Terminal Rodoviário da Beira: Um elefante branco?



Escrito por Jornal Noticias
Sexta, 29 Outubro 2010 09:19

O Conselho de Ministros, através do Decreto nº 39/2005, aprovou o Regulamento dos Terminais Rodoviários Públicos de Passageiros que numa primeira fase seriam construídos nas cidades de Maputo, Beira e Nampula. Um ano depois, isto é, em 2006, as antigas instalações da extinta Empresa Rodoviária de Moçambique Centro (ROMOC), e que igualmente passaram por outras duas companhias, nomeadamente Transcarga e Virgínia, foram concedidas pelo Estado para a sua transformação em Terminal Rodoviário Internacional.
A primeira fase da restauração física, que custou aos cofres do Estado 15.7 milhões de meticais e 2.3 milhões de meticais de fundos próprios da actual gestora, a empresa Transportes Públicos da Beira (TPB), teve o seu início em Março de 2009 e terminou em Abril do corrente ano, tendo as obras sido executadas por duas empresas, nomeadamente a Cindisol e a CTCC.
A segunda etapa, cujos fundos não nos foram revelados, comporta a restauração de duas oficinas e a construção de uma bomba de combustível e um pequeno supermercado. Paralelamente, o outro parque (principal), com capacidade para 50 autocarros, deverá ser transformado em gare, para aproveitar as oficinas para eventual reparação dos autocarros.
(F. Vicente)
O DILEMA
Quando a 10 de Maio último o Ministro dos Transportes e Comunicações, Paulo Zucula, inaugurou com pompa e circunstância aquele Terminal, tudo parecia ser um mar de rosas, pois as instalações oferecem condições invejáveis de comodidade. Possuem seis bilheteiras, cinco agências (escritórios), dormitórios com capacidade para 32 camas, um restaurante, uma sala de conferências, um parque provisório para 20 autocarros, entre outros serviços.
Só que de lá a esta parte apenas duas companhias, designadamente Expresso Nampula e Transportes Campainha é que estão a utilizar aqueles serviços. Além destas, também a própria gestora do local (TPB) explora o terminal para viagens inter-provinciais para Quelimane e Tete, enquanto as duas privadas já mencionadas o fazem ambas para Nampula.
Actualmente, os transportadores inter-provinciais que ligam a cidade capital provincial de Sofala e outras das zonas sul, centro e norte usam o espaço junto à Messe da PRM, no bairro do Maquinino, como terminal. Aqui, tudo é feito ao ar livre pois não existem condições nem para os passageiros nem para os próprios transportadores situação que se agrava no tempo chuvoso.
O gestor do referido terminal, Tiago Luís Paulino, disse em entrevista ao nosso Jornal que actualmente a sua utilização está aquém do desejado embora existam algumas intenções de certas companhias passarem a explorar as suas rotas a partir daquele local. Apontou os casos dos Transportes Benfica e Júlia Chin, que tencionam ligar as cidades da Beira e Nampula e Beira e Quelimane, respectivamente.
Apesar disso, a fonte disse entretanto que desde que o espaço foi aberto ao público o número diário de passageiros transportados a partir do local tem vindo a aumentar paulatinamente. Disse que no primeiro mês (Maio) a média diária era de 41 passageiros mas em Setembro último o número subiu para cerca de 100 passageiros diários.
Instado a pronunciar-se sobre as causas que eventualmente possam estar na origem de pouco interesse por parte das operadoras inter-provinciais e mesmo distritais na utilização dos espaços existentes, o gestor do Terminal Rodoviário Internacional da Beira apontou a Associação dos Transportadores da Beira (ATABE) como entidade capaz de responder a tal questão.
“Não temos qualquer instrumento legal para persuadir os transportadores a passarem a explorar as suas rotas a partir do nosso terminal’’, reconheceu.
Negou que as taxas aplicadas sejam a principal causa de repulsa dos transportadores, justificando que o que está estabelecido para o parqueamento, por exemplo, não representa praticamente nada no bolso dos operadores. Citou o exemplo da taxa diária de embarque/desembarque de 300 meticais por autocarro e a taxa fixa mensal de 2100 meticais como sendo acessíveis.
“Há necessidade de se utilizar este espaço pois dispomos de todas as condições tanto para passageiros como para os próprios operadores. Apelamos para que as companhias transportadoras se aproximem da empresa gestora, sobretudo em casos de algum assunto que não esteja claro na aplicação das taxas”.
BEM-VINDO MAS…
PARA o director dos Transportes e Trânsito no Conselho Municipal da Beira, a criação do Terminal Rodoviário foi uma ideia bem-vinda visto que traz benefícios aos citadinos, viajantes e transportadores uma vez que as instalações são apropriadas e dispõem de condições para o efeito.
Apesar disso, Manuel Tiago Militão lamenta o facto de o Governo, através da direcção provincial dos Transportes e Comunicações, ter ignorado a edilidade quando em Junho último realizou uma reunião com os transportadores destinada a persuadi-los a utilizarem o espaço. Disse que o vereador municipal somente foi informado telefonicamente da realização do encontro quando este já estava a decorrer, o que não permitiu que estivesse presente.
Não obstante, o município afirma-se disposto a colaborar com o Executivo para a utilização daquele terminal já que o actual espaço ocupado pelos transportadores inter-provinciais, junto à Messe da Polícia da República de Moçambique (PRM), no bairro de Maquinino, deverá servir para os transportadores urbanos cujos terminais se encontram congestionados.
“Concordamos com a ideia do Governo visto que o referido Terminal Rodoviário possui condições condignas tanto para os transportadores bem como para os viajantes’’, elogiou.
Tiago sustentou que o Conselho Municipal da Beira vai dentro em breve comunicar os transportadores inter-provinciais que utilizam a Messe da PRM como terminal de modo a abandonarem o local pois há necessidade de o espaço passar a servir as rotas internas.
“Projectamos transformar o espaço junto à Messe da PRM em alguns terminais urbanos das rotas cujos terminais se encontram congestionados devido ao aumento do número de viaturas, nomeadamente Passagem de Nível, Bairro da Manga e Inhamízua/via Auto-Estrada”, explicou.
Instado a pronunciar-se sobre a situação do projecto da edilidade que visava a construção de um terminal rodoviário ao lado da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba, no bairro do Esturro, o director dos Transportes e Trânsito no município da Beira disse que tal intenção continua de pé só que actualmente o local serve de estaleiro do Projecto de Saneamento da Beira. Esclareceu que neste momento a prioridade é esta acção pelo que a construção do terminal poderá ocorrer após o seu término.
(F. Vicente)
ESTAMOS PREOCUPADOS
ENTRETANTO, o Governo provincial de Sofala diz que está preocupado pelo facto de os transportadores, sobretudo das rotas inter-provinciais, não estarem a utilizar o Terminal Rodoviário Inter-provincial e Internacional situado no bairro do Matacuane, na cidade da Beira.
O chefe do Departamento Técnico na Direcção Provincial dos Transportes e Comunicações de Sofala, Hélcio Canda, disse que em Junho último aquela instituição reuniu-se com a Associação dos Transportadores para a apresentação formal do terminal e para sensibilizá-los de forma a passarem a utilizá-lo. Depois do encontro efectuou-se uma visita ao local tendo os operadores se inteirado das condições ali existentes e mostrado a sua satisfação.
A fonte precisou ainda que o encontro também ficou marcado por um consenso no sentido de os transportadores e gestores do terminal encontrarem um entendimento para que ambas as partes não ficassem lesadas quanto à aplicação das taxas diárias, semanais e mensais que são cobradas pela associação pela utilização dos vários terminais existentes na urbe.
“Já passa tempo desde que o terminal foi inaugurado e estamos preocupados pois a aderência é bastante fraca”, explicou.
Precisou que actualmente apenas duas transportadoras, nomeadamente Expresso Nampula e Transportes Campainha, esta última da capital de Sofala, é que utilizam o terminal além da própria companhia gestora, os Transportes Públicos da Beira (TPB).
Em Setembro último a Direcção Provincial dos Transportes e Comunicações voltou à carga tendo se reunido novamente com a associação dos transportadores local. Neste encontro, o principal objectivo era fazer com que aquele organismo associativo fizesse uma análise junto dos seus associados sobre as taxas cobradas nas praças, nomeadamente por esta associação no acto de carregamento e pelo município de modo a que sejam contrabalançadas com as que estão a ser aplicadas no terminal rodoviário.
“Estamos à espera desta análise que os transportadores deverão fazer de modo a podermos avançar com outras ideias, porque a intenção do Governo não é de pressionar os operadores a usarem aquele espaço. Tudo deve ser na base de entendimento entre todas as partes interessadas, desde os gestores, Governo e transportadores, incluindo o próprio município”, apontou.
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