“Queremos um ensino ao serviço da sociedade”



Escrito por O pais
Sexta, 13 Maio 2011 06:32

Samaria Tovele diz que os trabalhos desenvolvidos pelas universidades ficam arquivados, quando podiam servir à sociedade
A nova reitora do Instituto Superior de Tecnologias e Gestão - ISTEG - diz que o maior desafio da instituição é consolidar a qualidade no processo de ensino-aprendizagem. Samaria Tovele entende que o ensino superior deve responder às necessidades da sociedade, através da produção do conhecimento e defende uma maior proximidade entre as instituições de ensino superior e o mercado.
Quais são os desafios impostos pelo novo cargo?
É um grande desafio. Acredito que com as minhas qualificações, com a minha experiência de trabalho e com o apoio do corpo docente, que de facto irei encontrar, possamos levar um projecto que possa ir de encontro com as necessidades da própria sociedade. Digo isso porque hoje o ensino superior deve ser aliado àquilo que é a visão estratégica do nosso país, sob ponto de vista das políticas de desenvolvimento. Penso que todos os trabalhos feitos ao nível do ensino superior se devem reverter para o desenvolvimento do país. Todos os trabalhos devem estar aliados às necessidades, sobre o que nós pretendemos e o tipo de produtos que nós esperamos. Por isso, temos de direccionar a investigação para as áreas económicas que nós sabemos que são relevantes para o nosso país, e o ensino superior acima de tudo deve ser capaz de cobrir a parte de desenvolvimento que queremos alcançar no país.
É a primeira mulher a ocupar o cargo de reitor em Moçambique, o que traz maiores responsabilidades...
Sou a primeira mulher de facto a assumir o cargo, mas acredito que há mulheres que mais cedo poderiam ter assumido esse cargo de reitora de uma instituição de ensino superior. Neste caso, acredito que vou dignificar as mulheres em primeiro lugar, para que não se decepcionem com o que vou fazer. Mas acredito também que ao nível do ensino, as mulheres têm avançado mais além sob o ponto de vista de competências. Esta é uma questão de oportunidade e eu penso que se calhar nem todas as mulheres têm a oportunidade na altura em que deviam ter, e neste caso houve uma proposta e com base no meu perfil e no meu currículo fui seleccionada para este cargo.
É também a pessoa mais nova à frente duma instituição de nível superior...
Nem sempre a idade significa necessariamente um acumulado de experiência. mas também para lidar com estudantes e alunos, quando nós nos encontramos com uma variedade de idades acredito que em termos de facilidades e sob ponto de flexibilidade possa ser relativamente acessível para mim, tendo em conta a minha idade e se calhar haja mais comunicação com os alunos.
Substitui no cargo uma figura incontornável da ciência e conhecimento em Moçambique. Qual é a sua visão de futuro, ou seja, o que se propõe a fazer para marcar a diferença no mercado?
A minha aposta no ISTEG é que acima de tudo, agora que nós sabemos que há problemas de emprego, o que nós temos que fazer é de facto fazer a diferença. Nos temos que dotar os nossos alunos não só de competências, estou a falar de conhecimentos científicos, tecnológicos, habilidades profissionais para que de facto eles possam ser mais competitivos ao nível do mercado de emprego. Temos que internacionalizar a universidade, no sentido de olhar-se para o ISTEG e saber-se que o aluno vai para lá e sai com alguma competência, e esse aluno é competitivo fora da escola. Mas acima de tudo isso é que a escola e a universidade devem estar ao serviço da sociedade, no sentido de nós irmos avaliando o que na área de educação chamamos de avaliação dos padrões de qualidade. Isto é o que deve ser introduzido ao nível da Universidade. Ao nível do país, por vezes choca-me muito quando dizemos que vamos a um país e tirar alguém para nos vir ajudar a desenvolver determinadas actividades. Eu acredito que na competência técnica temos também que usar o que é nosso. O que também acho que é uma pena, e que está a acontecer agora, é que temos muitos estudos de investigação - porque quando os alunos fazem a sua graduação e a pós-graduação desenvolvem trabalhos de pesquisa - mas esses trabalhos de pesquisa vão morrendo nas universidades. Esses trabalhos abordam situações reais, que têm a ver com um contexto que de facto é nosso e têm lá perspectivas e avançam com algo que possa trazer uma mudança benéfica para a nossa sociedade, mas isso tudo é engavetado, o que significa que nós, como país, ainda não estamos a ter essa capacidade de consumir tudo o que é o produto da universidade para o desenvolvimento do país. Nós temos que começar a valorizar esses trabalhos ao nível das universidades, ao nível das instituições públicas e privadas, criando um maior nível de articulação entre as universidades e as próprias instituições que operam ao nível do país.
Qual é a sua visão em relação ao ensino superior em Moçambique, particularmente ao ensino privado?
Em relação ao ensino superior, aliado àquilo que são as questões de desenvolvimento e à declaração do ensino superior que aponta para a necessidade da massificação do mesmo, eu acredito que este deve estar aliado à qualidade. É importante que todo o moçambicano tenha acesso à educação, é importante que todo o moçambicano tenha acesso ao ensino superior. O que de facto eu penso que não seria desejável é que os estudantes saiam do ensino superior sem qualificações e nem competências apropriadas. Ou seja, o nosso estudante acaba de terminar o curso, mas não é capaz de responder às expectativas da sociedade, olhando para o perfil e o curso que a pessoa frequentou, neste caso estaríamos a falhar naquilo que é o sistema, quando nós olhamos para o ensino superior. Isso tudo deve ser regulado, e acredito que agora o Ministério da Educação tem lá um grupo de profissionais que têm como papel acima de tudo avaliar a qualidade ao nível do ensino superior. Tem de se avaliar a qualidade e tem de se trabalhar com padrões de avaliação e desempenho das próprias instituições, no que diz respeito às instalações que as instituições oferecem para acomodar os cursos superiores.
As instituições de ensino superior privadas têm fama de obedecer à lógica do lucro fácil. Como manter sustentável uma universidade privada, com docentes qualificados e bibliotecas devidamente apetrechadas, sem prejudicar a qualidade?
Quando falamos da avaliação dos padrões de qualidade certamente que isso vai fazer diferença. Estamos a pensar em ter um gabinete de avaliação de qualidade ao nível do ISTEG e esse gabinete vai funcionar com base em padrões que vão permitir fazer a medição entre aquilo que é a qualidade e aquilo que são as competências relevantes ao nível das sociedades. Por exemplo, ao nível do país, nós podemos ir visualizando um pouco a área de construção, nós sabemos que a construção é muito cara, por vezes não temos poder económico para adquirirmos material básico para ter uma casa confortável, mas é importante que os nossos estudantes comecem a investigar alternativas de que alguém possa ter uma habitação condigna a baixo custo e isso vai resultar para alguma coisa ao nível da sociedade. É isso que nós pretendemos, que o ensino esteja ao serviço da sociedade, que seja algo inovador e algo que contribui para o bem-estar da população. Esse é um exemplo que eu usei, mas acredito que ao nível das outras áreas como a agricultura e outras áreas económicas podemos ver que problemas temos e intervirmos para solucioná-los. Outra perspectiva é que possamos ter uma maior articulação com as empresas e com as instituições públicas, de forma a captar o que esperam dos nossos alunos. Isso é o que vai fazer diferença, porque o que eles esperam nós vamos poder incluir no nosso currículo, e acima de tudo é que os nossos alunos sejam capazes de fazer a diferença onde eles vão trabalhar, para mudar alguma coisa, criar e inovar com base no conhecimento científico que eles transportam, por forma a que nós possamos de facto desenvolver como um país, tanto a nível pessoal, assim como global.
“Queremos um ensino ao serviço da sociedade”
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Samaria Tovele diz que os trabalhos desenvolvidos pelas universidades ficam arquivados, quando podiam servir à sociedade
A nova reitora do Instituto Superior de Tecnologias e Gestão - ISTEG - diz que o maior desafio da instituição é consolidar a qualidade no processo de ensino-aprendizagem. Samaria Tovele entende que o ensino superior deve responder às necessidades da sociedade, através da produção do conhecimento e defende uma maior proximidade entre as instituições de ensino superior e o mercado.
Quais são os desafios impostos pelo novo cargo?
É um grande desafio. Acredito que com as minhas qualificações, com a minha experiência de trabalho e com o apoio do corpo docente, que de facto irei encontrar, possamos levar um projecto que possa ir de encontro com as necessidades da própria sociedade. Digo isso porque hoje o ensino superior deve ser aliado àquilo que é a visão estratégica do nosso país, sob ponto de vista das políticas de desenvolvimento. Penso que todos os trabalhos feitos ao nível do ensino superior se devem reverter para o desenvolvimento do país. Todos os trabalhos devem estar aliados às necessidades, sobre o que nós pretendemos e o tipo de produtos que nós esperamos. Por isso, temos de direccionar a investigação para as áreas económicas que nós sabemos que são relevantes para o nosso país, e o ensino superior acima de tudo deve ser capaz de cobrir a parte de desenvolvimento que queremos alcançar no país.
É a primeira mulher a ocupar o cargo de reitor em Moçambique, o que traz maiores responsabilidades...
Sou a primeira mulher de facto a assumir o cargo, mas acredito que há mulheres que mais cedo poderiam ter assumido esse cargo de reitora de uma instituição de ensino superior. Neste caso, acredito que vou dignificar as mulheres em primeiro lugar, para que não se decepcionem com o que vou fazer. Mas acredito também que ao nível do ensino, as mulheres têm avançado mais além sob o ponto de vista de competências. Esta é uma questão de oportunidade e eu penso que se calhar nem todas as mulheres têm a oportunidade na altura em que deviam ter, e neste caso houve uma proposta e com base no meu perfil e no meu currículo fui seleccionada para este cargo.
É também a pessoa mais nova à frente duma instituição de nível superior...
Nem sempre a idade significa necessariamente um acumulado de experiência. mas também para lidar com estudantes e alunos, quando nós nos encontramos com uma variedade de idades acredito que em termos de facilidades e sob ponto de flexibilidade possa ser relativamente acessível para mim, tendo em conta a minha idade e se calhar haja mais comunicação com os alunos.
Substitui no cargo uma figura incontornável da ciência e conhecimento em Moçambique. Qual é a sua visão de futuro, ou seja, o que se propõe a fazer para marcar a diferença no mercado?
A minha aposta no ISTEG é que acima de tudo, agora que nós sabemos que há problemas de emprego, o que nós temos que fazer é de facto fazer a diferença. Nos temos que dotar os nossos alunos não só de competências, estou a falar de conhecimentos científicos, tecnológicos, habilidades profissionais para que de facto eles possam ser mais competitivos ao nível do mercado de emprego. Temos que internacionalizar a universidade, no sentido de olhar-se para o ISTEG e saber-se que o aluno vai para lá e sai com alguma competência, e esse aluno é competitivo fora da escola. Mas acima de tudo isso é que a escola e a universidade devem estar ao serviço da sociedade, no sentido de nós irmos avaliando o que na área de educação chamamos de avaliação dos padrões de qualidade. Isto é o que deve ser introduzido ao nível da Universidade. Ao nível do país, por vezes choca-me muito quando dizemos que vamos a um país e tirar alguém para nos vir ajudar a desenvolver determinadas actividades. Eu acredito que na competência técnica temos também que usar o que é nosso. O que também acho que é uma pena, e que está a acontecer agora, é que temos muitos estudos de investigação - porque quando os alunos fazem a sua graduação e a pós-graduação desenvolvem trabalhos de pesquisa - mas esses trabalhos de pesquisa vão morrendo nas universidades. Esses trabalhos abordam situações reais, que têm a ver com um contexto que de facto é nosso e têm lá perspectivas e avançam com algo que possa trazer uma mudança benéfica para a nossa sociedade, mas isso tudo é engavetado, o que significa que nós, como país, ainda não estamos a ter essa capacidade de consumir tudo o que é o produto da universidade para o desenvolvimento do país. Nós temos que começar a valorizar esses trabalhos ao nível das universidades, ao nível das instituições públicas e privadas, criando um maior nível de articulação entre as universidades e as próprias instituições que operam ao nível do país.
Qual é a sua visão em relação ao ensino superior em Moçambique, particularmente ao ensino privado?
Em relação ao ensino superior, aliado àquilo que são as questões de desenvolvimento e à declaração do ensino superior que aponta para a necessidade da massificação do mesmo, eu acredito que este deve estar aliado à qualidade. É importante que todo o moçambicano tenha acesso à educação, é importante que todo o moçambicano tenha acesso ao ensino superior. O que de facto eu penso que não seria desejável é que os estudantes saiam do ensino superior sem qualificações e nem competências apropriadas. Ou seja, o nosso estudante acaba de terminar o curso, mas não é capaz de responder às expectativas da sociedade, olhando para o perfil e o curso que a pessoa frequentou, neste caso estaríamos a falhar naquilo que é o sistema, quando nós olhamos para o ensino superior. Isso tudo deve ser regulado, e acredito que agora o Ministério da Educação tem lá um grupo de profissionais que têm como papel acima de tudo avaliar a qualidade ao nível do ensino superior. Tem de se avaliar a qualidade e tem de se trabalhar com padrões de avaliação e desempenho das próprias instituições, no que diz respeito às instalações que as instituições oferecem para acomodar os cursos superiores.
As instituições de ensino superior privadas têm fama de obedecer à lógica do lucro fácil. Como manter sustentável uma universidade privada, com docentes qualificados e bibliotecas devidamente apetrechadas, sem prejudicar a qualidade?
Quando falamos da avaliação dos padrões de qualidade certamente que isso vai fazer diferença. Estamos a pensar em ter um gabinete de avaliação de qualidade ao nível do ISTEG e esse gabinete vai funcionar com base em padrões que vão permitir fazer a medição entre aquilo que é a qualidade e aquilo que são as competências relevantes ao nível das sociedades. Por exemplo, ao nível do país, nós podemos ir visualizando um pouco a área de construção, nós sabemos que a construção é muito cara, por vezes não temos poder económico para adquirirmos material básico para ter uma casa confortável, mas é importante que os nossos estudantes comecem a investigar alternativas de que alguém possa ter uma habitação condigna a baixo custo e isso vai resultar para alguma coisa ao nível da sociedade. É isso que nós pretendemos, que o ensino esteja ao serviço da sociedade, que seja algo inovador e algo que contribui para o bem-estar da população. Esse é um exemplo que eu usei, mas acredito que ao nível das outras áreas como a agricultura e outras áreas económicas podemos ver que problemas temos e intervirmos para solucioná-los. Outra perspectiva é que possamos ter uma maior articulação com as empresas e com as instituições públicas, de forma a captar o que esperam dos nossos alunos. Isso é o que vai fazer diferença, porque o que eles esperam nós vamos poder incluir no nosso currículo, e acima de tudo é que os nossos alunos sejam capazes de fazer a diferença onde eles vão trabalhar, para mudar alguma coisa, criar e inovar com base no conhecimento científico que eles transportam, por forma a que nós possamos de facto desenvolver como um país, tanto a nível pessoal, assim como global.
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