Nas escolas do Maputo: Falta de água e limpeza periga vida dos alunos



Escrito por Jornal Noticias
Terça, 07 Dezembro 2010 07:01

Defecar num sanitário ou latrina e poder usar um papel higiénico e lavar as mãos com sabão não passa de um mito na vida de milhares de crianças que frequentam o ensino primário público na cidade do Maputo, a capital do país.
Se por um lado algumas unidades de ensino nem água potável possuem, outras há que mesmo dispondo deste recurso hídrico carecem de condição para adquirir o material de limpeza e higiene como creolina, sabão e papel higiénico.
Como tal, as crianças recorrem a soluções ao seu alcance como urinar ou defecar por detrás das paredes das salas ou debaixo das árvores. Para se limparem, não há outra solução senão usar jornais, folhas achadas no recinto escolar ou algo pior: arrancar folha dos seus cadernos ou manuais.
Enquanto isso, para beberem água, os menores, que podem, trazem dos seus domicílios para escola em pequenas garrafas.
Contrariamente a este lastimável cenário, os professores e/ou trabalhadores dos estabelecimentos de ensino da capital do país beneficiam de melhor conforto e condições no que tange à higiene. Os sanitários que utilizam são limpos e apetrechados com todo o material de higiene e não falta água.
Porém, existem algumas escolas onde tanto professores quanto os alunos beneficiam das mesmas condições de higiene. Infelizmente muitas delas são privadas.
Embora cientes do problema, os dirigentes dos estabelecimentos de educação pública pouco ou nada podem fazer. E justificam-se: “não temos capacidade para abrir um furo de água potável nem para adquirir papel higiénico ou sabão para todos”.
Assim, as consequências negativas estão eminentes. É por isso que não será surpresa se, num futuro não longínquo surgirem doenças como as diarreicas bem assim problemas como fugas às aulas e furto de livros ou cadernos entre a pequenada. Esta é a dura realidade que se vive na maioria das escolas públicas.
Foram quatro as escolas que a nossa Reportagem visitou nas zonas de cimento e periferia da cidade do Maputo. Em todas elas, a água potável é garantida pela rede pública ligada pela empresa Águas de Moçambique (AdeM) ou pelos pequenos sistemas privados de distribuição.
Alguns sanitários dispõem de pias e lavatórios e alguns estabelecimentos são servidos por latrinas. Todavia, em todas as unidades de ensino existem banheiros quer para os trabalhadores, quer para as crianças.
O que nos foi dado a observar em muitos sanitários das escolas que visitámos, é simplesmente chocante: chão alagado por urina, fezes e papéis a entupirem as pias, moscas a sobrevoarem e um cheiro nauseabundo e insuportável.
Wilcia Nhantumbo, 11 anos de idade, frequenta a 5ª classe na Escola Primária Completa (EPC) 25 de Setembro localizada, no bairro de Malhangalene, na zona de cimento da cidade de Maputo. Ela conta que nunca viu um papel higiénico e sabão no banheiro.
“Depois de fazer as necessidades garanto a higiene usando folhas que arranco no meu próprio caderno. Por vezes apanho papéis no chão”, contou.
Por seu lado, Rosalina Cumbe, aluna com a mesma idade, classe e escola, revelou na ocasião que no início da semana que vai de 25 a 29 de Outubro ela teve uma doença diarreica. Felizmente não precisou de ir ao hospital para receber o tratamento pois os seus pais providenciaram-na o tratamento.
Para ela, as doenças diarreicas resultam dos alimentos que compra e consome nas redondezas do estabelecimento de ensino e não, necessariamente, porque não lava as mãos após usar os banheiros.
Interessante foi ver, na primária 25 de Setembro, um letreiro numa das paredes dos sanitários com o seguinte teor “Lave as mãos depois de usar o sanitário”. Isto porque não há condições para o efeito naquela escola, apesar de que a uns metros da casa de banho existe uma torneira que pode ser usada pelas crianças e demais pessoas.
Jacinto Sitoi tem oito anitos de idade. Estuda na Escola Primária de Minkadjuine, localizada numa zona baixa e que sempre que chove fica alagada. O estabelecimento educacional tem sanitários para toda a comunidade escolar, mas não há papel higiénico, sabão e falta água. Perante esta realidade, não há como lavar as mãos.
Raquel Chemo tem 11 anos e é aluna da 5ª classe na Escola Primária de Magoanine, na periferia da Cidade. Esta é sem dúvida uma das escolas cujos níveis saneamento e higiene são péssimos. Entrámos nos banheiros e ficámos chocados. Grave porque os banheiros dos professores são limpos. Muito limpos mesmo.
“Nós sofremos ao fazer as necessidades uma vez que lá dentro cheira mal. Preferimos sair e urinar ou defecar na rua ou nas casas que estão perto da escola”, conta a pequena Chemo, apoiada por um grupo de colegas.
Já na Escola Primária Completa Guebo, na periferia da capital do país, quando a nossa Reportagem chegou, as portas dos sanitários estavam encerradas. Ao pedirmos esclarecimentos sobre o encerramento das casas de banho, os alunos conduziram-nos para uma parede onde elas urinam. Assim sendo, depois de cada satisfação das necessidades biológicas, a pequenada volta à sala, às brincadeiras ou tomam os seus lanches com as mãos sujas, com todos os perigos para a sua saúde.
Nas da EPC 25 de Setembro há latrinas (C. Bernardo)
O DINHEIRO QUE FALTA
ILDA CHAMBE é directora da Escola Primária Completa 25 de Setembro. A unidade conta com 33 professores, quatro funcionários para limpeza e 1.558 alunos.
Ela sabe que as crianças precisam de condições adequadas de higiene. Todavia, diz não existirem fundos para cobrir todas as despesas. Assim sendo, a prioridade vai para aquilo que, de forma discricionária, ela considera importante como por exemplo assegurar a limpeza nos banheiros dos trabalhadores.
É assim que o papel higiénico e sabão para os alunos nunca são adquiridos. Para agravar a situação, os sanitários dos estudantes não têm lavatórios desde o mês de Julho. Ficaram quebrados e nunca mais houve condição para repará-los.
Todavia, ela assegurou que, para evitar o pior, os professores sensibilizam os alunos no sentido de lavarem as mãos.
Na EPC de Minkadjuine, o cenário é similar. De acordo com a directora desta escola, Anatércia Macome, é impensável colocar o sabão nos sanitários dos meninos. “Podemos colocar hoje mas amanhã não terá pois as crianças retiram. Por isso nada adianta”, afirmou.
Por outro lado, ela afirmou que a direcção recebeu uma ordem para reduzir os custos no âmbito das medidas de austeridade. Logo, não se compra material de higiene e a saúde os alunos está em risco.
A Primária de Minkadjuine conta com 1.441 alunos, um total de 33 professores e três funcionários que garantem a limpeza. Nesta e noutras escolas a limpeza faz-se por volta das 6 horas da manhã e no final do dia, cerca das 16 horas. O material que se usa para limpeza não varia, de igual modo. Creolina e sais de espírito são os produtos de limpeza mais utilizados.
Salvador Sabela, director Pedagógico da EPC Guebo, contou que, a limpeza das casas de banho é feita com frequência. Construída em 2009,a escola tem três funcionários para limpeza. No recinto escolar existe um furo que serve as necessidades que se colocam. Porém, a água é distribuída com restrições devido à fraca potência do quadro da corrente eléctrica.
“A energia é fraca e não aguenta, por muito tempo, manter em funcionamento a electrobomba, mesmo se desligarmos tudo que funciona com base na corrente eléctrica”, disse. Assim sendo, contactos estão em curso com a Electricidade de Moçambique (EDM) de modo a garantir a corrente que suporte as necessidades.
Por causa dessa realidade, a escola puxa água a partir dum pequeno sistema privado que existe na zona. Só que nem sempre. Como tal, a água não chega para as necessidades. Uma das formas de poupar é trancar as portas dos banheiros. É uma medida que levanta outros problemas se se considerar que as crianças ficam imediatamente limitadas de poderem usar os sanitários.
“A maioria das crianças vem de famílias que não usam pias. Por isso ainda não sabem cuidar deste tipo de sanitários. Os pais deviam contribuir ensinando os seus filhos sobre os cuidados a ter com as casas de banho convencionais. É complicado gerirmos a situação”, explicou o responsável pedagógico.
Assim está a EPC de Magoanine (C. Bila)
MILHARES MORREM
MAIS de 1,5 milhão de crianças menores de cinco anos morre a cada ano em consequência da diarreia no mundo o que se deve, em parte, às precárias condições de saneamento e falta de água. É a segunda causa mais comum de mortes de crianças no mundo inteiro.
Em Moçambique, a diarreia é a quinta causa mais importante de mortalidade infantil, contribuindo as doenças gastro-intestinais com quase sete porcento do número total de óbitos.
Lavar as mãos com água e sabão, especialmente em momentos críticos – depois de usar o sanitário ou latrina e antes de manipular alimentos – ajuda a reduzir a incidência de doença diarreica por mais de 40 por cento. Todavia, este comportamento simples, não é praticada regularmente.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) indicam que as fezes podem conter muco, pus ou sangue criando, por conseguinte, doenças diarreicas.
De igual modo, há parasitas que causam infecção do sistema digestivo devido ao uso de água contaminada.
É nesta quadro que os Ministérios das Obras Públicas e Habitação e da Saúde, com o apoio do UNICEF e de outros parceiros, trabalham para aumentar a cobertura de água e de saneamento, melhorar a prestação de serviços e reduzir a incidência de doenças transportadas pela água tais como a cólera e diarreia.
Assim sendo, de acordo com Gabriel Pereira, Oficial de Comunicação no UNICEF, a agência tem um programa denominado água, saneamento e promoção de higiene. Uma das componentes fortes deste programa consiste em abrir sistema de distribuição de água e educação sobre saneamento nas escolas públicas.
Segundo a fonte, as abordagens de género centradas nas crianças são utilizadas para promover a participação dos jovens e assegurar que as necessidades das raparigas estão nas prioridades da implementação dos programas do Governo.
Neste âmbito, são instalados ou reabilitados sistemas de abastecimento de água nas escolas e latrinas no quadro da iniciativa Escolas Amigas da Criança. O acesso melhorado à água e saneamento tem um impacto positivo nas matrículas, retenção e desempenho, em particular para raparigas e crianças órfãs.
Sanitários ficam encerrados na EPC Guebo (C. Bila)
AS LIMITAÇÕES DO GOVERNO
O GOVERNO está a par do drama que enfrentam as escolas na cidade do Maputo, no que tange higiene. Carlos Manjate, chefe de Programas Especiais na Direcção de Educação da Cidade do Maputo afirmou que todas as escolas dispõem de sanitários quer para os alunos, quer para os funcionários no geral.
Segundo disse, esforços têm sido feitos para que todas as 144 escolas públicas existentes no território da cidade capital tenham água e condições de saneamento para os funcionários e os mais de 400 mil alunos. Todavia, tal nem sempre é possível devido às limitações financeiras.
“Nós temos feitos tudo para que se garanta a água e saneamento nas escolas pois conhecemos as consequências negativas da falta destas condições”, disse.
Aliás, há sempre um trabalho de educação dos alunos de modo a conhecerem a importância de lavar as mãos depois de usarem os sanitários. Tal faz parte da componente de ensino e aprendizagem.
Relativamente ao abastecimento de água potável, José Maria, porta-voz da Águas de Moçambique, explicou-nos que a sua empresa fornece a água potável às escolas, sempre que solicitada.
As escolas são consideradas como prestadoras de serviços. Logo são facturadas com tarifa de serviços estipulada em 24.46 meticais, num consumo que varia de zero a 25 metros cúbicos.
Na ocasião, a fonte afirmou que algumas escolas não pagam prontamente as facturas dos respectivos consumos. Porém, nem com isso se recorre ao corte da distribuição uma vez que a água é um bem fundamental necessário e de grande importância nas unidades de ensino.
Enquanto isso, Paulino Cossa, presidente da Associação dos Fornecedores de Água de Moçambique (AFORAMO), disse, a-propósito da distribuição de água nas escolas públicas, que a taxa que se cobra é de 25 meticais, por metro cúbico, o mesmo que pagam os demais consumidores do “precioso líquido”. Para tal basta a escola solicitar uma ligação.
A nível da cidade capital, a AFORAMO conta com mais de 300 membros que possuem pouco mais de 900 pequenos sistemas de distribuição de água potável. É deste universo de que se beneficiam algumas escolas públicas.
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