Escrito por Jornal Noticias Sexta, 21 Janeiro 2011 05:30

Faltam soluções para a crise de transporte semi-colectivo de passageiros que afecta a cidade do Maputo e a lacuna deu lugar ao retorno dos camiões e carrinhas de caixa aberta, que servem de alternativa, ainda que arriscada, para a mobilidade dos citadinos de um ponto para o outro. A procura destes “chapa” subiu nos últimos dias na sequência do início do ano lectivo, com os estudantes a disputarem com outros passageiros, um lugar para viajar em pé no camião.
O cenário acentua-se nas horas de ponta, altura em que a demanda atinge o pico, dando a sensação de recuo na vida dos citadinos para os finais dos anos 80 e princípios de 90, quando a mobilidade era garantida pelos camiões.
Para além de particulares, o negócio está a mobilizar também camiões ou camionetas de instituições públicas, a julgar pelo timbre que ostentam.
Na falta dos “mini-bus” e para evitar muitos gastos devido aos encurtamentos nos casos em que os licenciados ainda existem, os passageiros optam pelos veículos de caixa aberta.
Com todos os riscos a que se encontram expostos, a situação é mais penosa nos dias de mau tempo quando os passageiros são obrigados a viajar debaixo da chuva, poeiras ou ventania porque aqueles veículos não têm nenhum sistema de protecção.
As rotas mais críticas são Anjo Voador/Xipamanine, Anjo Voador/Praça dos Combatentes, pelas avenidas Vladimir Lénine e “Acordos de Lusaka”, respectivamente, e Museu/Xipamanine, Museu/Laulane, onde os “chapa” que antes operavam estão a desaparecer cada dia que passa.
A nossa Reportagem constatou ainda que o regresso, nos últimos tempos, dos “chapa” de caixa-aberta se regista igualmente na ligação entre a Praça dos Combatentes e bairros como Magoanine “C”, também conhecido por Matendene, Mahlazine, Benfica, Zimpeto, Magoanine “A” (CMC), Laulane, cujos residentes afirmam estar a passar maus momentos devido a esta crise que se está a acentuar com o início das aulas.
OS utentes dos transportes na cidade do Maputo e arredores defendem que a crise que se vive na capital do país, agora bastante acentuada devido ao início do ano lectivo, pode ter como uma das principais consequências o baixo aproveitamento escolar, uma vez serem poucos os alunos que chegarão a tempo nos seus estabelecimentos de ensino.
Um dos fenómenos característicos destes períodos é o agravamento das enchentes nas terminais, um pouco por todo o lado, onde os trabalhadores, comerciantes e outras pessoas disputam com estudantes uniformizados os “caixa aberta”.
Fernando Fernandes, 39 anos de idade, residente do bairro da Liberdade, entende que a crise vai ser um dos factores negativos no tocante ao rendimento dos alunos, que frequentam escolas distantes dos seus bairros. Como sublinhou, poucas serão as vezes que aqueles conseguirão chegar pontualmente às aulas que nalguns casos iniciam logo às sete horas.
Acrescentou que para além deste problema, a falta de transporte vai criar prejuízos aos pais e encarregados de educação que serão obrigados a gastar mais para que os filhos consigam ir a escola.
Posição similar foi apresentada por Samuel Xadreque, funcionário do Ministério das Pescas, 66 anos, e residente no bairro 25 de Junho, segundo o qual por causa da crise os estudantes terão que se esforçar mais se quiserem ter um aproveitamento positivo. Entretanto, considera que as autoridades nacionais devem buscar soluções flexíveis e viáveis para os cidadãos.
Esta leitura é partilhada por muitos dos nossos entrevistados em diferentes pontos de ligação entre o centro da cidade e os bairros periféricos onde aquele tipo de “chapa” se está a impor.
CONDENAMOS, MAS NADA PODEMOS FAZER - SEGUNDO ATROMAP
A ASSOCIAÇÃO dos Transportadores Rodoviários de Maputo (ATROMAP) defende que a falta de transporte semi-colectivo de passageiros, em particular, deve-se ao não licenciamento de viaturas com 15 lugares, por um lado e, por outro, pelo facto de os proprietários dos “chapa” não licenciáveis serem incapazes de adquirir os autocarros de 30 lugares, considerados ideias para regrar a actividade transportadora na capital.
De acordo com Samuel Nhatitima, secretário-geral desta agremiação, a entrada em funcionamento de camionetas nesta actividade é ilegal e bastante arriscada, mas a associação não pode fazer nada porque as pessoas precisam de viajar.
“No dia em que formos à rua para impedir a circulação destas viaturas seremos acusados de fazer desmandos na via pública, mas as autoridades policiais deveriam tomar uma posição”, disse Nhatitima.
Ademais não negou a possibilidade de existirem associados que optem pelas camionetas ou carrinhas caixa-aberta para exercer a actividade de transporte de pessoas, apesar de não estar em condições de apontar nomes ou números. “Trata-se de uma alternativa para o auto-sustento. Se não podemos usar mini buses temos que recorrer a este tipo de carros para continuar a ganhar a vida”, acrescentou.
De acordo, ainda, com Samuel Nhatitima, o problema está relacionado com o facto de as viaturas dos membros da ATROMAP não possuírem documentação há cerca de sete anos, daí circularem apenas nos períodos em que a Polícia não está na rua.
A ATROMAP conta actualmente com uma frota que varia entre 300 e 400 veículos, número insuficiente para superar a procura de transporte na urbe, segundo a nossa fonte.
ENOQUE Paulo, da Polícia Municipal do Maputo, afirmou que o fenómeno já foi verificado pelas autoridades que determinaram a penalização dos automobilistas que forem encontradas a infringir o regulamento nacional de transporte.
“Há empresas que, nas horas de ponta, usam camionetas para transportar os seus trabalhadores e, nestas circunstâncias, não podemos descarregar as pessoas. O que fazemos é controlar a superlotação”, disse Enoque Paulo, acrescentando que os condutores de carrinhas caixa-aberta ou camionetas surpreendidos a exercer actividade de transporte de pessoas são penalizados com uma multa de dez mil meticais.
Afirmou ainda que há casos deste tipo de viaturas que estão licenciados apenas para transportar cargas, mas as autoridades municipais nunca autorizaram estes carros a transportarem pessoas, daí as penalizações.
“Uma média de 15 automobilistas têm sido penalizados por semana”, referiu, explicando que, na maioria dos casos, as camionetas entram nas estradas na hora de ponta, das 6 às 9.30 horas e das 15 às 19.30 horas, período em que a Polícia Municipal está na rua a fiscalizar o trânsito e não as viaturas.
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