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Abandono dos doentes nos hospitais

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À medida que os residentes dos centros urbanos do país, particularmente a cidade do Maputo, sofrem na pele o alto custo de vida, emitem sinais aparentes de perda de valores morais. De há algum tempo a esta parte, por exemplo, multiplicam-se casos de abandono de doentes nos hospitais por parte dos respectivos familiares, o que concorre para a subida do número de corpos sepultados na vala comum do Cemitério de Lhanguene. A nossa Reportagem saiu à rua para tentar perceber as possíveis causas do fenómeno, espevitada por uma condenação pública à atitude tomada este ano pelo Dr. Ivo Garrido, na altura ministro da Saúde. Entre as várias hipóteses avançadas pelo pessoal hospitalar, cientistas sociais e líderes religiosos a mais comum é a pobreza financeira.

De facto, os doentes abandonados pelos familiares nos hospitais com os quais o “Notícias” travou contacto, parecem corroborar com a leitura feita pelos responsáveis das unidades sanitárias visitadas, nomeadamente os hospitais gerais José Macamo e Mavalane e o Hospital Central de Maputo.

Chamados a interpretar a situação, sociólogos e líderes religiosos ouvidos também convergem na contínua degradação das condições financeiras dos citadinos, numa altura em que todos se vêem obrigados a fazer algo para gerar renda, não havendo espaço para dedicar maior atenção aos doentes.

Como reflexo desse quadro, os enterros na vala comum tendem a disparar na cidade do Maputo. Só nos primeiros seis meses do corrente ano, cerca de 1150 corpos aparentemente sem familiares para os reclamar junto dos hospitais e os enterrar condignamente foram sepultados na vala de “Lhanguene”.


NA PELE DOS ABANDONADOS

Os casos de abandono de doentes registam-se em quase todas as unidades sanitárias da cidade de Maputo e até do país, segundo apurou a nossa Reportagem, mas é no Hospital Central de Maputo (HCM) que o “Notícias” travou um contacto directo com as vítimas do fenómeno. Aparentemente, episódios diferentes acabam desaguando no mesmo ponto: deram entrada no hospital, onde foram tratados da doença mas, embora com alta, lá permanecem no lugar de doentes pois não têm para onde ir.

De acordo com Tolita Guiliche, chefe do Serviço Social do hcm, pelo menos sete doentes entre 20 e 39 anos, cinco com mais de 60 anos e 22 crianças até 14 anos foram ao longo deste ano largados pelos familiares naquela unidade. Na sua maioria vítimas de enfermidades crónicas, as pessoas chegam àquela casa acompanhadas de um familiar, que deixa contactos falsos, ou transferidas de outros hospitais.

Fora da visita, o drama começa quando termina o internamento e o doente permanece na enfermaria à espera dos familiares que nunca mais voltam. A situação piora em casos de morte onde a solução é o enterro do corpo na vala comum. “É tanta gente que vai para a vala comum por os familiares não reclamarem os corpos”, garante amargurada a responsável.

Até finais de Outubro, entre vários doentes sem familiares, figurava Diana Flora, uma adolescente abandonada na Medicina há três meses, Evaristo Quitéria, na Cirurgia 2 e Esperança Viegas Mahumane, uma idosa na Cirurgia 3, embora com alta há quase um mês.

Diana, com uma perturbação mental, deu entrada no HCM transferida de HG José Macamo. O HCM já tentou passá-la ao cuidado das direcções da Mulher e Acção Social da cidade e província de Maputo, mas nenhuma daquelas instituições aceita acolhê-la, alegando falta de espaço.

Evaristo Quitéria, outro abandonado, teve enquanto doente visitas de uma senhora que alegava ter o apanhado na rua, mas quando tudo indicava que iria ter alta a mulher nunca mais pôs lá os pés.

Uma tentativa de diálogo com a idosa Esperança redundou em fracasso, pois ainda no início aquela desatou a chorar. Embora aos prantos, deu para perceber que a família reside nas imediações das Confecções Sabrina, na Avenida das FPLM.


FAMÍLIAS ALEGAM FALTA DE DINHEIRO

Os casos de abandono de doentes registam-se frequentemente no Hospital Geral José Macamo e das vezes em que a Acção Social conseguiu localizar os familiares alegaram a falta de dinheiro como a razão para não visitar o enfermo hospitalizado, de acordo com a freira Emília Nhambire, responsável pelo sector a nível daquela unidade sanitária.

Falando ao “Notícias”, a responsável disse que os casos de abandonos verificam-se mais na Enfermaria de Medicina e os idosos são as principais vítimas, havendo alguns casos em que chegaram a morrer. Após tentativas fracassadas de localizar os familiares, o hospital manda os corpos à vala comum.

Um dos últimos casos de morte deu-se entre Junho e Julho em que o corpo de uma idosa, que se sabia apenas ser do Bairro de Fomento, na Matola, acabou por ser sepultado na vala comum.

Ao que a freira contou, a velha foi hospitalizada e teve alta. Mas como o único filho que às vezes passava para visitá-la nunca mais passou do “José Macamo” ela teve uma recaída e morreu. Fora daquele caso, a Acção Social conseguiu reinserir dois idosos e sete mulheres nas respectivas famílias, de acordo com Emília Nhambire.


DOENTES TERMINAIS PRINCIPAIS VÍTIMAS

Os doentes de HIV/SIDA e de outras patologias associadas e já em fase terminal de vida figuram entre os principais abandonados nas unidades sanitárias da urbe, principalmente do Hospital Geral de Mavalane. João Carlos Torcida, responsável da área de Acção Social naquele hospital, disse que normalmente os familiares dão dados falsos na altura em que deixam o doente na unidade sanitária, pelo que nunca mais são localizados, mesmo para se comunicar que o seu doente morreu.

Em outros casos, segundo Torcida, doentes padecendo de enfermidades relacionadas com o HIV/SIDA são desembarcados de viaturas da África do Sul ou Suazilândia à porta do hospital sem documento nenhum na bagagem.

O responsável de Acção Social relatou um episódio recente em que um concidadão deu entrada gravemente doente vindo da África do Sul e faleceu. O hospital usou algum dinheiro encontrado na sua trouxa e enterrou-o condignamente.

De acordo com Torcida, há dias uma mãe tentou abandonar uma criança deficiente numa das enfermarias, mas o pessoal hospitalar apercebeu-se das manobras e obrigou a mulher a sair com o seu filho.

Levantando as possíveis razões do fenómeno, João Torcida destacou a precariedade das condições de vida, afirmando “que não devia ser assim, mas as pessoas cansam-se de ter um doente em casa que nunca mais melhora e acham que o levando para o hospital livram-se dos encargos”. Contudo, não se recorda de o HG de Mavalane ter mandado corpo de um doente abandonado à vala comum, pois até ao momento aquela unidade tem conseguido obter urnas para o efeito junto da Direcção de Saúde da Cidade de Maputo.


CÚMULO DA POBREZA

O abandono dos doentes nas unidades sanitárias pelos respectivos familiares revela-se como um dos pontos mais altos da pobreza absoluta que grassa a maioria dos moçambicanos. O reverendo Marcos Macamo, secretário-geral do Conselho Cristão de Moçambique (CCM), que fez a leitura, destaca, por outro lado que na busca de sobrevivência, as pessoas saem das suas zonas de origem para pontos em que quase ninguém os conhece. Até aqui não há problema, mas a situação torna-se catastrófica em caso de doença ou de morte.

Entretanto, falando concretamente dos doentes largados pelos seus nos hospitais, que parte dos quais morre e é sepultada na vala comum, o pastor disse ser resultado da falta de modos de vida sustentáveis, na medida em que as famílias não têm dinheiro.

“Não é que as pessoas não querem enterrar os seus ente queridos, mas falta-lhes dinheiro para comprar um caixão, por exemplo”, disse, avançado que uma das saídas para o fim do abandono de doentes e de corpos passa por as famílias revelarem as suas dificuldades de suportar as despesas da doença e/ou da morte e pedir ajuda à sociedade.

“As pessoas devem criar coragem, dizer que perderam um familiar e não conseguem lhe enterrar. Com alguma sorte aparecerá uma instituição que possa custear as despesas do funeral, contrariamente ao que agora acontece em que os corpos vão à vala comum ante o silêncio dos seus”, disse.


HÁ QUE ENCONTRAR AS CAUSAS

O sociólogo Baltazar Muianga chama atenção para que não se parta imediatamente para culpabilizar as pessoas que abandonam os seus doentes nos hospitais antes de se identificar as verdadeiras causas do fenómeno.

Convidado a analisar a questão das famílias que largam doentes nas unidades sanitárias e nunca mais passam para saber do seu estado de saúde, o também docente da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) diz ser fundamental perceber-se que tipo de pessoas são vítimas daquela situação, donde vem e de que enfermidades padecem.

Na sua óptica, a maioria delas vêm de famílias pobres e padece de doenças super exigentes e de tratamento longo e continuado, tais como HIV/SIDA e tuberculose.

Nesse sentido, as famílias poderão largar-lhes nos hospitais como último recurso, por verem-se impossibilitadas de arcar com as exigências do seu tratamento, que incluem deslocações frequentes às unidades sanitárias, dietas e cuidados especiais.


CERCA DE 1150 CORPOS ENTRAM NA VALA COMUM

Pelo menos 1133 corpos não reclamados em diversos hospitais da cidade de Maputo foram enterrados na vala comum do Cemitério de Lhanguene durante o primeiro semestre do presente ano.

O número dos perecidos aparentemente sem familiares situava-se abaixo da metade do registado em 2009, considerando que de Janeiro a Dezembro foram sepultados na vala comum 2597 corpos, de acordo com Lucas Gulube, director adjunto de Salubridade e Cemitérios a nível da capital.

Embora no ano passado o número de corpos não reclamados tenha chegado a cerca de 2600, os dados compilados da Direcção de Salubridade e Cemitérios indicam que o pico de enterros na vala comum de “Lhanguene” se deu em 2008, altura que foram sepultados 2897 indigentes.

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