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Nampula: Homens e gatos disputam ratos

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“TROLÍ” ou “tchorró”. Tem a mesma tradução em várias regiões deste vasto Moçambique. Está ligado ao rato, animal largamente consumido em diferentes zonas, com enfoque para a província de Nampula, onde virou um negócio rentável e que por isso garante “o pão de cada dia” de muitas famílias, sobretudo nos centros urbanos. Por mais insólito que pareça, os gatos, que gostam de rato, também vão à luta, mas nada apanham. A nossa Reportagem apurou que actualmente, o volume de negócio resultante da venda do rato é significativo que permite a aquisição de outros produtos alimentares considerados básicos, particularmente o peixe fresco ou seco, verduras ou feijões que fazem parte do cardápio diário de muitas famílias, nos locais onde é comercializado.

Em conversa com os praticantes daquele negócio, soubemos que a maioria provém dos distritos potencialmente agrícolas, no caso vertente de Meconta, Mecubúri, Monapo, alem de Lalaua, Mogovolas e Ribáuè, por sinal produtores de algodão e amendoim dos quais o rato, preferencialmente, se alimenta.

Joaquim Manuel, residente na vila de Namialo, distrito Meconta, conta como se envolveu no negócio, na forma de caça e processamento do rato. No entanto, preferiu iniciar a sua narrativa abordando os lucros que consegue. “Em cada saco de cerca de 75 quilogramas de ratos, amealho 1500 meticais, deduzidos dos custos de transporte de Namialo a cidade de Nampula. Diariamente vendo no mínimo três sacos, quantidade que sobe aos fins-de-semana e feriados, porque a clientela aflui significativamente a este mercado”.

A caça aos ratos, segundo o nosso interlocutor, com recurso a ratoeiras tradicionais, acontece, regra geral, no período da noite e a escuridão traduz-se numa vantagem, pois facilmente o animal cai na armadilha, que numa sentada apanha cerca de dez unidades, num intervalo de quinze minutos. “Eu e a minha esposa não dormimos à noite, porque dependemos do negócio do rato para sobreviver”, acrescentou Joaquim Manuel.

“Com os ganhos resultantes da venda de ratos já estou a construir uma casa com material convencional, a qual irei apetrechar com mobiliário que uma pessoa da cidade não tem. Estou também a apoiar a família. Tenho dois irmãos que frequentam o ensino secundário, em Namialo, eu é que pago através negócio”, disse orgulhoso o nosso interlocutor.

O processamento do rato para escoamento e colocação no mercado obedece a duas fases cruciais que Rufino Gabriel, caçador baseado em Muzerepane, distrito de Monapo, se encarregou de explicar.

“Terminada a caça, fervemos os ratos por um curto período de tempo e depois secamo-los como se procede em relação ao peixe fumado e no final colocamos em caixas de papel ou sacos para que sejam facilmente transportado e em boas condições de higiene para o mercado”.

A nossa fonte ocupava-se, antes de enveredar pelo negócio de ratos, da actividade agrícola e comercialização de excedentes. Contudo, as facilidades de amealhar margens de lucro relativamente altas e fáceis empurraram-no para a caça e venda de ratos que, segundo ele, não tem época pois aquele roedor abunda na sua região de origem.

“Por isso, tenho uma motorizada e casa melhorada. Neste momento estou a reunir condições para a ligação de energia eléctrica na residência e se tudo correr como planeei vou comprar um televisor grande para projectar sessões de filmes, através de vídeo, o que constituirá uma outra fonte de receitas pois, com as chuvas o rato poderá escassear”, disse.


CONSUMIDORES NÃO ABDICAM

Mendes Nafende, 56 anos de idade, canalizador, de profissão, confidenciou-nos que consome carne de rato desde a sua infância, influenciado pelos seus progenitores e que nunca teve nenhum problema de saúde pelo facto e por essa e outras razões assegurou-nos que nunca abdica daquele alimento sempre que o dinheiro existir para reforçar a sua dieta.

“As minhas férias anuais têm sido geralmente gozadas na minha terra natal Ribáuè e o rato não falta na refeição ou no petisco, quando estamos no momento de consumo de bebidas alcoólicas. Não me recordo de alguém da minha família que se tenha queixado de dores ou mal-estar por ter consumido um rato”, explicou.

O nosso entrevistado referiu-se à necessidade de haver conhecimento sobre o tipo de rato que pode ir à panela ou ao espeto para afastar o risco de incluir aquele que tenha antes consumido raticida, para evitar possíveis complicações na saúde do consumidor.

Mendes Nafende disse que a tradição da sua zona de origem confere “direitos” ao homem de ser o primeiro a ser servido independentemente da refeição do dia e de existir ou não crianças no seio da família, no momento de comer. Reforça que “quando se trata de caril de carne de rato a minha esposa não pode nem deve tomar a liberdade de abrir a panela, não obstante ter sido ela a confeccioná-lo”.

Mas o pior pode acontecer tudo em torno do caril de carne de rato. “Se a minha esposa decidir tomar a refeição na minha ausência, tenho a autoridade de pedir o divórcio porque ai ela atropelou a nossa tradição”, revelou o entrevistado, ajuntando que se trata de uma prática oficializada no meio rural da sua zona de origem.
Mendes Nafende


NEGÓCIO QUE MINIMIZA PREJUÍZOS NA AGRICULTURA

OS produtores, sobretudo de culturas alimentares, em Nampula, estão de mãos dadas com os caçadores de ratos e segundo soubemos a sua aliança consubstancia-se pela criação de condições de parte dos camponeses para que a caça de ratos tenha êxitos esperados em termos de quantidades alcançadas.

A aliança não é para menos, pois o nível de perdas pós-colheitas, na província de Nampula, situa-se neste momento, em cerca de 50 mil toneladas, o equivalente a um porcento em relação à sua produção global.

O negócio de ratos em Nampula constitui uma actividade complementar aos esforços que a província desenvolve no sentido de reduzir a níveis insignificantes, das perdas pós-colheita, sobretudo nas culturas alimentares.

João Duarte, chefe dos Serviços Provinciais da Agricultura, fez uma revelação curiosa segundo a qual a abundância de ratos no meio rural é sinónimo de uma boa colheita e motivo de cerimónias tradicionais, onde são evocados os antepassados para proteger as comunidades contra calamidades naturais, particularmente a fome, secas e cheias.

O sector da Agricultura, em Nampula, tem disponíveis, todos os anos, quantidades significativas de raticidas que distribui aos produtores, segundo as suas necessidades para o combate aos ratos. Contudo, segundo João Duarte, os produtores não fazem o seu uso, pois, preferem caçar os ratos com recurso a armadilhas para consumir e comercializar a carne daquele roedor. 


CARNE DE RATO RICA EM PROTEÍNAS

POR aquilo que se diz, em adágio popular, a carne de rato possui quantidades significativas de fósforo, que aumenta o nível de inteligência entre os consumidores. Garcia Sevene, responsável da Repartição de Nutrição na Direcção Provincial da Saúde em Nampula, diz que essa posição não pode ser menosprezada.

“A carne de rato, como qualquer outra carne, possui proteína animal fundamental para a dieta do homem. No entanto, a dieta do próprio rato baseada em oleaginosas como amendoim, gergelim, girassol, milho e sementes de algodão, conferem-no um elevado sabor e consequentemente, aumenta a preferência pela sua carne por uma larga maioria no nosso país”, acrescentou aquele especialista em nutrição.

Sublinhou que a carne de rato quando bem confeccionada e conservada afasta todo o perigo que possa constituir para saúde. Por essa razão, aconselha-se o seu consumo pois é rica em fósforo e em outras proteínas.

Contudo, chamou à atenção dos vendedores, em relação às condições de higiene do produto. É que no mercado informal, a carne de rato é exposta a moscas e a outros insectos, que podem contaminá-la, o que pode provocar problemas de saúde ao homem.

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