Negomano deixa de ser “região a mais”!(1)



Escrito por Jornal Noticias
Quarta, 19 Maio 2010 08:15

Negomano é hoje a hospedeira da melhor ligação terrestre entre Moçambique e a Tanzania, a única travessia cómoda, que não vai depender da chuva ou seca nem do vento, uma vitória, conforme se disse que basta, mas também o renascer de uma região que durante muito tempo se tornou no celebremente triste exemplo de sofrimento, sitiada, de seca quase permanente e fome sazonal.
Uma região que, ao que tudo indica, é a única divisão administrativa, com a categoria de posto administrativo, mais distante da sua sede distrital, 185 quilómetros, bem assim, a menos povoada.
Negomano traz-nos a história de ter sido palco de uma batalha, durante a II Guerra Mundial, recordada num mural ainda incólume frente à administração colonial, na sede do distrito de Mueda, que tem cravadas as seguintes palavras: a pátria reconhecida que por si honrosamente morreram no combate de Negomano, em 17 de Novembro de 1917. Confirmamos tratar-se de uma batalha entre os soldados portugueses e o exército alemão, que os locais dizem não ter atingido as populações locais, pois “ era uma guerra entre eles”, conforme o velho Mahomed, entrevistado por este jornal em Julho de 1997.
Depois destas façanhas, incluindo o ter sido, igualmente atingido pelas guerras de libertação, e sobretudo da Renamo, que deixou um rasto de sofrimento ainda patente na memória do povo, Negomano passou a ser um local, que a ironia do destino vinha apelidando-a de “região a mais”, deste imenso país, de tão isolada e à mercê de todas as privações que a situação geográfica e a dificuldade de acesso impunham.
As primeiras tentativas de intervenção em Negomano, através de instituições governamentais e agências de auxílio, começariam a 22 de Março de 1997, numa altura em que a fome estava a afectar a totalidade dos seus residentes, bem assim, das regiões de Chapa e Ngaba, ambas do distrito de Mueda.
Integrados numa comitiva do então director nacional do ex- departamento de prevenção e combate às calamidades naturais (DPCCN), Silvano Langa e o então governador provincial, Jorge Muanahumo, o nosso jornal chegava pela primeira vez a Negomano, de avião, mas sem ter podido aterrar, pois o que era pista não era visível, embora estes governantes tivessem entrado em contacto com as populações locais, pois faziam-se transportar de helicóptero.
De regresso, Silvano Langa era portador de uma planta silvestre, de nome Shingalo, que produz grãozinhos que depois de secos e moidos produzem farinha que era a base de alimentação da população de Negomano, com a ajuda de outras variedades, como Liuchi e Chintumba, que impediram que mais mortes se registassem por causa da fome, apesar da falta completa de alimentos tradicionais dos humanos do nosso país.
Tinha ficado claro que a solução definitiva do problema estava na reabilitação completa da estrada e reconstrução das oito principais pontes que faziam de Negomano um lugar inatingível usando viaturas, pois na altura apenas 40 quilómetros eram transitáveis, até à região de Mathiu e nessa condição os esforços visando a salvação daquelas populações passavam por concluir os restantes 145 quilómetros, cujos valores necessários não estavam ao alcance do Governo.
Para piorar o dilema, tal como hoje, a população de Negomano era exageradamente dispersa, para além de diminuta e a média de separação entre as sete aldeias, chegava a atingir os 60 quilómetros, sendo que o resto era preenchido por floresta e fauna adaptáveis às condições climatéricas da região.
De tão complicado era o problema de Negomano, que se chegou a questionar se não era mais barato o Governo financiar a transferência das cerca de 3.500 pessoas para uma região acessível, do que mobilizar fundos para reabilitar os restantes 144 quilómetros de estrada e pontes diversas, apenas para entrar em contacto com aquele número de pessoas. Mas colocava-se a questão da soberania sobre a região, logo, na fronteira com um outro país, para além de os habitantes terem no local a sua história e cultura, razão porque, mesmo debaixo de tão dramáticas condições de vida, não abandonavam a região, preferindo viver de folhas silvestres, mel, etc.
Havia sido avançada, por outro lado, a ideia de que Negomano fosse na sua globalidade declarada região de reserva animal, dado o grande despovoamento humano e as dificuldades que o Governo tinha em assistí-la e na verdade, conforme outro tipo de ironias da altura, custava crer que, também alí fosse Moçambique.
Jorge Muanahumo acabou sendo o primeiro governador a pisar Negomano, naquele 22 de Março de 1997, em mais de 15 anos. Não pôde encontrar soluções imediatas, pois a vida em Negomano estava cheia de aspectos aflitivos e adversidades visiveis. Para além da fome atingindo a totalidade da população, desde 1989 que o posto não tinha sequer um enfermeiro, para não falar de posto de saúde, sendo de advinhar as consequências daí resultantes, sobretudo porque a cada calamidade correspondia um tipo de epidemia.
As populações não tinham recursos e na oportunidade, em virtude do elevado caudal do rio Rovuma, não se socorriam, como era habitual, a Ntambaswala, uma localidade, igualmente rústica, da margem esquerda daquele, que dispunha de assistência sanitária. Os professores haviam fugido para a sede distrital, Mueda, e outros, aquando da presença da comitiva, faziam dias caminhando à pé em direcção àquela sede, aonde iam levantar o material escolar.
O PRIMEIRO SOCORRO A NEGOMANO
No dia 31 de Março de 1997, inicia a primeira intervenção relativamente séria ao posto administrativo de Negomano, flagelado por sucessivas secas desde 1993, cuja crise de fome se considerava aguda e não estava a ser fácil contorná-la devido, como acima foi dito, às dificuldades decorrentes da intransitabilidade da estrada que liga a sede distrital ao posto. Então, dois tractores e um camião iam partir de Mueda com destino à Localidade de Nambungali, no inicio de uma maratona experimental que poderia levar a ajuda de emergência às mais de 3.500 pessoas desprovidas de meios de sobrevivência.
Os tractores iam tentar chegar a Negomano, tendo em conta que alguns rios da região poderiam estar secos, já que as chuvas haviam parado e o camião iria até a já referida região de Nambungali, que seria o posto avançado, a partir da qual iriam carregar a comida para Negomano.
O actual administrador do distrito de Mueda, Leôncio Julai, era a pessoa mais visivel do processo, pois era director provincial do DPCCN e orientara que, caso os tractores chegassem a Negomano priorizariam a distribuição de comida pelas famílias, 20 quilos de milho para cada família ao invés do que era habitual, segundo a fórmula então aplicada pelo departamento governamental contra as calamidades, para casos afins, de 13,6 kg por pessoa/mês, pois receiava-se que, indo por aí, algumas familias ficassem sem serem contempladas.
Mas, até ao fim da tarde de 31 de Março, chovia torrencialmente, o que criava suspeitas sobre se a tentativa iria ou não resultar em face das enxurradas que poderiam naturalmente aumentar os caudais dos rios ao mesmo tempo que as outras regiões do baixo planalto, exigiam, igualmente ajuda alimentar urgente, tais como Chapa e Ngaba, o que fez com que os meios circulantes fossem reforçados, nomeadamente em tractores prometidos pelo então director nacional do DPCCN, o já referido Silvano Langa.
A caminho de Negomano, já com os víveres, os tractores ficam enterrados durante uma semana e foram-se desenterrando, assim sucessivamente, tendo gorado a viagem de socorro, até que mais uma adversidade se impôs, pois começou a agingatar-se o problema da falta de comida para as pessoas que a levavam para as pessoas necessitadas e daí o facto de se terem auto-assistido, até que as expectativas se esfumem, pois o que chegou ao destino era por demasiadamente insuficiente.
PRIMEIRA VIAGEM, VIA TERRESTRE
Sò em Julho do mesmo ano, três meses depois é que chega a comida em quantidades razoáveis, no mesmo dia em que o nosso jornal chega, pela primeira vez, a sede do posto administrativo de Negomano, usando a via terrestre. Estavam na comitiva um sul-americano que era o representante regional do Programa Mundial da Alimentação, com sede em Nampula, José Luis Castro, Leôncio Julai, director do DPCCN, o administrador distrital de Mueda, o falecido Ambrósio Vicente e um colega da RM, o também finado, Remígio Membe.
O posto recebia, pela primeira vez, um lote de ajuda de emergência. Eram seis toneladas de feijão, milho e óleo alimentar. Soubemos que era destinada a apenas 96 familias(546 pessoas) de Negomano-sede e 77 famílias, o correspodente a 462 pessoas da aldeia Nambunda. As quantidades juntar-se-iam às que haviam sido distribuidas na primeira intervençaão, que na verdade era de 20 toneladas de milho e 7 de feijão e a seguir, através do PMA, enviar-se-iam produtos que seriam distribuidos à luz do sistema comida pelo trabalho, sendo prioridade máxima atribuída, à reabilitação da estrada.
Estava claro que sem estrada nada se poderia esperar de todos os esforços combinados e o drama criado pela sucessiva seca que flagelava a região, dava sinais de estar a ser ultrapassado a pouco e pouco. Na altura restavam 76 quilómetros por reabilitar, a vida das populações voltaria à normalidade, deixando de considerar que ir a Negomano fosse um sonho a não repetir.
Mas , o coordeandor regional do PMA, dizia na altura, em resposta a uma pergunta do “notícias” que “ por mais que se tivesse aberto uma auto-estrada para Negomano, se no primeiro quilómetro se encontrasse um rio que nos impedisse o prosseguimento da viagem, portanto sem ponte, de nada valeria tanto esforço, justificando por outras palavras a necessidade de tudo ser feito concomitantemente(estradas e pontes).
Negomano era, então, uma bandeira nova da República, que dava a impressão de se estar em Moçambique, porque depois de atravessar matas e florestas, nas quais só a linguagem selvagem tinha lugar, chegava-se ao ponto em que não era dificil pensar que se poderia estar entre uma situação de ter perdido o rumo da viagem ou simplesmente que estivessemos a viajar fora do nosso país.
Dessa vez, apenas o sossego apareceu quando apanhamos Bernardo Nampunda, então chefe do posto de Negomano, que recebera uma motorizada que lhe emprestava a dignidade de dirigente, mas que ainda não sabia conduzí-la, nem sabia quando poderia fazê-lo e quem lhe haveria de instruir alí.
Tal como o chefe do posto, a educação, desta vez, já se fazia presente, na altura com 234 alunos da Segunda e Terceira classes e, a pouco e pouco, a saúde já estava a funcionar com um posto que, curiosamente, atendia também doentes do outro lado do Rovuma, em aparente superioridade, com doentes maioritariamente que sofriam de conjuntivite, malária, DTS, mas o enfermeiro Francisco Tomás Malove, não auferia o seu salário haviam dois meses e meio.
“ A aceitação aos doentes tanzanianos da região de Ntambswala, é justa, porque ninguém os pode impedir, sabendo que quando o nosso posto administrativo estava “esquecido” por muitas razões, os residentes daqui socorriam-se nos pequenos hospitais daquela localidade” justificava Malove, que também deveria receber doentes das aldeias de Nambandua, Nahavara, Ninga, entre outros, sendo este último localizado a 54 quilómetros.
Naquele mês de Julho de 1997, as pessoas em Negomano mal sabiam que a guerra movida pela Renamo havia terminado, ninguém sabia do nascimento de outros partidos, apesar da própria Frelimo ter ido uma vez dar a novidade e só se deslocavam a Mueda, a 185 quilómetros, para comprar capulanas.
O PAPEL DE JOSÉ PACHECO E DA COMUNICAÇÃO SOCIAL
A aparente ressureição de Negomano durou apenas seis meses, pois em Fevereiro de 1998, de novo o posto administrativo volta a ficar incomunicável, o administrador distrital não sabia do que se passava naquela sofredora região e a probabilidade de os seus habitantes voltarem a mergulhar numa aguda crise de fome era mais segura, do que o contrário.
Desta vez não era a seca cíclica, mas sim, o facto de a região ter começado a receber chuva regular, o que levou a que os rios ficassem cheios, cortando, mais uma vez a comunicação, já a poucos quilómetros da sede e as populações não haviam recebido semente, depois de sucessivas campanhas agrícolas sem produzirem.
Certa vez, pela maneira repetitiva com os meios de comunicação social(“notícias”, a Rádio Moçambique e o ICS) reportavam os caminhos sinuosos porque passava a população de Negomano e valendo-se dos encontros mensais que o governador provincial, o actual ministro do Interior, José Pacheco, mantinha com os jornalistas, estes pediram apoio do governo para irem ver “in loco” o sofrimento daquele posto administrativo.
O governador pediu algum tempo e criou as condições logisticas para que os jornalistas fossem, não só a Negomano, como toda a província, naquilo que ao nível dos escribas era conhecido por “roteiro”. Chegados àquele ponto da provincia a classe jornalística pôs-se a “sonhar” ante a beleza que é construida pela confluência de dois grandes rios, o Lugenda e o Rovuma, fazendo um cruzamento que na língua macua é Oguma, do que resulta Ongomana, para ter ficado pela corruptela linguística portuguesa, Negomano.
Ainda não estava fixa a ideia de onde estaria localizada a ponte da unidade, pois haviam informações que apontavam a província do Niassa, ligando directamente a região de Lupeliche, assim como estudavam-se outros lugares no interior de Cabo Delgado. e as ideias iam desde a beleza da praia que é sustentada pelas margens dos dois rios e panorama paisagístico vislumbrante da outra margem do Rovuma, em Ntambaswala. Os escribas viraram visionários ao afirmarem que o lugar era potencialmente turistico.
No almoço mensal seguinte com o governador, os jornalistas pediram que ele fizesse tudo o que estivesse ao seu alcance para que todos os membros do seu governo conhecessem Negomano, para terem a sensibilidade necessária para tê-lo em conta na sua governação, assim como sugeriram que ele próprio fizesse uma viagem a esse posto.
Não se sabe se por isso, mas o certo é que José Pacheco, incluiu Negomano na sua visita ao distrito de Mueda, passando a ser o segundo governador a visitar a região, depois de Jorge Muanahumo, mas o primeiro a ir por via terrestre, tendo convidado um número não invulgar de jornalistas.
Enquanto a visita a Negomano decorria, José Pacheco, que rapidamente havia sido contagiado pelo ambiente envolvente, sobretudo do aspecto turistico e beleza ímpar, ia murmurando algo com os escribas, aos quais prometeu um encontro para mais uma vez se tocar o assunto Negomano, no qual, já na cidade de Pemba, os representantes da comunicação social, sugeriram que o governador organizasse um evento naquele local, envolvendo os seus quadros, do estilo sessão do governo provincial alargado aos administradores distritais ou comemoração de uma data histórica de interesse nacional.