Mandioca: Aposta para gerar riqueza e nutrição



Escrito por Jornal Noticias
Quinta, 18 Novembro 2010 06:41

As potencialidades e oportunidades para o agro-negócio da cultura da mandioca, juntou semana passada, em Nampula, mais de cinquenta pessoas interessadas em promover este tubérculo.
No encontro de Nampula, que por sinal é o maior produtor desta cultura alimentar, com uma meta estimada em três a quatro milhões de toneladas por ano e que juntou produtores, processadores, organizações não-governamentais e governamentais que procuravam expor as potencialidades e oportunidades na cadeia de valor da mandioca, ficou-se a saber que com aquela cultura se pode confeccionar o pão, bolos, produzir papel, medicamentos, vestuário e bebidas alcoólicas, valias estas que podem ser geradoras de renda para os camponeses.
Para erradicar a pobreza extrema e a fome, no âmbito do cumprimento das metas dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, o grupo da mandioca que se juntou na cidade de Nampula, que incluía igualmente instituições ligadas à investigação agrária nacionais e estrangeiras, casos do IIAM e IITA, entende que se o nosso país conseguir estimular a produção agrícola deste produto envolvendo o sector privado, pode reduzir a incidência da pobreza até 40 porcento em 2015.
A este respeito, os participantes questionaram com muita insistência as razões do porque não se investir na cultura da mandioca, tendo em conta que cada parte deste tubérculo alimentar é útil, senão vejamos: as suas folhas contém proteínas para alimentação humana e ração para animais, as hastes servem para a fermentação ligno-celulósicos para a produção de etanol e butanol, enquanto que as raízes são um delicioso alimento e matéria-prima para outros produtos industriais.
Aliado a estes aspectos nutricional e industrial, o cultivo da mandioca pode ser feito em ambientes instáveis, é tolerante à seca, cresce tanto em solos pobres como ricos, para além de que tem um longo período de armazenamento na terra.
Países como a Tailândia e o Vietname, já demonstraram que a cultura da mandioca pode impulsionar o desenvolvimento rural e a melhorar as condições de vida das comunidades rurais. Pequenos agricultores naqueles dois países ganham cerca de 0,8 bilião de dólares norte-americanos anualmente por produzir mandioca fresca para produção de amido, raspa ou pílulas de ração e indústrias de alimentos.
Uma combinação de pequenas e médias fábricas de processamento, adopção de novas variedades de alto rendimento, resistentes a pragas e doenças e práticas agronómicas melhoradas, contribuiu sobremaneira para o aumento da renda dos pequenos agricultores e catapultou o desenvolvimento de muitas aldeias naqueles países.
Director provincial da agricultura
APOSTAR NAS TECNOLOGIAS
Os principais provedores do material vegetativo da mandioca em Nampula, nomeadamente o IIAM, IITA, SARRNET e outros parceiros, têm desenvolvido variedades desta cultura com alto rendimento, resistentes a pragas e doenças, localmente designadas por colicanana, nziva, okhumelela, orera e eyope. Porém, eles acham que o fraco acesso a tecnologias de agro-processamento e divulgação dos subprodutos, assim como a oferta limitada destes no mercado ou a sua apresentação ao consumidor, pode emperrar com todo o desiderato que se pretende.
Outra questão levantada no encontro de Nampula, é que actualmente a mandioca, por se considerar uma cultura de pouca renda, é praticada pelo sector familiar que não trabalha em áreas que ultrapassam os dois hectares e o envolvimento dos privados acontece com alguma reticência, acontecendo mesmo em relação a sua comercialização e processamento.
“Para além da população que tem consumido a mandioca e sua farinha, estamos a trabalhar junto das padarias para que usem a farinha de boa qualidade para o fabrico do pão. Igualmente, a empresa Cervejas de Moçambique, já mostrou interesse em usar o amido no processo de produção da cerveja. Temos feito trabalhos de consciencialização e realizado várias feiras para a promoção dos subprodutos da mandioca”, afirmou Constantino Cuambe, investigador agrário do IIAM em Nampula.
Está também em curso a construção de uma unidade de processamento da mandioca no posto agronómico de Nampula, com o financiamento da União Europeia e da JICA, do Japão, que se espera entre em funcionamento em Dezembro próximo ou Janeiro de 2011, enquanto que em Ribaué, e numa parceria entre o Ministério da Indústria e Comércio e a UNIDO, um organismo das Nações Unidas, será estabelecida uma unidade para apoiar os produtores no aumento das suas áreas e níveis de produtividade.
O Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), Centro Zonal Nordeste, juntamente com o grupo da mandioca, pretende na próxima campanha, ocupar uma área de 101 hectares para a multiplicação de variedades melhoradas de mandioca, para além de uma acção conjunta com o IITA que vai lavrar 280 hectares para o mesmo fim, cujo material vegetativo será a posterior distribuído gratuitamente aos interessados.
Na província de Nampula, as maiores regiões de produção estão situadas no interior, mais concretamente em Malema, Lalaua, Ribáuè, Mecubúri, Murrupula, Muecate, Meconta e Monapo, enquanto que o litoral é o maior consumidor deste produto.
O VALOR DO TUBÉRCULO
Para consumo humano, a mandioca oferece a sua farinha grossa, sendo que para a indústria ela é transformada em farinha de alta qualidade para o fabrico de pão e massas alimentícias, vulgo macarrão, raspa e amido produtos imediatos desta cultura.
Empreendedores privados e algumas organizações como a Olima, em Ribáuè e Wissa que na língua tsonga, significa descansar, e em Mutivaze, criaram um movimento que tem como missão valorizar este produto nacional e oferecer uma gama de produtos agrícolas de alta qualidade, tais como oleaginosas, leguminosas e com enfoque na produção e processamento da mandioca e da respectiva folha, para a confecção do vulgo mathapa.
A representante da Wissa, em Nampula, Judite Pinto, uma das empresas que actualmente faz o agro-processamento para acrescentar valor a mandioca e que se dedica igualmente à promoção de novos hábitos, explicou que o objectivo da organização “é de alcançar os padrões mundiais de competitividade, melhoria da dieta alimentar, poupando o esforço físico e tempo do consumidor e, de um modo particular a mulher, tendo em conta a dinâmica que se impõe no seu dia-a-dia”.
Por seu turno, Melba Mussagy, especialista em agro-negócios, ligada ao IITA, disse não entender por que razão o país ainda não adoptou medidas para potenciar as oportunidades e potencialidades que a mandioca oferece, sendo uma cultura que pode ser produzida em condições climatéricas adversas.
“Com ou sem chuva a produtividade da mandioca não baixa e a sua conservação não tem muitos custos, para além de que podemos fazer muito negócio com a raspa para a produção de ração, e a partir da sua farinha podemos nos alimentar. Os camponeses moçambicanos sabem produzir mandioca o que precisam é aumentar a sua capacidade e conhecimento sobre como gerir os negócios provenientes da venda desta cultura”.
O director provincial da Agricultura em Nampula, José Varimelo, que tomou igualmente parte no encontro do grupo da mandioca, afirma que o Executivo provincial está atento e preocupado com a demanda que esta cultura está a ganhar nos últimos tempos, explicando que a aposta é privilegiar a multiplicação de variedades deste tubérculo e o seu rendimento por hectare.
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