Penalizar para impor a ordem em Chimoio



Escrito por Jornal Noticias
Quinta, 30 Setembro 2010 07:37

Já na segunda década de autarcização, a cidade de Chimoio, capital provincial de Manica, está a lutar para recuperar a sua imagem e o estatuto de cidade mais limpa do país, que ostentou durante décadas. Apesar de avanços notórios em vários domínios, a cidade precisa de uma nova abordagem na sua gestão, provavelmente orientada para a observância da lei e menos populista. É sentimento comum de que a mudança do cenário passa por políticas corajosas visando impor ordem e disciplina.
A questão da recuperação do estatuto de cidade mais limpa do país, perdido há 15 anos, tem vindo a ser motivo de debates. De mandato em mandato este assunto tem vindo a ser levantado mas ainda não há consenso sobre o caminho a seguir para a solução do problema.
Enquanto alguns munícipes são de opinião de que a edilidade deve adoptar métodos dinâmicos, pro-activos, coercivos e modernos de gestão, as autoridades municipais privilegiam a sensibilização, numa altura em que os citadinos parecem não dar ouvidos a este método de administração municipal.
ILHAS DE SUBÚRBIOS NA URBE
Enquanto nascem mansões em Tambara-2, bairro 4, Centro Hípico, Aeroporto, entre outros bairros, o centro da cidade está a ser invadido por construções desordenadas de edifícios comerciais e residências. Os bairros 3 de Fevereiro e Mudzingadze, sobretudo nos dois lados da Estrada Nacional Número Seis e junto à Passagem de Nível são exemplos típicos deste tipo de situações.
Nas duas entradas da cidade assiste-se a um cenário preocupante e desolador. Na zona de expansão da urbe, reservada à construção, vêem-se farmas abandonadas e plantações de eucaliptos e jatropha. Do lado da Soalpo, depara-se com construções precárias de um e do outro lado da Estrada Nacional Número Seis, o que retira a estética urbana.
Para além disso, não há reserva de espaços para infra-estruturas públicas e outras iniciativas do Estado. A ter que se encontrar um local para as infra-estruturas, seria na área localizada junto às farmas e outros projectos que, pela sua natureza, deveriam estar longe da cidade.
No tocante ao saneamento urbano, vive-se em Chimoio um problema que foi passando de mandato em mandato. A deficiente recolha de lixo, a concentração da atenção à zona urbana apenas e o esquecimento dos bairros periféricos inquietam os munícipes.
A capital provincial de Manica possui 33 bairros. À excepção da zona de cimento, a maior parte dos bairros não beneficia da recolha de lixo e nem sequer contentores para o seu depósito, levando a que as pessoas coloquem esses resíduos sólidos qualquer que seja o lugar. Este quadro deixa desgastados aqueles que pagam a taxa de lixo, sem possui no entanto beneficiar do serviço cobrado através de débitos nos consumos de energia eléctrica.
Nas zonas suburbanas, a limpeza só é feita na iminência de visitas de alto nível. Nessas ocasiões, até os buracos na via pública são tapados e trabalhos de terraplenagem realizados pelas autoridades municipais.
Munícipes contactados pela nossa Reportagem para falar sobre o estágio actual da cidade de Chimoio reconhecem que, de um modo geral, a cidade está a crescer e a desenvolver-se, embora esteja a confrontar-se com o desafio do desrespeito ao plano urbanístico, impunidade e falta de política e orientação adequadas.
TAXA DE LIXO É BURLA
Agastados com o que está a acontecer, alguns citadinos de Chimoio chegam a pedir a abolição da taxa de lixo, por entenderem que a sua manutenção não se justifica, uma vez não haver recolha de resíduos sólidos na maioria das zonas residenciais.
Para André Catueira, cobrar uma taxa, seja qual for, consciente de que nada vai ser feito em contrapartida, não é justo. Para o nosso entrevistado, uma instituição como o município, cujos órgãos são fruto de voto popular, não se pode esquecer dos seus próprios eleitores.
No tocante ao saneamento urbano, Catueira deplorou as águas negras que serpenteiam os passeios, oriundos de esgotos quebrados ou entupidos, que há vários anos não beneficiam de trabalhos de manutenção.
A fonte criticou as empresas Águas, Electricidade, Telecomunicações e outras que partem os passeios para a realização de obras, mas que depois não se dignam em tapar convenientemente os buracos abertos. A não reposição do asfalto devia, na sua óptica, merecer punição.
Quanto à expansão da rede eléctrica, a fonte enalteceu o esforço em curso no sentido de garantir a iluminação pública nos bairros suburbanos, mas deplorou o facto de esse serviço continuar ausente noutras áreas residenciais, muitas delas populosas e em franco crescimento.
Esta situação, segundo disse, propicia a criminalidade e incentiva assaltos à calada da noite de que são alvos, sobretudo os estudantes do curso nocturno.
Quanto à urbanização, Catueira diz haver no município o que chamou de forças internas resistentes à mudança que continuam a viver do negócio da desordem. Sem indicar nomes, aquele profissional de Comunicação Social afirmou ser necessário que a edilidade aumente a vigilância no sentido de neutralizar tais indivíduos, sobre quem pesa a acusação de terem permitido o desrespeito do plano urbanístico da cidade.
Luís Oliveira
SENSIBILIZAR OU PUNIR A POLUIÇÃO SONORA?
OS bairros suburbanos estão expostos ao barulho ensurdecedor de potentes aparelhagens sonoras, conhecidos por “chinguere”, usados para atrair consumidores de bebidas alcoólicas de fabrico caseiro, nomeadamente “nipa” e “Cabanga.
Madeira Sebastião, professor e jornalista, considera haver indiferença da edilidade perante o problema, o que mostra, segundo ele, a falta de preocupação dos órgãos municipais em criar ambiente de ordem e tranquilidade públicas. O nosso entrevistado propõe medidas punitivas severas contra indivíduos que sujeitam os outros ao barulho, perturbando o seu descanso.
Em relação a este e outros vários problemas, Madeira defende medidas punitivas ao invés de as autoridades municipais ficarem pela sensibilização porque esta estratégia se revelou ineficaz. Uma das coisas seria a aplicação de multas aos infractores das posturas camarárias.
Aquele citadino defendeu também acções para disciplinar os que urinam nas árvores ou que continuam a praticar o fecalismo na cidade.
Por seu turno, Luís Oliveira, empresário, disse que apesar de a cidade estar a crescer e as instituições municipais a funcionar, é necessário muito trabalho ainda no sentido de levar para Chimoio, por exemplo, locais de lazer, jardins, estradas, iluminação pública e apoio social, no quadro do combate à chamada pobreza urbana.
Disse ser urgente a reabilitação do jardim infantil 29 de Setembro devido ao facto de a cidade não possuir locais de diversão de crianças, ao mesmo tempo que sugere a necessidade da transferência para Nhauriri ou outro lugar da paragem dos transportes interurbanos de passageiros que neste momento partilham o mesmo espaço com os “chapas” no mercado central, provocando uma tremenda confusão.
No que se refere às relações município/sector privado, Oliveira disse estarem a desenvolver-se de forma salutar e, como fruto disso, referiu-se às muitas iniciativas de apoio à edilidade. Citou, neste caso, a recente entrega, por um empresário local, de um carro para a Polícia Municipal.
ÁGUA DEVE CHEGAR A TODOS OS BAIRROS
No tocante ao abastecimento de água, os munícipes condenam o que chamam de ligações selectivas, acusando o FIPAG de privilegiar bairros que já tinham canalização em detrimento dos novos espaços que se apresentam em melhores condições de urbanização.
No âmbito do projecto de abastecimento de água às cidades de Chimoio, Manica e à vila de Gondola, os munícipes da capital provincial são de opinião que sejam contemplados todos os bairros, pelo menos os urbanizados.
Marta Mendonça, residente no bairro Centro Hípico, disse que o município deve ajudar o FIPAG a distribuir a água de forma abrangente, pois todos os bairros da cidade precisam deste precioso líquido, não sendo por isso correcto que haja bairros privilegiados e outros não.
Naquele bairro, para além da falta de água canalizada, não há furos ou fontanários, sendo que os residentes recorrem a água imprópria, tirada de poços não protegidos. O único furo existente no local foi aberto junto à entrada do cemitério municipal, tendo sido colocado ali para atender às necessidades dos utentes daquele campo santo. A falta de água regista-se igualmente no vizinho bairro de Nhamadjessa, onde estão à espera das ligações do FIPAG.
Raul Conde Marques Adriano
MUNICÍPIO RECONHECE FRAGILIDADES
O Presidente do Conselho Municipal de Chimoio, Raul Conde Marques Adriano, reconheceu as dificuldades por que passa a sua instituição em vários domínios mas garantiu estar atento aos problemas prevalecentes.
Para Raul Conde Marques Adriano, o mais importante é conhecermos o terreno, os problemas que existem, fazer o respectivo diagnóstico para depois encontrar soluções que podem ser a curto, médio e longo prazos.
Raul Conde diz que os problemas das construções desordenadas, vias de acesso, saneamento, poluição sonora, arruamentos, energia eléctrica, água e sanitários públicos, entre outros, constam no topo das prioridades desde que foi eleito em 2008.
Ele reconheceu o trabalho positivo feito pelos seus antecessores, mas afirmou que uma das preocupações com que o seu elenco se deparou após tomar posse, há 17 meses, foram as construções desordenadas nos bairros 7 Setembro, Chinfura, Josina Machel, 16 de Junho, entre outros.
Outro problema com que se confrontou o presidente do Conselho Municipal foi a falta de espaço para dar vazão aos pedidos dos munícipes. Sendo assim, a edilidade concebeu planos parciais para a expansão, abrangendo os bairros 7 de Abril, na zona da Canina, Hombua, Textáfrica, nas zonas de Primeiro de Maio e Nhauriri.
Visando atender preocupações de outros sectores, o município desenhou, no entanto, planos parciais para a instalação das zonas comerciais e industriais, de acordo com as recomendações do Ministério da Indústria e Comércio.
No tocante à limpeza, Conde reconheceu ser difícil recuperar o estatuto de cidade mais limpa do país que Chimoio ostentou no passado. Porém, questionou as razões que estão por detrás desta situação, uma vez que os que residiam em Chimoio há 15 anos são os mesmos que estão aqui, os que limpavam são os mesmos que o fazem hoje e em termos de meios, houve incremento.
Reconheceu, por outro lado, que a edilidade não recolhe lixo com regularidade nos bairros suburbanos, fazendo-o apenas uma vez por semana, devido à alegada insuficiência de meios humanos e materiais.
Por causa disso, como disse, existem entulhos de lixo, sobretudo nos mercados informais, havendo alguns que chegam a interromper as vias de acesso, a exemplo dos bairros 4 e 5 que apresentam rodovias intransitáveis devido aos entulhos de lixo.
A deposição dos resíduos sólidos a qualquer hora e em qualquer lugar constitui a causa principal das dificuldades que o município enfrenta no processo de recolha de os lixo. Segundo explicou, munícipes não observam as instruções em termos de horário e locais para a sua colocação, o que causa transtornos aos trabalhadores de limpeza.
Neste momento, de acordo com a fonte, a edilidade possui dois tractores e um camião basculante. Colocou cinco contentores e vários tambores de lixo, o que melhorou o processo de organização e recolha dos resíduos sólidos.
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