POUPANÇA - Xitique: Verdadeiras contas no informal



Escrito por Jornal Noticias
Sexta, 23 Julho 2010 08:11
Pelo número de grupos de pessoas que praticam o “xitique” – forma de poupança em que normalmente, pessoas próximas, se juntam, fixam o montante da contribuição de cada membro e a periodicidade dos encontros para prestação de contas e distribuição rotativa da poupança, por cada um deles - pode se assumir que se está perante uma espécie de “contas bancárias” no sector informal.
Fontes filiadas a agremiações socioprofissionais da esfera económica, dizem que embora o número de contas bancárias existentes no sistema financeiro formal seja elevado, não se deve menosprezar a quantidade de grupos de “xitique”, dado ser esta uma forma de entreajuda bastante enraizada na sociedade moçambicana.
As formas de contribuição no xitique variam, podendo partir de 50 meticais até milhares de meticais por mês por cada membro e, no caso de alguns retalhistas que operam no sector informal, a contribuição é também feita em moeda estrangeira, preferencialmente o dólar norte-americano e o rand sul-africano.
As mesmas fontes explicam que há xitiques com objectivos indeterminados, ou seja, a aplicação do dinheiro não é direccionado para um fim preciso e cada um é livre de fazer o que melhor lhe apraz. Mas também existem xitiques com finalidades claras e inalteráveis, conforme o projecto que o criou e vão desde a poupança em dinheiro; distribuição de bens como electrodomésticos e roupa diversa; apoio a casamentos; compra de material de construção, entre outros.
Embora seja prática corrente na generalidade dos mercados informais, o xitique é também praticado por empregados do sector formal em várias empresas e estabelecimentos que vêm nele uma forma de conseguir melhorar a qualidade da sua vida.
MAIS BARATO QUE OS SERVIÇOS FORMAIS
Mesmo reconhecendo a existência de riscos relacionados com a segurança da poupança, as nossas fontes reconhecem que o xitique tem, nalguns casos, vantagens comparativamente aos bancos comerciais e outras formas de acesso a recursos financeiros.
Afirmam que, por exemplo, se qualquer levantamento numa ATM dos bancos formais é cobrado, em muitos casos o levantamento da poupança no xitique é feita sem qualquer encargo.
Todavia, os grupos de xitique também “facilitam” a vida dos bancos que operam no sistema financeiro formal, particularmente os de micro-finanças como SOCREMO, PROCREDIT, e outros, que apercebendo-se das avultadas somas monetárias que circulam no sector informal vão abrindo agências junto dos mercados para recolher o dinheiro resultante da contribuição do xitique.
APOIAMOS NA CONSTRUÇÃO DE INFRA-ESTRUTURAS - AFIRMA RAMOS MARRENGULA, PRESIDENTE DA ASSOTSI
O PRESIDENTE da Associação dos Trabalhadores do Sector Informal (ASSOTSI), Ramos Marrengula, disse que a poupança resultante do xitique desempenha um papel fundamental na reabilitação das bancas existentes nos vários mercados espalhados pelo país.
“É verdade que começam a surgir, nos mercados, particularmente da cidade de Maputo, infra-estruturas criadas pelo Conselho Municipal. Isso é visível no que respeita às vedações. Mas se falarmos da reabilitação dos pavilhões no interior dos mercados, esse trabalho é feito pelo proprietário da banca, muitas vezes recorrendo ao dinheiro que poupou através do xitique”, disse Marrengula.
O presidente da ASSOTSI, afirmou também que o xitique tem sido a solução de muitos dos problemas pessoais dos membros da sua associação, como é o caso da falta de habitação.
“É através do xitique que o comerciante consegue pagar a energia, a água e fazer o rancho, bem como pagar as propinas para as crianças na escola. Mas tudo isso depende do volume de negócios que ele (comerciante) movimenta”, disse.
Questionado sobre o nível de contribuições de cada membro ao nível da ASSOTSI, Ramos Marrengula, disse que existem vários grupos diferenciados.
“Posso lhe assegurar que temos grupos de pessoas que contribuem com 1.000 meticais por dia; outros que conseguem 200, 300 ou mesmo 500 meticais por dia; mas também vamos encontrar pessoas que conseguem contribuir com 20 ou 30 meticais diários”, afirmou.
Ramos Marrengula, disse também que é difícil para os trabalhadores do sector informal recorrerem aos bancos para fazerem depósitos, porque normalmente “encerram por volta das 15 horas e às vezes”.
“Até essa hora o vendedor do mercado ainda não conseguiu fazer uma receita que justifique depositá-la no banco”, disse.
O presidente da ASSOTSI, falou também do relacionamento com as autoridades municipais e com o Banco Central, que nem sempre tem sido pacífico.
“Recordo-me de uma vez em que o Banco de Moçambique lançou uma circular em que dizia que o Xitique era ilegal e que os depósitos só poderiam ser feitas pelos bancos. Como resposta, aconselhamos o BM a estudar uma maneira de aproximar os bancos dos mercados informais”, disse.
Em relação às autoridades municipais de Maputo, não raras vezes, tem-se assistido ao recurso de métodos repressivos pela polícia para dispersar comerciantes informais dos locais em que estes tentam instalar os seus negócios. Tal acontece quando se verifica que os informais tentam realizar as suas actividades em áreas consideradas pelo município como não adequada para o desenvolvimento de determinado tipo de comércio.
Noutros casos, o município autoriza a realização de actividades a título provisório. Consequentemente não são autorizadas construções definitivas.
“Por exemplo, ficamos abalados quando fomos atacados pela Município no mercado de Xiquelene. “Reclamamos junto ao Conselho Municipal, mas acabamos compreendendo que são os desafios colocados pelo desenvolvimento do país. Às vezes trata-se de um conflito desnecessário porque como vendedores, já manifestamos o nosso desejo de reabilitar o mercado do Xiquelene, como nos nossos próprios recursos”, disse Ramos Marrengula.
Questionado sobre a fiabilidade do xitique e o risco de alguns membros não honrarem os seus compromissos na hora da contribuição, Ramos Marrengula, disse que “tivemos alguns problemas no início devido a pessoas de má fé”.
“Quando chegava o momento da contribuição, essas pessoas diziam que foram atacadas e despojadas do respectivo dinheiro, mas quando investigávamos víamos que tudo era mentira”, afirmou.
Para se inverter esse cenário, Marrengula, disse que a ASSOTSI, preferiu organizar grupos de xitique entre pessoas que desenvolvem as suas actividades no mesmo mercado.
“Recorremos à selecção de pessoas de confiança que fazem a recolha das contribuições em cada banca dos integrantes do xitique. Essas pessoas estão espalhadas por todos os mercados do país e, por isso, costumo dizer que é isso este modelo faz com sejamos bem sucedidos”, disse.
O presidente da ASSOTSI, falou também da importância cada vez crescente que os trabalhadores do sector informal vão tendo na economia nacional. Disse que, por exemplo, com o avanço tecnológico o número de desempregados que optam posteriormente pelo auto emprego tende a aumentar.
“A ASSOTSI rubricou recentemente um acordo com a Autoridade Tributária de Moçambique ao abrigo do qual nos comprometemos a mobilizar e sensibilizar os nossos membros para aderirem ao sistema tributário nacional, pois temos a consciência que só o Estado só poderá construir escolas, pontes e outras infra-estruturas que precisamos para melhorarmos o nosso nível de vida”, disse.
DINHEIRO É TAMBÉM DEPOSITADO NOS BANCOS – SEGUNDO CACILDA MULUNGO, COORDENADORA DA COMUTRA, NA CIDADE DE MAPUTO
O COMITÉ da Mulher Trabalhadora (COMUTRA), vocacionada para a defesa das mulheres que exercem a sua actividade no sector informal, desempenha um papel importante no xitique, dado que nos mercados, e não só, aquela forma de inter ajuda é praticada maioritariamente por gente do sexto feminino.
Encontramos a coordenadora do COMUTRA ao nível da Cidade de Maputo, Cacilda Mulungo, na sua barraca no mercado “Mandela Um”, a preparar refeições para vender. Questionada sobre o porquê dos vendedores do mercado não recorrerem à banca formal para efectuar o depósito da sua receita, Cacilda Mulungo, disse que o produto do xitique, geralmente, também é depositado nos bancos formais.
“Nem sempre que vendo um determinado produto tenho que correr para ir depositá-lo no banco, pois às vezes a minha receita diária é inferior a 100 meticais. Então, optamos por contratar uma pessoa de confiança para recolher o dinheiro em cada banca e velar pela sua conservação. No final do mês, essa pessoa recebe como gratificação o equivalente à contribuição de um dia de cada membro. Estes, por sua vez, depois de juntarem dinheiro considerável, é então que se deslocam aos bancos para depositar”, explicou.
Cacilda Mulungo, também realçou que para além de ser depositado nos bancos, o dinheiro proveniente do xitique serve para o pagamento de energia, água e comprar o rancho alimentar da família.
Questionada sobre como é que são resolvidos os casos de atraso ou de não pagamento, por parte de um membro, da sua contribuição, Cacilda Mulungo, disse que tudo depende da organização de cada grupo.
“Se uma pessoa não tem o dinheiro para contribuir nalgum momento, temos que ser tolerantes. Nem sempre o negócio pode correr bem, mas logo que a pessoa tiver dinheiro vem fazer a sua contribuição. Quem quer entrar para o xitique tem que ser solidário, paciente e corajoso”, disse.
A COMUTRA
Cacilda Mulungo, falou também do surgimento da COMUTRA, afirmando que se deveu da constatação, logo após a criação da ASSOTSI, que cerca de 90 por cento dos trabalhadores do sector informal é constituído por mulheres.
Disse que a COMUTRA está representada em todos os mercados da cidade e que além de promover a defesa dos interesses da mulher se encarrega de promover a criação de grupos de xitique.
“Por exemplo, aqui no mercado Mandela Um, existe uma célula da COMUTRA que tem organizado xitique. Pessoalmente, faço parte de um grupo denominado “Wamuntamu” (com força), onde diariamente entregamos um determinado valor à alguém da nossa confiança. Adicionalmente, cada membro, contribui com 100 meticais adicionais que servem para comprar iguarias que farão parte da festa da entrega do dinheiro poupado a determinado integrante do grupo. Isso acontece geralmente no final de semana”, disse.
Questionada sobre onde é que o dinheiro colectado é geralmente aplicado, a coordenadora da COMUTRA disse que “se trabalhamos é porque precisamos de alguma coisa. Estamos a lutar contra a pobreza”.
“Por exemplo, com o dinheiro do xitique consigo comprar uma chapa de cobertura de zinco para a minha banca se proteger da chuva. Se tiver algum problema relacionada com a deterioração das estacas, pintura, etc., na banca, esse dinheiro nos ajuda. É neste mercado onde trabalhamos e, por isso, temos a obrigação de velar por ele. Se o Governo permitisse que construíssemos barracas com material não precário, temos a certeza que faríamos isso recorrendo ao xitique”, afirmou.