Majuni Safaris: um paraíso “escondido” e para conhecer



Escrito por Jornal Noticias
Sexta, 10 Dezembro 2010 08:57


Moçambique é por excelência um país de imensas potencialidades turísticas. E quando se fala de turismo no nosso país falamos não só das belas e paradisíacas praias e ilhas. Também nos referimos ao chamado turismo do interior, ou seja, o turismo cinegético.
Niassa, província sem acesso ao mar é uma das províncias onde o turismo do interior é muito bem explorado e atrai não só as atenções de turistas estrangeiros, mas também dos nacionais.
Passam já dois anos que escalamos a coutada de caça da “Majune Safaris”, no Niassa. Dessa vez estávamos no acampamento então considerado principal, no meio daquela floresta exuberante, onde o rio Lureco “gingava” numa curva e com ele todas as espécies florestais e faunísticas que acolhem a singularidade de um clima tropical húmido, à mistura com o de altitude que caracteriza boa parte do Niassa. Depois de uma vegetação própria para acolher todo o tipo de animais, havíamos chegado ao tal acampamento que já não serve à “Majune Safaris”, resultante, como viemos a saber, de um litígio mal resolvido, mas que nos trouxe a confirmação de que quando o Homem decide ser trabalhador só pode encontrar soluções, muitas vezes melhores que as anteriores.
Nessa altura visitámos também um outro acampamento o de Lugenda, o tal rio que corre quase ao contrário da maior parte dos rios moçambicanos. Não vai dar ao mar, como seria de esperar, devido à sua grandeza, mas o relevo, mais uma vez, ditou que fizesse quase o inverso, pois pó-lo a subir para o norte, à procura de onde desembocar, depois de nascer na região de Entre-Lagos, fronteira entre os distritos de Mecanhelas e Mandimba.
Desagua, por isso, no rio Rovuma, na região chamada Negomano, onde muito recentemente foi erguida a Ponte da Unidade, depois de no seu percurso dividir as províncias do Niassa e Cabo Delgado, através dos distritos de Mueda e Mecula.
É este rio que foi muito bem aproveitado na região de Pindura, muito exactamente a 35 quilómetros mais para o interior desta aldeia, construindo-se na sua margem direita um acampamento de luxo, virado para acolher turistas de caça desportiva, mas onde não é proibido ir para outros fins, como seja, a contemplação, a vida em paisagem completamente natural, onde as “fichas” são desligadas, para ouvir apenas sons naturais, apreciar animais em quantidade e qualidade nunca vistas. Telefone, só satélite, e nem o som de aviões nocturnos a cruzar o céu em direcção a algum aeroporto do Malawi ou África do Sul se consegue ouvir.
Estávamos, na realidade, há 240 quilómetros da cidade de Lichinga, com a ideia de repetir a proeza de há dois anos e ficámos satisfeitos por saber que desta vez o acampamento tinha dois moçambicanos que de tanto ouvirem falar das maravilhas daquele local, decidiram visitá-lo em missão turística.
Ivete Samora Cuinica é natural de Chókwè e vive num dos bairros da cidade de Maputo. Actualmente trabalha por conta própria.
“Viajei de avião até Tete, depois atravessei, via terrestre, o Malawi, cheguei a Lichinga e acabei escalando a “Majune Safaris”. Isto é na verdade fantástico, mas infelizmente ainda há compatriotas que preferem passar as suas férias no estrangeiro”.
Cuinica não se cansava de ir vendo as maravilhas da coutada, desde as águas pacíficas do rio Lugenda, os diferentes sectores de tratamento de animais caçados pelos clientes, sempre trocando impressões com os trabalhadores.
O outro moçambicano que encontrámos na coutada foi Xavier Francisco, que trabalha para uma organização humanitária em Nampula.
“Peguei no avião até Lichinga e lá encontrei a boleia da “Majune Safaris”. Hoje estou aqui a ver esta natureza que tanto me encanta. O meu dia-a-dia é ver este rio, conversar com os trabalhadores, dar uma volta que não chega a 100 metros, porque mesmo nesse raio já deparo com diferentes tipos de animais e prefiro vê-los não muito de perto, principalmente os elefantes”.
Comer carne de caça (fresca ou seca) parecia o objectivo dos nossos entrevistados, mas desistiram logo que depararam com uma abastança com que não contavam. Ficou a contemplação e a vontade de todos os dias serem como os passados na “Majune Safaris”.
UM DOS MAIORES “ILAN” ABATIDO NAS MATAS DO NIASSA
No segundo dia da nossa presença no acampamento da “Majune Safaris”, por volta das 20.00 horas, todos os hóspedes foram convidados a um brinde, em comemoração do abate, por um caçador francês, de um animal que consta da lista dos cinco maiores até aqui abatidos em todo o mundo. Chama-se “Ilan” ou “Iland”, ou ainda Epákala, na língua local.
O autor da proeza, Dominique Giller, proprietário de uma das maiores fábricas de portas na França, vinha acompanhado de um seu amigo, a quem lhe pagou o safari, Remi Bonnet.
A informação do abate do animal foi enviada, via telefone-satélite para um centro dedicado ao cadastro de animais caçados pelo mundo, localizado naquele país europeu e o taxidermista Jacques Brejeou, um afeiçoado na matéria, responsabilizou-se por confirmar os dados.
Segundo ele, os chifres do “Iland” da “Majune Safaris” ao medirem 1 metro e 9 centímetros, colocava-se no grupo dos cinco mais, pois está próximo do recorde até aqui conhecido, de 1 metro e 11 centímetros, numa escala em que entram também em consideração os de 1 metro e 1 centímetro.
Perguntámos a Dominique Giller o porquê da escolha de Moçambique, muito particularmente, a província do Niassa para a caça, sabendo-se embora que há muitos lugares no mundo onde tal actividade se pode realizar.
“Na verdade já cacei em outros os países, como a Namíbia, República Centro-Africana, Zimbabwe, entre outros. Mas se quiser que lhe seja sincero, eu gosto de caçar em Moçambique por causa de um caçador profissional que dá pelo nome de Manuel Carona. Não é a primeira vez que caço aqui, por causa disso, porque tenho a certeza do que vou encontrar, o profissionalismo de Manuel não me deixa margens de dúvidas e o significado de caça no mundo para mim acabou sendo reduzido a uma pessoa” disse.
Por outro lado e por causa disso mesmo, de acordo com o nosso interlocutor, a caça não é só pagar e matar o animal, “mas também este convívio, esta segurança que ele oferece aos seus clientes”.
Para Manuel Carona, a “Majune Safaris” não procura assim tanto de clientes, pois eles vêm ter, devido ao que o francês acabava de dizer. São maioritariamente vindos da França, Espanha e Portugal.
“Na verdade, se há, como sabemos, coutadas que estão à procura do primeiro safari deste ano, eu estou no nono e terei até ao fim da campanha, treze. Não há mais lugar para encaixar nenhum safari em 2010 e os pedidos para o próximo ano estão a entrar, resta seleccionar os mais aliciantes”.
Conforme explicação do gestor da “Majune Safaris”, os clientes elegem aquela mata devido, sobretudo, à qualidade dos troféus, quantidade e diversidade dos animais que permitem fazer fotografias diversificadas, a beleza da paisagem, entre outras motivações fundadas naquilo que a natureza oferece.
“Isto tudo vem antecedido de um trabalho de marketing e os clientes contactam a empresa para a realização de excursões (safaris). Estadia é como em qualquer hotel, mas com produtos diferentes: enquanto o hotel oferece praia, piscina, nós oferecemos a observação das espécies, paisagem, visitas à mata” explicam.
E assim ficam satisfeitos, por terem tido um relaxamento total, sem stress, nem pressa, à espera do autocarro ou “chapa” para ir ao serviço e, acima de tudo, envoltos num ambiente natural, com hienas a rirem, os leões a rugirem, as aves a chilrarem, entre outros bichos, cujos cânticos lembram apenas a natureza. Por estarem satisfeitos pagam elevadas somas em dinheiro e às vezes vêm acompanhados, apenas para fazer fotografias, como aconteceu com os compatriotas encontrados desta vez.
Existe um outro acampamento da mesma empresa, o de Nachave, que igualmente recebe clientes e tem as mesmas condições que o de Lugenda. São 38 trabalhadores e outros dois que por alturas da nossa presença tinham recebido um técnico de recursos humanos, que vinha actualizar os seus vínculos com a “Majune Safaris” .
“Estão todos legais”, disse ele para acrescentar que estão com salários em dia, acima do mínimo e que a empresa gasta mensalmente 100.000,00Mt para pagá-los. Encontrámos cozinheiros contratados de Maputo, Pemba e Quelimane, com cursos feitos nos grandes hotéis para corresponder à qualidade que se exige.
O dia no acampamento onde nos encontrávamos começa por volta das 4.00 horas, quando os “Land Cruiser” começam a roncar prontos para a jornada de caça que muitas vezes termina no crepúsculo. Seguem viagem os clientes, os pisteiros (homens especializados em seguir pistas de animais) e o caçador profissional, neste caso, o já referido Manuel Carona.
De regresso esperam-se novidades: ou se apanhou o animal pretendido ou se volta com as mãos vazias, porque os outros encontrados não tinham os requisitos impostos pela lei e desejos do cliente. Só se caçam animais grandes e machos!
Dominique Giller, fazia 21 dias que não havia encontrado o elefante que pretendia e jurava que só depois de o apanhar e o abater regressaria a França. “Com a minha idade não sei se voltarei mais uma vez para Moçambique e aqui deleitar-me com esta natureza e felicidade”.
Mas no acampamento fica uma equipa logística muito forte, parte dos 38 trabalhadores que a empresa tem nos dois acampamentos a cuidar de diferentes sectores de actividade.
Sijaona Amur Matola, vem da aldeia Matiquite, em Marrupa e trabalha para a “Majune Safaris” desde 2008. Antes estava desempregado e agora é responsável pelo tratamento (curtição) de peles dos animais, bem assim cuida dos cornos e troféus.
Diz gostar do seu serviço e desde o início da campanha não foi a casa, tal como o seu colega do sector de secagem, Saide Mpithiwa, proveniente da aldeia Pindura, que a seguir nos mostra o produto do seu trabalho.
Trata-se de carne seca e fumada diariamente a encher sacos que no fim é acondicionada num armazém adjacente e explica o seu destino: oferecer às populações das aldeias vizinhas, hospitais, escolas ou autoridades locais para festejarem sobretudo quando se trate de datas festivas.
“Às vezes apodrece e deitamos fora. Nunca fui a casa desde Março, pensava ir no fim de Novembro quando a campanha encerrasse, a minha esposa e filhos ficaram lá, porque como sabe, onde se procura dinheiro dói, é assim, antes era simplesmente camponês e lembre-se que todos nós, por crença compramos muitos metros de pano branco para vestir embondeiros e outras árvores sagradas, a pedir emprego aos defuntos”.
Entretanto, no acampamento vêem-se algumas mulheres, que o nosso interlocutor disse serem de cinco chefes, um deles, Muaruwi Salimo, o mais velho, com três, que faz questão de alternar a presença de cada uma delas.
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