Morreu Malangatana



Escrito por jornal noticias
Quinta, 06 Janeiro 2011 07:48

MOÇAMBIQUE perdeu um dos seus maiores símbolos culturais, o seu pintor-mor, Malangatana Valente Ngwenya, que faleceu na manhã de ontem num hospital em Portugal. Aos 75 anos, Malangatana, que vinha doente há já algum tempo, não resistiu a problemas pulmonares, acabando por perder a vida no leito hospitalar.
Apesar de não gozar de boa saúde nos últimos tempos, Malangatana nunca chegou a parar de trabalhar, pintando a um ritmo quase diário e apresentando com alguma frequência os seus trabalhos aos seus admiradores nacionais e estrangeiros, tendo muito recentemente exposto em Portugal, onde viria a permanecer mais tempo do que desejava, precisamente devido a problemas de saúde.
Doente, Malangatana teve que ser internado num hospital de Matosinhos, no norte de Portugal, onde o seu estado de saúde veio a deteriorar-se, conforme informação divulgada na terça-feira. Em consequência disso, ontem o mestre Malangatana não resistiria e acabaria por falecer.
O Governo, através da embaixada em Lisboa, vinha acompanhando a situação de Malangatana. O Ministro da Cultura, Armando Artur, contactado pelo “Notícias”, afirmou que o Governo irá proporcionar ao mestre Malangatana um funeral à altura da sua honra e dimensão para Moçambique, porque “ele é muito mais do que um artista, um pintor”.
“Estamos profundamente consternados. O mestre Malangatana foi um dos precursores das artes e cultura em Moçambique e por isso tudo o que faremos a partir de já, em que a prioridade é transladar os seus restos mortais para cá e efectuarmos o seu funeral, será condizente com a sua honra e dimensão, porque ele foi muito mais do que um artista, um pintor. Ele é parte de nós”, comentou Armando Artur.
A dimensão de Malangatana não se cinge efectivamente à esfera artística. Apesar de ser pintor e de também se expressar artisticamente por via do desenho, gravura, escultura e cerâmica, Malangatana foi também herói da luta pela independência de Moçambique. Integrando a frente clandestina de combate ao colonialismo, em que usou do seu talento para fazer passar a sua mensagem ou para receber dos seus superiores da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) missões, às vezes arriscadas, o pintor foi condecorado pelo Governo, ostentando por isso o título de herói nacional.
Para além de uma vasta obra, constituída principalmente por quadros que enriquecem colecções particulares e institucionais em várias partes do mundo, do legado de Malangatana consta ainda um majestoso centro cultural em Matalane, Marracuene, onde nasceu a 6 de Junho de 1936.
As reacções à morte de Malangatana começaram a surgir de várias partes do mundo logo depois de a sua partida ser anunciada, na manhã de ontem. Num comunicado o Conselho de Ministros considera que em vida o pintor prestou valiosos contributos à Pátria distinguindo-se nas varias frentes na luta pela independência na vida politica, cultural e social com destaque para as artes plásticas e cultura, granjeando merecido reconhecimento e prestigio nacional e internacional. O mesmo documento refere que o Conselho de Ministros lamenta esta perda irreparável e apresenta a família enlutada as mais sentidas condolências.
O Partido Frelimo diz que Malangatana era militante e membro desde os seus tempos de movimento nacionalista, antes da independência nacional. Qualifica o pintor-mor dos moçambicanos com “trabalhador incansável do bem comum” e “lutador que não descansou mesmo diante das maiores agruras que a vida lhe fez passar, detido pela tenebrosa PIDE” e reconhece-lhe como um dos obreiros da nossa independência, nacionalidade, cidadania, dignidade e identidade.
A Frelimo recorda Malangatana como um homem imbuído dos mais nobres, valores de cidadania e da necessidade de dar um contributo ao seu país e que não poupava esforços nas tarefas que lhe eram incumbidas pelo partido, daí que foi deputado da Assembleia da República e membro da Assembleia Municipal do Maputo.
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