Agricultor, ervanário …: As outras facetas de um arquivista



Escrito por Jornal Noticias
Segunda, 20 Setembro 2010 08:45

Entrada para os quadros da Sociedade do Notícias a 19 de Setembro de 1968 como servente do Arquivo, secção a partir da qual viria a ascender ao cargo de chefia após vários anos. Até à data da sua reforma, o senhor Mondlane, como é carinhosamente chamado pelos ex-colegas das redacções dos jornais “Notícias”, “Desafio” e “Domingo”, tratou o Arquivo destes três órgãos por “tu”.
Salomão Mondlane considera aquele espaço como algo mais que um simples arquivo, pese embora assim é conhecido. Para ele, a designação reduz até certo ponto a real dimensão do arquivo de um órgão de comunicação que, na sua óptica, devia ser tratado como Centro de Documentação. Alia uma tal designação ao facto deste lugar ser detentora, de informações de capital importância, não só para os escribas no seu dia-a-dia como também para a História da nação.
A 19 de Setembro deste ano teria completado 42 anos de serviço, mas há poucos meses passou à reforma. Da sua trajectória pela Sociedade do Notícias guarda boas recordações, saudades e algumas mágoas, embora, segundo ele, saia de cabeça erguida e com espírito. Para além de arquivista, Mondlane é homem de múltiplas facetas: é fanático religioso e milita na Igreja Presbiteriana de Moçambique.
Dedica-se à medicina tradicional, na qual se orgulha de ter curado várias doenças consideradas complicadas como tuberculose e acidente cardiovascular cerebral (AVC), que a medicina reivindica exclusiva competência. É também acérrimo trabalhador da terra e actualmente desenvolve uma técnica pouco comum de fertilizar os solos com base na urina humana. Passamos de seguida esta entrevista, em que o Notícias (NOT) traz parte da experiência de trabalho de Salomão Mondlane (S.M.).
Notícias (NOT) - Poderia falar de algumas etapas que marcaram a sua trajectória pelo Notícias findos cerca de 42 anos de trabalho?
Salomão Mondlane (S.M.) - Vim para a Sociedade do Notícias em 1968 como servente do Arquivo. Graças a um colega meu, experiente na área e que actualmente dirige a Companhia Nacional de Canto e Dança, David Abílio, recebi instruções do que era o trabalho de um arquivo. Profissionalmente considero aquele homem um pai. Fui aprendendo dentro da secção e só mais tarde, depois de ascender a arquivista, é que tive uma capacitação vocacionada.
NOT- Qual era a motivação da instrução que recebeu de David Abílio? Para preencher alguma lacuna?…
S.M - De forma alguma. Deixe-me só explicar que na era colonial haviam trabalhos indicados para quem entrasse como servente. Não tínhamos autorização de fazer algo mais que não fosse ser servente. O meu trabalho resumia-se na organização dos documentos em ordem, conforme a classificação dos mesmos. Naquela era dava-se dúvidas ao pessoal menor, como o meu caso, sobretudo com baixas qualificações. Na altura eu tinha apenas a quarta classe. Nós éramos uma espécie de ponte entre uma Redacção e o Arquivo, auxiliando desta forma o arquivista, que é quem mexia nos ficheiros em caso de solicitação de trabalhos pela Redacção e vice-versa. Acontece que eu fui e sempre continuo a ser um indivíduo curioso. Acontece que o funcionário do Arquivo chegava tarde, porque era ao mesmo tempo funcionário do Cinema. Entrava aqui às 10.00 ou mesmo ao meio-dia e enquanto isso sempre chegavam solicitações de imagens e textos logo no período da manhã. Tinha que se trabalhar e mesmo sem autorização mexíamos os ficheiros para que os outros trabalhassem. A estratégia que adoptámos foi de tirar a ficha e não voltar a colocar e fazer um registo paralelo ao que era feito pelo arquivista de modo a evitar o desaparecimento do material até que o arquivista desse o devido procedimento.
NOT- E como é que viria a ascender a arquivista?
S.M. – Exactamente por causa da minha curiosidade. O meu chefe gostou e viu que eu era capaz de fazer aquele trabalho, que era de grande responsabilidade e importância para uma publicação do nível do Notícias. Fui chamado para uma instrução já a sério e isso aconteceu só em 1973.
NOT- Durante os seus 42 anos de trabalho, o país foi marcado por diferentes contextos históricos que de certa forma, influenciaram na maneira de ser e de trabalhar num jornal como o Notícias. Que memórias guarda dessas mudanças?
S.M. - Há muitos marcos importantes de que tenho memória. A partir da altura em que o meu chefe descobriu as minhas qualidades, em 1974. Com a fuga quase que generalizada de cérebros, que garantiam o funcionamento de toda uma máquina deste país vimos que a situação não estava fácil da nossa parte e que o trabalho não devia parar. Foi a partir dai que vimos o nosso espírito de camaradagem a elevar-se e pusemos mãos à obra. Foi um momento memorável, porque ditou uma maneira de ser e de fazer as coisas de forma diferente. Todos assumimos que devíamos trabalhar mesmo sem aquela orientação dos mais experientes. Mas porque nenhum de nós tinha formação na área e sob orientação do Fredinando Mendes, que na altura passou a gerir a administração, fomos submetidos a uma formação para melhor lidarmos com a documentação. Fechávamos completamente as portas no período da manhã para atender ao curso.
NOT - Mas o que é ser arquivista de uma empresa da dimensão desta Sociedade com três jornais?
S.M. - É muito mais do que se pensa. Quando se fala de arquivo de um jornal subentende-se que é algo semelhante a um arquivo administrativo, mas não é tão linear. O nosso (sector) para já nem devia se chamar arquivo, mas sim um Centro de Documentação, o que é completamente diferente de um arquivo administrativo. Mas ficou esse nome, razão pela qual, internamente, vê-se o nosso trabalho com certo desprezo. Aquele trabalho do arquivo é auxiliar ao do jornalista. Ele faz parte da Redacção e é continuidade da Redacção, apesar de ser negado como tal, o que se reflecte até na carreira. Para elucidar, vou dizer que aqui no Notícias existem dois arquivos: o administrativo, que organiza os documentos da administração, e o nosso, que trata mais de matéria ligada às redacções.
NOT- Isso nalgum momento foi para vocês motivo de inquietação, mágoa ou de sentimento de exclusão?
S.M. – Não posso negar e essa matéria foi nalgum tempo discutida.
NOT- E essa “exclusão” deixou-vos mal nalgum momento?
S.M. - Muito mal, sim. O trabalho que se faz no arquivo não é visto na dimensão que tem sob posto de vista de importância. Mas ele é património da instituição. Tem documentos de grande importância, não só para o Jornal como para o país. Tem todo o segredo nacional assim como internacional. Quando o nosso Arquivo era mais amplo do que o é agora recebíamos até publicações de fora, como da África do Sul, da Rodésia do Sul, actual Zimbabwe, nos tempos cruciais da dominação estrangeira e da luta dos nacionalistas. Mas como o arquivo ficou reduzido chegámos até ao ponto de não termos espaço suficiente para melhor circulação do utente.
NOT - Viu a evolução do arquivo nos diferentes momentos vividos pelo Jornal e pelo país. Sente-se satisfeito pela forma como deixa o arquivo volvidos 42 anos?
S.M. - … saio satisfeito. Quem tem motivos para se sentir lesado é o patrão. Digo isso porque nalgum momento nós tentámos trabalhar para colocar o Arquivo numa situação diferente da actual, num sistema em que todo o país pudesse ter acesso aos seus conteúdos. Quem manifestou o interesse em fazer isso foi o Mário Ferro (chefe da Redacção do jornal Notícias nos finais da década de 80) e a ideia não vingou. Saiu o Mário Ferro e veio o delegado Albino Magaia (recentemente falecido), indicado pelo Governo para administrar a empresa. Trabalhámos com ele e até fomos de casa em casa a identificar equipamento informático para modernizar o processo de armazenamento do material mas esse projecto também não vingou. Pronto… isso desmoraliza qualquer um. È nesse sentido que eu digo que quem fica lesado é o patrão. Eu saio satisfeito, na medida em que cumpri a minha missão. Vim aqui pedir emprego para tentar ajudar a minha família e graças a Deus conseguiu ir até onde a Lei do Trabalho me permitiu.
NOT - …é com o espírito de missão cumprida que deixa o Notícias?
S.M- Sem dúvidas, deixando as lamentações de fora.
NOT - Tem alguma saudade do Arquivo?
S.M - Apesar de ter reformado, passam já alguns meses, continuo até a sonhar a trabalhar no Arquivo e esse é o grande sinal de que ainda sinto saudades daquela secção.
Salomão Mondlane
DIGITALIZAÇÃO DE IMAGENS QUEBROU A MEMÓRIA DO ARQUIVO
UM dos passos dados pela Sociedade como forma de acompanhar as novas tendências tecnológicas foi a introdução do sistema digital para a fotografia usada. O facto, segundo o nosso interlocutor, é bem-vindo, porque o que se pretende realmente é estarmos a par desses processos. Contudo, reprova a forma como as novas tendência são introduzidas. Para ele, a digitalização veio quebrar a memória do Arquivo do Notícias.
NOT - Nalgum momento e não muito distante houve a alteração no processo de armazenamento de conteúdos como, por exemplo, fotografias. Isso não estaria a reduzir o papel do Arquivo?
S.M - Bom. Vi com bons olhos a experiência, mas em termos de benefícios não me sinto em condições de tirar ilações. Acho que não sou a pessoa indicada para fazer uma avaliação se a sociedade está a ter ganhos com isso.
NOT. - Mas na sua experiência recente de arquivista sentiu-se bem ao ter um jornalista a precisar de imagem e não poder dá-lo porque não existe?
S.M. - É de facto embaraçoso para quem necessita de imagem.
NOT - O Sr. Mondlane, lembro-me, nalgum momento manifestou cepticismo quanto à viabilidade do novo método… como viu as coisas logo a seguir?
S.M. - Realmente criou-nos um certo distúrbio na secção, na medida em que sempre que alguém vê uma imagem publicada no Jornal tem a certeza de que irá encontrá-la no Arquivo. Para além de pedidos internos, há também dos feitos a partir de fora quando há um certo interesse por uma determinada imagem e a título devolutivo. Se chegar aqui e não encontrar a foto arquivada porque está digitalizada e num outro sector isso de certa forma quebra a rotina. Volto a dizer que se tivessem dado “luz verde” ao processo de informatização do Arquivo na altura isso não seria problema nenhum hoje. Uma das formas de evitar esse baralho seria uma identificação rigorosa da fonte da imagem, pois ao se dizer que a imagem é do arquivo seria menos trabalhoso do que quando se diz que é do arquivo quando na verdade foi nalgum momento publicada pelo jornal e nada mais.
NOT. - Mas em termos comparativos, o que acha da informatização e da conservação da documentação do sistema tradicional? Nos dias que correm faz sentido?
S.M. - Ser-me ia difícil comparar uma coisa de que tenho domínio com algo que desconheço. Mas em termos de acompanhar a evolução acredito que a informatização estaria a facilitar a vida no que diz respeito à rapidez na localização dos documentos requeridos. Mas como é algo que não temos, difícil me torna falar das vantagens e desvantagens.
NOT. - Diariamente os jornais produzem um volume de material e como vê futuramente o processo de armazenamento no sistema até agora utilizado?
S.M. – O espaço é de facto motivo de preocupação. Em tempos tivemos instalações mais amplas que as actuais. Toda a zona que hoje é ocupada pela Secção de Pagemaker, Maquetização e Desafio fazia parte do arquivo era preenchido pelo material do arquivo mas mesmo assim já reclamávamos o espaço. Tínhamos inclusivamente uma sala para a leitura, onde tanto os colegas como pessoa vindas de fora faziam as consultas, como forma de ter a colecção por perto. Contudo, isso foi abolido sem que fôssemos sequer consultados. Com essas medidas, que só desorganizam, quem sai prejudicado não é somente o utente e/ou arquivista mas também a empresa. Digo isso porque haverá um momento que se precisará de documentos importantíssimos e que não serão localizados.
NOT. - Momentos marcantes, positivos ou negativos na sua vida pessoal.
S.M. - Positivamente guardo memórias agradáveis do espírito de camaradagem que tive com os colegas. Sempre trabalhei com pessoas que se sentiam parte integrante mas das outras, sob ponto de vista do trabalho. Apesar de se trabalhar sob dificuldades, não deixamos de nos sentir parceiros um do outro. Negativamente: recuando um pouco para o tempo em que se produzia o jornal a partir do chumbo posso dizer que atravessámos um péssimo momento, ao inalar aquele vapor diariamente. Muitos de nós que trabalhávamos no Arquivo fomos afectados pelos gases emitidos durante o processo de produção dos jornais. Se for a reparar as chaminés iam dar exactamente na zona do Arquivo e concentravam toda a fumaça por ali. Tivemos lesões pulmonares, contraímos tuberculose. É verdade que tratámo-nos e passou, mas eu por exemplo tenho sequelas disso. Hoje o sistema foi abolido e as condições são outras. Felizmente ninguém perdeu a vida por causa disso e, apesar disso, sinto-me filho daqui.
A DOENÇA EMPURROU-ME À MEDICINA TRADICIONAL
A VIDA de Salomão Mondlane não foi somente dedicada à Sociedade do Notícias. Enquanto trabalhava como documentalista realizava outras actividades, como a prática da medicina tradicional e a agricultura, o que o tornou num homem multifacetado.
NOT. - Para além dos anos dedicados à Sociedade do Notícias realizou actividades díspares uma da outra. Pode explicar-nos como conseguia conciliá-las?
S.M. - Primeiro sou fanático religioso. Vou à igreja, canto e danço com muito gosto. Milito e fiquei muitos anos como ancião muito respeitado na minha igreja, a Presbiteriana de Moçambique. Machamba: considero uma herança. O meu pai foi um grande agricultor extremamente dedicado e isso quase que me fez perder a escolarização, pois na minha família a prioridade era o trabalho do campo. Comecei a estudar já crescido, com mais de 15 anos e por ter passado os meus primeiros anos de vida dedicados ao trabalho do campo, em Manjacaze. Trabalhar a terra está nas veias. Um trabalho que executo com muito domínio e não por obrigação. Concluí a quarta classe com a maioridade e por essa razão tinha que pagar imposto. Meus pais sentiram-se obrigados a baixar a minha idade para eu poder fazer exame de admissão que me daria direito a realizar o exame da quarta classe. Era assim nos tempos. Mas por causa da minha idade, vedaram os resultados do exame de admissão até ter dinheiro para o imposto que me credenciasse ao exame.
NOT. - Como conseguiu então a escolarização básica quando a idade não o permitia?
S.M. - Foi complicado. Veja que nos anos a que me refiro o ano lectivo iniciava em Setembro, para terminar em Junho. As espigas no arrozal despontavam em Abril, altura dos preparativos para o exame. É na mesma altura que o meu pai me mandava para machamba para espantar os pássaros que pudessem devorar o arroz. Findo o tempo de espantar os pássaros começavam os exames de admissão e eu ficava sempre de fora e no ano subsequente a história repetia-se. Sempre fiquei três anos sem fazer o exame da mesma classe porque os meus pais não entendiam o valor da escolarização. Paradoxalmente, todos os anos deixavam-me ir à escola e eu sabia mas não passava de classe por não fazer exame.
NOT. - … e quando é que entra para a medicina tradicional?
S.M. – Tudo tem a ver com o chumbo a que me referi, que me afectou os pulmões. Apanhei tuberculose numa altura em que devia entrar para a tropa. Tínhamos um médico que assistia os trabalhadores da empresa, aqui no edifício da Emose. Ele fez um relatório sobre o meu estado de saúde, no qual deixava clara a minha inaptidão devido a lesões nos pulmões. Acontece que na tropa aquele relatório não era válido. Tudo passava pelo relatório de um Hospital Militar e assim foi. Fui examinado no Hospital Militar onde se provou a minha doença. Posteriormente fui mandado para casa por inaptidão, onde aguardaria pelo melhoramento e um provável chamamento caso fosse necessário, o que não aconteceu porque a independência estava perto. Nesse entretanto, fui à minha terra de origem, isso em 1973. A minha mãe entrou em desespero quando me viu, porque eu era um autêntico esqueleto, por doença. Ela não acreditava no que via e levou-me a um feiticeiro. Chegado lá o homem quis me submeter à magia, ao que me recusei. Porque já sabia o que me punha doente e o que eu queria naquele momento era só remédio de tuberculose e nada mais. A minha mãe não gostou e regressámos à casa. Sorte minha, a minha irmã mais velha foi lá à nossa casa para se inteirar do meu estado de saúde e mostrou-me alguém que conhecia ervas e que curava sem recorrer à magia. Ela tratou-me, e, satisfeito, fui de joelhos pedir para que me mostrasse a planta e aceitou. Tudo começou aí. Passei a curar outras pessoas e hoje posso desafiar até o Hospital Geral da Machava sem nenhum receio, apesar de se dizer que a tuberculose não se cura fora das unidades sanitárias.
NOT. - Terminou pela tuberculose ou pode se orgulhar de ter curado outras doenças?
S.M. – Posso me orgulhar por ter curado com sucesso a tuberculose e por ter devolvido a uma boa saúde crianças com diversas complicações desde as chamadas doenças da lua, as deformações na cabeça, que na minha língua chamam-se xilalo, crianças que não desenvolvem fisicamente, como se tivessem má nutrição. A partir daquela raiz veio-me a curiosidade de alargar mais o meu conhecimento e não fiquei por aí. Hoje trato pessoas com Acidente Vascular Cerebral, o que vulgarmente é conhecido por trombose. Se conhecer alguém que de repente contraia trombose pode mandar até a mim a ver se em três dias não fica em pé.
MESMO REFORMADO NÃO SOU SEDENTÁRIO
SALOMÃO Mondlane está há poucos meses fora do activo. O facto que é interpretado por muitos como sinónimo de degradação de um indivíduo por sedentarismo não o afecta, porque, como disse, esteve e sempre estará no activo, desenvolvendo outras actividades.
NOT. - Que leitura faz da reforma: sinónimo de acelerar a degradação do indivíduo por sedentarismo?
S.M. - Isso depende de pessoa para pessoa, do que faz ou deixa de fazer, após a reforma. Eu, por exemplo, sinto-me muito bem mesmo reformado e tenho a oportunidade de trabalhar. Na reforma surgem doenças sim relacionadas com o sedentarismo mas isso não é o meu caso porque eu sempre trabalhei quer na instituição quer fora desta. Outras poderão me apoquentar e a morte claro que não escolhe a idade e muito menos a ocupação da pessoa, bastando somente que esteja vivo para morrer. E mais, para mim, a reforma não foi surpresa quanto mais que em Outubro do ano passado lembrei aos meus superiores hierárquico que este ano faria 60 anos de vida e 42 de profissão, sendo que gostaria de usufruir do meu direito, o que devia ter acontecido aos 35 anos de trabalho. Quando a resposta veio foi com quatro dias de antecedência, isso não me afectou porque já estava preparado psicologicamente para ficar em casa. O trabalho que faço não é alternativa à reforma mas sim continuidade, porque já o vinha fazendo.
NOT. - Sabemos também que está a desenvolver uma técnica de fertilização da terra com base na urina. Pode nos falar um pouco dessa experiência?
S.M. - Com a minha urina! (… risos) já falei inclusivamente para um outro órgão de comunicação social sobre o assunto. Tudo começa graças ao irmão de uma colega que está numa empresa que promove essa técnica. Ele veio para o serviço na altura e eu ainda estava no activo e soube que eu me dedicava ao cultivo da terra. Sugeriu-me que aderisse ao projecto da sua instituição. E mais uma vez a minha curiosidade falou alto. Fiz uma experiência em dois canteiros com o mesmo produto. Um com solo fertilizado com a minha urina reservada durante 45 dias e outro sem urina e vi que os resultados eram extremamente diferentes. A cebola do canteiro com urina desenvolvia mais que a do que sem urina. Foi a partir daí que vi a importância da experiência.
NOT. - E já está a implementar essa experiência?
S.M. – Com muito sucesso. E aplica-se a todo o tipo de verduras: couve, alface, beterrabas cenoura etc. O excedente vendo e não fico à espera do subsídio da reforma. Em Manjacaze também cultivo arroz. A minha família, por exemplo, alimenta-se do arroz da minha machamba e não depende da loja para matar a fome. A terra oferece-nos tudoo que se quer é trabalhar para tirarmos ganhos dela.
NOT. - A nível familiar, quem é o Salomão Mondlane?
S.M.- Sou casado oficialmente, com sete filhos vivos. Teria oito mas quis o destino que perdesse a minha primogénita. Tive cinco meninas e três rapazes exactamente o inverso do meu pai. Ele teve cinco rapazes e três meninas. Tive sempre a minha vida ligada à terra natal, Manjacaze, onde tenho a minha casa principal, minha esposa e meus filhos. Continuo aqui em Maputo a cuidar das minhas machamabas. Como um bom changane aprecio bastante a “upswa” com gosto e posso fazê-lo de um a 30. Como arroz porque enfim…. acompanhamento excelente para mim é uma boa mboa.
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