GAZA: Caniçado quer sair da estagnação



Escrito por clara
Quinta, 23 Setembro 2010 07:39

Caniçado, sede distrital de Guijá, na província de Gaza, é uma zona com potencialidades mas continua votada ao esquecimento e desinteresse por parte dos investidores, de tal forma que volvidos 16 anos após conflito armado, a vila ainda mantém bem vivas as marcas da guerra, entre as quais ruínas, actividade comercial formal praticamente inexistente, ausência de serviços bancários, sem bombas de combustível e nem talhos, apesar de a região ser um grande criador de gado bovino e caprino.
Quando a ponte foi instalada, os residentes do distrito acreditavam estarem criadas as condições para o rápido e harmonioso desenvolvimento do Guijá, o que não está a acontecer, contrariando essas expectativas.
Os habitantes da vila manifestam indignação pela situação prevalecente e pedem ao Executivo para mobilizar investimentos com vista a permitir o progresso socio-económico da região. O administrador distrital de Guijá, Zacarias Soto, garantiu ao “Notícias” estarem em curso acções para se inverter o cenário, convidando os homens de negócios nacionais e estrangeiros a tirarem vantagens das potencialidades que Caniçado e o distrito, em geral, possuem.
Ele considera que o Governo deu um primeiro passo ao construir a ponte sobre o rio Limpopo que liga a vila e o resto do país. Trata-se de uma importante infra-estrutura destruída há sensivelmente 31 anos pelos bombardeamentos da aviação do então regime da Rodésia de Ian Smith.
Antes da ponte, os habitantes de Guijá eram obrigados a percorrer 50 quilómetros para chegar à cidade de Chókwè, a chamada capital económica da província de Gaza, uma distância que hoje ficou reduzida a dois quilómetros.
Quando a ponte foi concluída, acreditava-se terem sido criadas as condições para o rápido e harmonioso desenvolvimento de Guijá, o que não está a acontecer, contrariando todas as expectativas.
Muitos não encontram respostas ao que estará por detrás da aparente inércia da população e dos agentes económicos que não estão a explorar o potencial agro-pecuário que a sede do distrito de Guijá possui.
Caniçado tem estradas asfaltadas que permitem ligação, sem problemas, com os distritos de Chibuto e do Bilene e a cidade de Xai-Xai e, por esta via, com o resto do país.
Contrariamente ao que acontece com muitas vilas do país e, no caso particular as sedes distritais de Gaza como Massangena, Chigubo e Chicualacuala, Caniçado está ligado há bastante tempo à rede nacional de energia da HCB. Contudo, esta particularidade está subaproveitada porque a vila não possui nenhuma indústria. A vila não tem padaria, talho, banco e nem bombas de combustível, sendo que para ter acesso a esses serviços, as pessoas têm que se deslocar à Chókwè ou Chibuto.
Isaura Saraiva
RESIDENTES FAZEM PEDIDO AO GOVERNO
PESSOAS abordadas pela nossa Reportagem mostram-se bastante preocupadas e entristecidas por aquilo que está a acontecer na vila, que consideram estar numa situação de estagnação. Ali ainda se podem ver marcas de guerra (terminada em 1992), nomeadamente edifícios destruídos e em ruínas, outrora pertencentes a comerciantes forçados na altura a abandonar a vila. Há o problema da falta de habitação, particularmente para os funcionários do Aparelho do Estado para ali destacados, que têm que recorrer a casas alugadas, localizadas na vizinha cidade de Chókwè.
Isaura Saraiva, directora da Escola Primária do EP2 de Guijá, referiu-se à necessidade de o Governo local imprimir uma dinâmica para a atracção de investimentos com vista a tirar a região da actual situação de atraso.
“Há poucos incentivos, particularmente para os jovens trabalharem aqui. Temos que recorrer à cidade de Chókwè para obter tudo, desde habitação até às casas de pasto e lazer com um mínimo de condições”, sublinhou a nossa entrevistada. Considera que os jovens são pouco ambiciosos, preocupando-se em buscar oportunidades de emprego no sector informal na África do Sul, para onde se refugiam muitas vezes em situação ilegal. O sentimento de Isaura Saraiva é também o de muitos habitantes de Caniçado.
Uma outra preocupação que inquieta as pessoas naquela parcela do país tem a ver com a onda de roubos na vila e cuja autoria é geralmente atribuída a jovens que amiúde escalam a África do Sul. Pedem que se dê oportunidade, particularmente aos professores para prosseguirem os seus estudos no ensino superior, uma vez que Guijá tem sido votado ao esquecimento também nesse aspecto.
A este propósito, Angelina Machavane, directora distrital de Educação, Juventude e Tecnologia, explicou à nossa Reportagem que Guijá tem direito, anualmente, a duas vagas para o ensino superior, número que entretanto considera pequeno, embora reconheça que essa decisão é resultado de uma planificação, feita superiormente.
“A Educação conta com um efectivo de 465 funcionários, maioritariamente docentes, trabalhando em regime de dois turnos ou a fazer horas extras. Não se pode dispensar muitos professores para prosseguir com os estudos, sob pena de ficarmos um dia sem professores nas turmas,” justificou-se a directora Machavane.
Muitas infra-estruturas continuam abandonadas
ACÇÕES PARA SALVAR CANIÇADO
O ADMINISTRADOR de Guijá garantiu-nos estar em curso um levantamento circunstanciado das pessoas com quem se pode contar para uma reflexão profunda sobre esta problemática e, sobretudo, se identificarem as linhas de força que possam abrir caminho para tirar o Caniçado da estagnação.
Para o feito, ainda de acordo com a nossa fonte, há um exercício visando, numa primeira fase, a identificação de amigos e naturais de Guijá, com os quais se irão fazer as primeiras abordagens sobre alternativas visando a retirada da região, sobretudo a vila de Caniçado, do actual estágio de “hibernação”.
Por outro lado, o governo de Guijá pretende lançar uma vasta campanha, visando a mobilização de parceiros e gente interessada no relançamento da vida naquela parcela do país.
“Temos aqui uma terra fértil para se investir. Convidamos desde já o empresariado para que se aproxime a nós, que criaremos condições para a realização de muitas actividades”, disse o administrador.
Zacarias Soto
CONSTRUIR USANDO MATERIAL LOCAL
A FALTA de habitação para albergar particularmente os funcionários públicos designados para aquele distrito tem sido um verdadeiro drama, razão pela qual a maior parte dos trabalhadores opte por encontrar alternativas em Chókwè, ou então em casas de construção precária na periferia da vila.
Para o administrador Zacarias Soto, este assunto, constitui um desafio latente para o seu Executivo, e segundo ele, o distrito tem uma vantagem por possuir uma longa experiência no capítulo da produção de tijolo queimado, estando em vista um estudo para a materialização da iniciativa.
“Precisamos de fazer as necessárias discussões com a banca no sentido de os funcionários interessados poderem de forma directa entrar em contacto com a banca para a obtenção dos necessários créditos financeiros para a materialização desse objectivo.
O mesmo está a acontecer em relação as instituições ligadas ao fomento à habitação para que o Estado possa dar a sua contribuição.
“Provavelmente, a inclusão do subsídio de renda de casa no salário dos funcionários venha a resolver o problema porque existem experiências anteriores à independência sobre esta matéria, uma vez o funcionário do Estado estar em constante mobilidade. Quem sabe esta seria eventualmente uma saída airosa para o problema”, disse aquele dirigente.
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