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O drama de um menino

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Falar de meninos de rua na cidade da Beira e/ou em muitos centros urbanos do nosso país deixou de ser novidade. Contudo, um novo fenómeno está a acontecer à volta deste grupo da sociedade, já há muitos deficientes físicos que engrossaram esta “família”. As razões desta situação não se diferem das dos habituais petizes que já vêm vivendo nas artérias do “Chiveve”, problemas sociais que resultam muitas das vezes, em torturas protagonizada por familiares como a principal causa.
Com o efeito, o número de crianças órfãs e vulneráveis, desta feita deficientes físicos, está a aumentar nas artérias da cidade da Beira sob o olhar passivo de quem de direito. Trata- se de petizes que estão expostos a vários riscos tendo em conta que a sua situação física não ajuda para algumas disputas que têm sido “tradicional” para situações de género.

A nossa equipa de Reportagem testemunhou no passado dia 30 de Maio um episódio triste atinente. Mas, a missão da equipa do “Notícias” era fazer a cobertura do espectáculo organizado pelos músicos beirenses para homenagear os seus colegas já falecidos, tendo em conta que o evento estava a demorar começar, o nosso Repórter fotográfico, Fortunato Vicente, decidiu fazer alguns “cliks” pelas artérias do “Chiveve” para trazer o “modus vivendi” nocturno da capital provincial de Sofala.

Enquanto Fortunato Vicente contemplava as ruínas à volta da já encerrada livraria Thandy, eis que defronte vimos um adolescente sobre uma carrinha de rodas tentando tirar algo no contentor de lixo. Curiosos, aproximámos para compreender a história e a primeira leitura deu para compreender que estávamos diante de um deficiente físico.

O que estás ai a fazer? - Questionou a nossa equipa de Reportagem. Tímido, o miúdo disse que “ estou à procura de cartolina nesta lixeira”.

Cartolina, para quê”- retorquimos, tendo o adolescente explicado que “é para servir de cama e cobertor”.

Para familiarizar a conversa explicámos ao adolescente deficiente físico e mendigo que éramos jornalistas. Com o efeito, ele foi posteriormente mais aberto, tenho explicado que está fora de casa desde finais de 2008.

“Gege é o meu nome, mas é de casa. Na escola, chamo-me Camilo Gregório Gil. Tenho 14 anos e todos os dias tenho que procurar cartolina nas noites para servir de cama. Durmo na praça do Município ou no passeio daqueles prédios mais próximos. Sai de casa porque minha tia, irmã da minha mãe, me batia todos os dias, às vezes não me dava comida. Por isso, preferi sair de casa”- disse, visivelmente triste.

Gege explicou que é órfão. Primeiro perdeu o seu pai e depois a mãe, mas não se lembra em que ano porque era muito pequeno. Mas recorda que depois passou a residir junto desta tia na zona de Chicuacha, no populoso bairro da Munhava.

Reiterou que as torturas de que era vítima foram suficientes para que decidisse abandonar a casa, tinha na altura já concluído a 5ª classe, mas a situação que vivia não permitiu que continuasse a estudar.

“Eu estudava na Escola Primária Amílcar Cabral, na Munhava. Passei para a 6ª classe e não voltei mais a estudar porque minha tia me batia muito. Sou que tinha que fazer quase tudo em casa, os vizinhos assistiam todo o sofrimento que eu passava, mas não tinham como me ajudar porque minha tia é muito má.

Gege disse ainda que gostaria de continuar os estudos, mas nunca teve mais uma oportunidade para concretizar o aludido sonho. Aliás, confessou que o seu maior sonho é se formar, numa área que possa ajudar as pessoas carenciadas e/ou salvar vidas humanas.

“Eu ainda quero estudar, mas não tenho como. Quero ficar Doutor para ajudar outras crianças pobres”- disse, entre risos, mas com uma lágrima no canto do olho.


ESPOSA DO GOVERNADOR OFERECEU CARRINHA DE RODAS

PARA se locomover, Camilo Gregório Gil socorre-se de uma carrinha de rodas que terá recebido da senhora Etelvina Vaquina, esposa do ex-governador de Sofala, Alberto Vaquina. Ele revelou-nos que a referida senhora teria certa vez lhe visto na praça do Município da Beira e sensibilizou-se com a sua situação, tendo posteriormente lhe presenteado com o referido meio de locomoção.

“Esta carrinha foi um presente da esposa do governador, aquele que já está em Tete, o senhor Vaquina. E para fazer a manutenção dessa carrinha tenho que depender da boa vontade das pessoas. Por exemplo, há dias o pneu da carrinha furou-se e tive o apoio do dono de uma oficina, ele tem me ajudado muito, não tem cobrado nada pela reparação da bicicleta. Mas há outros que quando peço ajuda costumam me exigir dinheiro, o que tem sido difícil para manter a carrinha em circulação” - afirmou Gege.

O pequeno Gege revelou ainda que não raras vezes pessoas de má fé já tentaram roubar lhe a carrinha, mas sempre teve socorro por parte de companheiros de ocasião, que conseguiram evitar que o pior acontecesse.

“Uma vez tentaram roubar a carrinha, mas outras pessoas que dormem também na rua correram com o ladrão. Por isso que prefiro dormir na praça do Município porque somos muitos, ai há muitos titios já crescidos que têm nos protegido dos bandidos”- disse.


DIFÍCIL CONVÍVIO COM OS VETERANOS

APESAR de haver jovens e/ou senhores de rua que têm acudido aos petizes, companheiros da noite, a vida não tem sido fácil tanto para o Gege como para outras crianças que têm as artérias do “Chiveve” como o seu leito. O pequeno Camilo contou-nos, no entanto, que não raras vezes têm aparecido meninos mais velhos a protagonizar “bagunça” só para criar encrenca para os pequenotes, inventando histórias comprometedoras como casos de roubo.

A-propósito, Gege explica, que é muito normal um menino mais velho inventar que teria sido roubado dinheiro e apontar um desprotegido só para criar um ambiente de confusão. Como consequência disso, segundo acrescenta, o acusado tem sido vítima de agressão física, quer dizer, nem sempre a sua situação física tem sido respeitada pelos companheiros da noite.

Em todo o caso, assegura que os maus-tratos que sofria em casa da sua tia eram mais violentos que os dá rua.

“Ela foi muito má comigo, por isso que não tenciono voltar à casa. Prefiro ficar aqui. Mas gostaria de ter uma família como outras crianças da minha idade. A vida da rua é muito dura”- reconheceu.

Gege confessou nos que nunca teve qualquer contacto com o pessoal ligado ao sector da acção social, mas gostaria que tivesse ajuda desta instituição pelo menos no que diz respeito à escolaridade.

“Quero muito voltar a estudar”- confessou, visivelmente triste, numa altura em que continuava à procura de melhor cartolina que pudesse servir de cobertor para aquela noite do dia 30 de Maio do ano corrente.
O menino fala ao “Notícias” (F. Vicente)


COMO GEGE HÁ MUITOS MAS ESTES SÃO ALCOÓLATRAS

NUMA ronda, efectuada posteriormente pela nossa Delegação da Beira, foi possível concluir que o pequeno Gege não é o único petiz portador de deficiência que virou menino de rua. Casos há de crianças, cuja locomoção depende de muletas e outras portadoras da cegueira que têm os passeios das diferentes artérias da cidade da Beira como o seu leito.

Trata-se, na essência, de petizes forçados a compartilhar o espaço que serve de moradia com jovens e adultos que se envolvem em drogas, álcool e acções criminais que não ajudam em nada àqueles meninos. Aliás, meninos há portadores de deficiência que já consomem álcool de forma abusada.

A zona da Praia Nova tem sido o local preferencial para a aquisição das bebidas, maioritariamente com teor alcoólico bastante pesado, como são os casos das de fabrico caseiro e outras nacionais apelidadas por “Tchacutchena” ou simplesmente branquinha, respectivamente.

“Bebo isso para relaxar porque a minha vida tem sido difícil. Essa vida é uma ressaca, ninguém está para ninguém. Ser deficiente nesta terra é pior coisa, não há respeito. Onde está o Governo?”- questionou um dos meninos portadores de deficiência física, identificado apenas pelo nome de Manito.

De Manito não conseguimos colher muita coisa, porque estava num estado bastante avançado de embriaguês.

Infelizmente, não conseguímos captar as imagens do menino que aparenta ter entre 10 e 12 anos de idade.

Mas, num dos bolsos de trás das suas calças, o pequeno rapaz trazia uma garrafa de uma bebida alcoólica de fabrico nacional e outra estava nas suas mãos e ao lado estavam as suas duas muletas.


ACÇÃO SOCIAL VAI SEGUIR “O CASO GEGE”

CERTAMENTE que uma carrinha de rodas já é um louvável para uma criança deficiente, supostamente abandonada à sua sorte, mas o pequeno Gege tem sonhos que estão ainda por concretizar, como por exemplo ter uma família e ter acesso à escolaridade, dois “itens” que vêm muito bem plasmados na Carta Africana sobre os Direitos da Criança,  na Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças, entre outros dispositivos legais atinentes.

Solicitado pelo “Notícias” para se pronunciar sobre o assunto, a directora dos Serviços de Saúde, Mulher e Acção Social da cidade da Beira, Graciana Pita, assegurou que o seu sector irá seguir o “caso Gege” para compreender melhor e posteriormente dará as devidas respostas.

Graciana Pita reconheceu, no entanto, que a situação do petiz é bastante delicada, tomando em consideração aquilo que foi o seu depoimento. Por isso, reiterou que o seu sector irá trabalhar para identificar a verdadeira família do pequeno Gege e procurar proporcionar um futuro condigno para o visado.

Disse tratar-se do primeiro caso de género, mas salientou que há muitos outros meninos de rua portadores de outro tipo de deficiência que também clamam por apoio, dai que se estuda a melhor forma de apoiar os petizes, com a reunificação da família a ser a estratégia mais usada para evitar institucionalizar episódios de género.

Com o efeito, já foi destacada uma equipa do sector para averiguar o “caso Gege” e tomar as devidas medidas em prol da defesa do petiz. A chefe da Repartição da Acção Social no sector de tutela, ao nível da cidade da Beira, Natália Rosa, é quem orientará a missão.

“Tudo será feito para compreender melhor o caso. Não podemos adiantar medidas a serem tomadas, mas há sempre meios alternativos para situações como estas. Em todo o caso, a nossa política é não institucionalização das crianças”- referiu Rosa.

Rosa reconheceu que casos de crianças de ou que vivem na rua são bastante delicados. Para o efeito, contou-nos que episódios já aconteceram em que a sua instituição levou petizes da Beira para alguns distritos da província, nomeadamente Caia, Cheringoma, entre outros, na perspectiva de reunificar a família, mas as mesmas crianças acabaram por voltar à rua porque o hábito de viver de ‘mãos estendidas já estava no sangue”.

“Temos muitas histórias tristes e outras até certo ponto engraçadas que envolvem essas crianças. Tivemos um caso de Caia em que compreendemos que não havia maus tratos como a criança propalava, dai que levámos a criança para a família com objectivo de reunificá-los. Mas, quando cheguei na Beira, a criança já estava nesta cidade e quando procurámos compreender a situação, ela explicou- nos que já estava habituada àquela vida que levava no centro de acolhimento às crianças da Cruz Vermelha de Moçambique”- revelou.

Em todo o caso, o “Notícias” tem informações segundo as quais há uma previsão de realização de um estudo, a nível da cidade da Beira, promovido pelo Instituto Nacional de Acção Social, para compreender reais causas que fazem com que os petizes primem por viver na rua e vem a mendicidade como a sua “bóia de salvação”. 

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