população vai sair daqui. Para onde, nós não sabemos, até que quando o senhor presidente Daviz Simango visitou a zona “B” também falou disso e nós já cumprimos a sua orientação que é de fazer o levantamento das famílias existentes”, referiu José.

Em todo o caso, José disse que todas as construções que estão sendo levadas a cabo ou erguidas recentemente são ilegais, mas a edilidade está a evitar tirar as pessoas de forma compulsiva para evitar outros transtornos a isso relacionado.

“Toda gente sabe que é proibido construir aqui, mas teimosamente continuam a fazer casas. O município nunca parcelou aqui na Praia Nova porque está consciente de que isso não é admissível devido a problemas ambientais. Até que o Conselho Municipal da Beira quis retirar as pessoas, mas chegou à conclusão de que não era ideal, tinha que ser de forma pacífica. Por isso, as pessoas serão posteriormente encaminhadas para uma zona parcelada onde poderão construir as suas habitações”, recordou.
(F. Vicente)


EDM E FIPAG APADRINHAM ILEGALIDADES?

NÃO é só a aparente passividade do Conselho Municipal da Beira que encoraja as construções desordenadas. Há também a registar as actividades das empresas Electricidade de Moçambique e do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG), na cidade, que consistem em estender os seus trabalhos naquela zona o que tem estado a encorajar estas práticas de expansionismo.

As actividades levadas a cabo por estas empresas têm sido apontadas por vários citadinos como sendo um incentivo para que se perpetuem as edificações desordenadas. Um cidadão que se manifestou contra a proliferação de construções desordenadas no centro da cidade e que vem adensar a precariedade sanitária naquela área, disse que a continuar o processo de electrificação e extensão de abastecimento de água àquela zona será impossível desencorajar as pessoas a permanecerem lá..

“Temos vários exemplos em que as pessoas já não saem depois de notarem um certo apoio público. O Grande Hotel é um destes locais onde a sua habitação devia ser desencorajada”, disse a fonte, tendo depois reiterado que com a precariedade que os cidadãos experimentam seria quase difícil combater a pobreza urbana.
(F. Vicente)


NÃO HÁ INTENÇÃO DE MANTER AS PESSOAS NA PRAIA NOVA

Na última sessão da Assembleia Municipal da Beira, o presidente do município, Daviz Simango garantiu que estava em vista o processo de transferência das famílias da Praia Nova para um lugar melhor.

A ideia da autarquia, segundo explicou, é tornar aquele espaço livre e buscar investidores, isso para permitir que sejam realizadas algumas actividades para a protecção da costa.

Simango explicou aos membros daquele órgão autárquico que não há qualquer intenção de querer manter as populações naquele espaço e se isso está a acontecer é porque há muitas famílias que precisam de ser reassentadas e para isso é necessário procurar um espaço condigno.

Entretanto, questionado pela bancada da Renamo, sobre se a projectada construção de um hotel naquela área tinha sido antecedida de algum estudo de impacto ambiental, Simango fechou-se em copas limitando-se apenas a confirmar a cedência do espaço em questão.

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