Segunda, 08 Fevereiro 2010 07:59
Aliás, Moçambique, mesmo que não tenha os seus briosos Mambas na competição disputando o mais prestigiado troféu futebolístico, não deixará de constituir, por isso, um dos grandes atractivos desta festa do futebol, na medida em que tem um vasto potencial turístico para oferecer ao mundo. Para explorar melhor o que tem, aproveitando a visita das várias claques mundiais que virão para esta região do continente viver a Copa, o nosso país, através do Ministério do Turismo, está a trabalhar com vista a captar receitas com a vinda de milhares de turistas, para conhecerem o do bom e melhor que temos. É assim que o Instituto Nacional do Turismo (Inatur), sob tutela do Ministério do Turismo, está a trabalhar com o intuito de fazer com que pelo menos 45 mil dos 450 mil turistas que já tem passagem marcada para a África do Sul, sejam desviados e que escalem Moçambique para desfrutar da nossa vasta e rica paisagem. Para melhor entender o que está sendo feito com vista a termos esse número de turistas no país, antes, durante e depois do Mundial, entrevistamos Bernardo Dramos, Director Geral do Inatur que, em linhas gerais, deu a conhecer a movimentação que está a ser feita para que esse objectivo seja alcançado. Nesta conversa, o nosso interlocutor fala da evolução do Inatur como instituição, desde os tempos que era a Futur. Bernardo Dramos fala ainda da apresentação a partir de hoje, dia 8 de Fevereiro, no “National Geographics”, uma das mais prestigiadas estações televisivas do mundo, do filme sobre o Parque Nacional de Gorongosa o que, na sua óptica, irá ajudar o planeta a despertar sobre as potencialidades existentes no nosso território. De igual modo, o nosso entrevistado fala do projecto de construção de pequenas estâncias de acomodação nos distritos para superar o défice de quartos.
NOTÍCIAS (NOT) – Com o Campeonato do Mundo de Futebol a ter lugar na vizinha África do Sul, o Governo definiu algumas prioridades com vista a explorar melhor a componente turística deste evento do lado moçambicano. Até aqui o que já foi feito ou que se espera colher com a realização desta competição?
BERNARDO DRAMOS (BD) – O Governo, particularmente o Ministério do Turismo criou um Gabinete Multisectorial que envolve Juventude e Desportos e outros sectores interessados, para promover ou aproveitar o lado turístico que o Campeonato do Mundo de Futebol irá proporcionar. O nosso país é turístico por excelência, por isso tudo estamos a fazer para que algumas claques ou amantes do futebol que pretendam escalar a África do Sul, escalem também Moçambique. A África do Sul estima que vai receber cerca de 450.000 turistas e Moçambique definiu como meta desejável, captar dez por cento desse universo. Estamos a falar de 45 mil turistas.
NOT – Este número não é elevado para aquilo que são as nossas reais capacidades de resposta?
BD - A esta altura, este número é, de alguma forma, bastante elevado. Para alcançarmos qualquer objectivo traçado, seja ele grandioso e logo à partida tido como difícil, é preciso trabalhar e mostrar ambição. Portanto, temos que continuar a mostrar ambição e encontrar espaço para os acomodar. Os 45 mil turistas de que estamos a falar escalarão o nosso país antes, durante e depois do Mundial. As informações que temos dos operadores turísticos são de que na altura da realização da copa, os hotéis, sobretudo os de Maputo, estarão lotados. Já há reservas feitas para os meses da prova. Neste momento, começa a ser difícil ter reservas de acomodação na capital do país e arredores para esse período do ano, o que significa que já há sinais de que estamos na eminência de alcançar o número definido como tecto de visitas. Se não chegarmos aos 45 mil turistas, se formos a computar as pessoas que virão antes, durante e depois do mundial, de facto, teremos uma afluência significativa de turistas que nos orgulhará de termos conseguido alcançar uma parte dos nossos objectivos.
NOT – Que volume de receitas se espera obter com a vinda desse grupo de turistas?
BD – É me difícil neste momento dizer quanto é que esperamos arrecadar. Mas posso dizer que em média esperámos que os turistas que cá vierem no mínimo deverão gastar entre 150 a 200 dólares por dia, só em compras. Este grupo será daqueles turistas que tem a sua “base” na RSA e cá apenas virão passear e conhecer o nosso país por um curto espaço de tempo e que no final deverão gastar até 1 500 dólares. Agora, temos outro grupo de turistas que provavelmente terá a sua base no país. Sairão daqui para assistir aos jogos na África do Sul e voltar para se acomodarem. Esperamos que estes contribuam com um maior volume de receita.
NOT – Quais são as principais estratégias que estão a ser usadas para a promoção de Moçambique como verdadeiro e sério destino turístico?
BD - Há uma estratégia genérica que adoptamos, que é reconhecer que o país ainda não está estruturado de forma a criar uma promoção individualizada como destino turístico. Trabalhamos no sentido de consolidar os produtos que temos. Enquanto vendemos o destino “país-Moçambique”, para torná-lo suficientemente maduro, conhecido, no meio do processo vamos continuar a oferecer produtos específicos. Quero com isto dizer que estrategicamente teríamos pouco sucesso em “vender”, por exemplo, uma província específica como um destino turístico, do que o país no seu todo. É aqui onde estamos a colher resultados bastantes positivos, “vendendo” o país, como um destino. Dentro dos destinos turísticos começamos por vender os diferentes produtos, como são os casos do arquipélago das Quirimbas, numa primeira fase, não como destino, mas como um produto de “destino-Moçambique”. “Vender” a cidade de Maputo como um produto do destino turístico. Neste momento estamos a trabalhar dessa forma e isso está a surtir os efeitos desejados. É com estas acções, com a apresentação destes destinos que as pessoas começam a ter noção de que Moçambique tem algo diversificado a oferecer.
NOT – E que estratégia de marketing tem sido realizada em relação as nossa praias?
BD – Esse é um factor importante. Por exemplo, neste momento oferecemos dentro do “destino-Mocambique” um produto chamado “SSS” - Sea/Sun/Sand - que é o turismo de praia, mas ao mesmo tempo oferecemos produtos eco-turísticos, refiro-me aos parques, reservas. Temos um produto importante que já está a constituir-se numa marca, que é o Parque Nacional da Gorongosa, assim como os de Limpopo, Banhine e a Reserva do Niassa. Estes produtos podem já começar a ser identificados de forma separada do destino macro. Haverá momentos em que as pessoas poderão viajar para Moçambique, mas que o seu destino, de facto, seja o Parque Nacional da Gorongosa. Mas, numa primeira fase, é importante utilizar os produtos, mesmo que sejam auto-suficientemente atractivos. Se “vendemos” o país e as pessoas souberem que estão a visitar Gorongosa, em Moçambique, no dia em que nós oferecermos Banhine, a pessoa facilmente vai comprar porque sabe que Moçambique, do ponto de vista turístico, tem bom eco-turismo. Por outro lado, começamos a ter alguns produtos importantes de serem auto-vendíveis, como por exemplo, o arquipélago das Quirimbas, e a Baía de Pemba, do ponto de vista de sol, para além de Gorongosa, do ponto de vista eco-turístico. A província de Tete, que tanto cresce do ponto de vista económico devido aos investimentos que estão a ter lugar, oferece-nos, turisticamente, a Albufeira do Rio Zambeze, a barragem de Cahora Bassa, que já começa a constituir-se em pólos turísticos independentes, o que é muito bom. É aqui onde queremos chegar, “vender” o país e começar a criar condições de crescimento de alguns produtos específicos que, por sua vez, vão continuar a constituir uma atracção para suportar novos projectos.
PRINCIPAIS MOTIVAÇOES
NOT – Em termos turísticos, o quê que distingue Moçambique de outros países da região, ou seja, o que motiva um suíço ou alemão a escalar o nosso país e não um outro ponto da região?
BD - Há uma abordagem que deve ser feita em duas perspectivas; uma é aquilo que Moçambique tem de Natureza. Moçambique detêm, do ponto de vista turístico, potencialidades que muito poucos países do mundo têm. Isto é uma perspectiv de análise que podemos aprofundar. A outra abordagem é o esforço que o Governo tem feito tanto ao nível público, como privado, incentivando o sector privado no sentido de criar infra-estruturas de qualidade para constituírem uma atracção e criar o nome de Moçambique. Temos que pegar nestes dois aspectos se quisermos fazer qualquer comparação com países da região. A primeira abordagem é que em Moçambique existem todas as condições para fazer qualquer tipo de turismo menos esquiar na neve. Poucos países do mundo têm os atributos que Moçambique possui. Nós temos selva e com vida selvagem. Temos mar, um vasto universo aquático constituído por rios e lagos. Temos sol durante todo o ano. Somos um dos poucos países do mundo em que um indivíduo pode estar numa das praias belas, com corais de qualidade mundial. Um indivíduo está numa praia e em menos de meia hora depois pode ver elefantes, como também pode ver o universo subaquático dos mais prestigiados do mundo. Temos montanhas, serras e todas as condições naturais para que possamos ter turismo de sol e praia, turismo de aventura, de escala de montanha e de pesca desportiva. Moçambique tem províncias que cujas temperaturas no Inverno descem até aos 15 graus, como tem províncias que no verão as temperaturas chegam a atingir os 45 graus. Está é uma vantagem competitiva real que o país detém para competir com qualquer outro país do mundo em matéria de potencial turístico. Há uma outra abordagem que deve ser feita que é a conversão destas potencialidades todas em produtos que possam ser consumidos. Está é a outra parte do desafio e o Governo está a trabalhar na criação de infra-estruturas tanto do ponto de vista de vias de acesso, expansão da energia eléctrica, acesso a água nos mais diversos pontos do país para que estes locais que constituem pólos estratégicos do desenvolvimento do turismo. Em relação aos países a que se referiu, é importante fazer a seguinte análise: olhar para os nossos pontos fortes e os nossos desafios. Para cada país com o qual nos queremos comparar, temos que ver o que é que esse país detêm que nós não temos e vice-versa. Por exemplo, alguns dos países da região não têm uma costa tão longa como a nossa, de areias brancas, mata virgem, dunas de areias, águas quentes do Oceano Índico, como nós temos. É um facto de diferenciação; o que temos que fazer é trabalhar no sentido de que isso constitua um factor de diferenciação claro e uma vantagem competitiva. Alguns desses países não têm florestas de mata virgem como Moçambique, sobretudo no centro e norte. Temos um país longo, que faz fronteiras com muitos outros e alguns desses para terem acesso ao mar precisam de passar por Moçambique. Isto para dizer que o mais importante factor de diferenciação é aquilo que estamos a fazer tanto do ponto de vista de promoção de destino como sobretudo de promoção de investimento para a criação de infra-estruturas (instâncias turísticas).
NOT - Mencionou uma série de atractivos, mas que são postos em causa pelos operadores turísticos quando olham para aquilo que tem sido a actuação da Polícia, acusados de importunar sistematicamente os turistas. Quer comentar?
BD - Bom, é preciso compreender que, muitas vezes, a atitude da Polícia é legal mas ela é mal compreendida. Nós temos que estar claros que para impor a ordem tanto do ponto de vista das vias de trânsito como de segurança rodoviária, precisamos destes agentes. É verdade que no exercício das suas actividades alguns erros acabam sendo registados, e outros ainda facilitados pelos cidadãos. Seja como fôr, há melhorias na forma como os agentes lidam com os turistas, em particular, e com o público, em geral. Isso é fruto de um trabalho que o Governo tem vindo a fazer; ao constituir um comité multisectorial para tratar estes assuntos no sentido de melhorar aquilo que é a actividade do pessoal das Alfândegas, da Migração, e da Polícia de Trânsito. É importante referir que essas queixas não se limitam só aos turistas. Temos que trabalhar todos para superar os erros e fazer do nosso país o mais seguro possível. Se tivermos segurança, teremos tranquilidade.
NOT - Mas como é que se explica que um cruzeiro que atraca no Porto de Maputo, com três mil pessoas, apenas desembarquem 700 pessoas e as restantes permaneçam lá dentro receando questões de segurança?
BD - Está a colocar uma questão importante, mas ao mesmo tempo delicada. Já nos apercebemos desse facto, tanto é que fizémos uma visita ao Cruzeiro, numa das vezes que cá esteve, em finais de Novembro e princípio de Dezembro de 2009. Visitámo-lo que era para nos inteirarmos do seu funcionamento e as possíveis inquietações que a tripulação tinha, por forma a encontrarmos uma saída. Efectivamente, foram levantadas questões relacionadas com a segurança. O Comandante do Cruzeiro se referiu ao facto de, apesar da segurança da cidade de Maputo ter melhorado significativamente, as pessoas tinham receio de que a cidade ainda não oferecia essas garantias. Pior ainda porque as pessoas eram aos milhares, razão pela qual aumentava ainda mais o receio. O comandante disse-nos ter recomendado aos que desceram para que tivessem muito cuidado com os seus bens e que não deviam levar muito dinheiro em mão. É um desafio real mas estamos a trabalhar para fazer perceber que Maputo é uma cidade segura e que os ocupantes do Cruzeiro podem desembarcar, conhecê-la, usufruírem da sua gastronomia durante o tempo de estadia e inclusive levar algumas lembranças. Os visitantes têm que perceber que as coisas estão a melhorar. O que eles conheciam antes de Maputo, agora está mudado e para melhor. Mas se formos a analisar, das vezes que os cruzeiros cá estiveram, nunca nos foi reportado um único caso de assalto a um turista, o que mostra que temos segurança.
FILME SOBRE GORONGOSA APRESENTADO HOJE AO MUNDO
NOT - Fez menção a dois tipos de turismo, um de lazer e outro de negócios. Qual destes reflecte a nossa realidade?
BD - Neste momento há uma tendência clara de predominância do turismo de negócio. O que está a acontecer efectivamente é que Moçambique, por estar a viver uma verdadeira paz, com segurança a altura e em franco crescimento, consegue constituir-se num elemento de atracção de interesses de negócios, de investimentos e outro tipo de actividades, como conferências, seminários de natureza empresarial, político e religioso. Por estes factores, grande parte das pessoas se desloca ao nosso país com missão de desempenhar alguma actividade que não seja somente de puro lazer. É por isso que, se formos a observar, vamos constatar que na cidade de Maputo e arredores, até este momento constitui o grande pólo de recebimento de turistas. Acontece que estas pessoas, cada vez que cá chegam, descobrem que Moçambique tem muito mais a oferecer do que simplesmente ser um ponto de atracção por causa da sua estabilidade política, seu crescimento económico ou por ser seguro. Então, quando vem pela segunda ou terceira vez, a tendência é trazer a família. Enquanto está a participar numa conferência tem a família a usufruir do bom e do melhor que temos. E muitos destes, trazendo ou não família, passado um ou dois dias da conferência, normalmente viajam com dois ou três dias extras que é para conhecer melhor o nosso país. Até aqui Maputo ainda é o pólo de atracção que pode oferecer mais do que uma atracção turística ao mesmo tempo. Na cidade de Maputo temos uma cadeia de restauração e pode-se usufruir de um turismo gastronómico ao longo dos dias, bastante diversificado, Maputo tem uma vida nocturna vibrante, salas de jogos, discotecas, cadeia de bares. Está é a razão que faz com que predomine o movimento turístico com pendência para o negócio. É importante reconhecer que está em franco crescimento o turismo de lazer, um turismo de lazer que se nota tanto na cidade como na província de Maputo, como se estende também a outros destinos fora da capital do país. Por exemplo, temos destinos como Vilankulo, Závora, Ponta de Ouro, Bilene e Pemba, que começam a ser muito procurados. A maior parte das pessoas que vai para lá não vai com motivação de negócios, mas cria espaços de lazer, como a nossa grande costa que é constituída por grandes ilhas que são destinos paradisíacos, ilhas tropicais, onde as pessoas vão para usufruir de um turismo de lazer.
NOT – Recentemente foi lançado um filme sobre o Parque Nacional de Gorongosa. Qual é o impacto que se espera com relação a aquilo que são os objectivos turísticos e mobilização de mais turistas para o país?
BD - A nossa expectativa é que o filme venha efectivamente reavivar aquilo que já foi o Parque Nacional da Gorongosa. O Parque há muito tempo foi conhecido e admirado mundialmente. Em determinados momentos históricos do país ficou, de algum modo, esquecido. O filme vem torná-lo conhecido para aqueles que não o conheciam, mas também vem refrescar a memória daqueles que já o conheciam. Nas várias ocasiões que nós tivemos de expor o filme tanto em Maputo, como em Lisboa (tivemos um lançamento para a comunicação social e outro durante a Feira da Bolsa de Turismo de Lisboa), foi de uma aceitação extraordinária, isso mostra que Gorongosa tem prestigio e mantém a admiração que as pessoas sempre tiveram por ele. Houve gente que conhecia o Parque, e que se entusiasmou ao ver que o Parque da Gorongosa ainda existe, e que tinha animais e a ser bem gerido. Houve uma admiração muito grande em perceber que o Governo de Moçambique tomou uma acção clara no sentido de tornar o Parque da Gorongosa tão importante quanto o era. Se for a observar as várias publicações que ocorreram na imprensa portuguesa, foi alguma coisa fora do comum. À partir de hoje (8 de Fevereiro) o filme passa a ser publicitado para o mundo pelo Canal de Televisão National Geographics. Isso vai ter um alcance ainda maior. O Parque da Gorongosa é um lugar fabuloso, um lugar místico. Acredito que quando começar a passar no National Geographics a reacção do mundo será algo espectacular.
CRÉDITO EXISTE DAI QUE : APOSTA É CONSTRUIR ESTÂNCIAS NOS DISTRITOS
NOT – Sabe-se que o INATUR tem uma linha de crédito para os demais empresários do sector. Como é que está a ser gerido esse dinheiro, uma vez que há informações de certas reclamações tanto dos beneficiários, como da instituição?
BD - Como dizia antes, umas das actividades do Inatur é de fomentar o surgimento e o envolvimento do empresariado nacional no sector de turismo. Sabemos que grande parte dos moçambicanos têm ideias, iniciativas, vontade e espaços com um potencial turístico muito importante, mas não têm capital para arrancar. Então, nós constituímos três linhas de crédito, uma descentralizada e duas centralizadas. Temos uma linha de crédito que vai até 50 mil meticais. Trabalhamos com as direcções provinciais para que possam ceder este crédito para operadores turísticos, grande parte deles na parte de acomodação de pequena dimensão e sobretudo de restauração e que precisam renovar a loiça. Temos as linhas centralizadas, uma é gerida directamente pelo instituto e a outra pelo instituto e BCI. A linha que é gerida directamente pelo INATUR é uma que vai até 500 mil meticais. É uma linha para os pequenos operadores turísticos que estejam situados em alguns distritos, ou em áreas com potencial turístico e que queiram contribuir na capacidade de acomodação. São pessoas que pedem 500 mil para construir uma estância turística para acomodação com quatro quartos, recepção, um pequeno restaurante. É uma linha de crédito humilde mas que a sua massificação ajuda a aumentar, de forma significativa, o número de camas e de quartos para efeitos de acomodação. São seleccionáveis nacionais com espaço e que querem se dedicar à actividade turística e que tem preferencialmente um projecto desta natureza. Por compreendermos que algumas pessoas tinham ideias sem projectos desenhado, dentro da nossa área de apoio empresarial, damos crédito e assessoria técnica a esses projectos. Quer dizer que, se um indivíduo quer investir nesta área mas não sabe desenhar o projecto, cedemos o empréstimo e a custos baixos, só para manter a linha operacional, vendemos essa consultoria para essa pessoa, damos a devida assistência, treinamos e formamos a pessoa sobre como executar o projecto. A terceira linha, aquela em que trabalhamos com o BCI, entendemos que a uma dada altura, um valor de 500 mil meticais era bastante baixo para alguns operadores que queriam entrar num negócio com uma dimensão um pouco maior ou que queriam fazer uns investimentos maiores, mais arrojados ou que já tem os seus investimentos, mas que pretendem tornar os seus investimentos muito maiores. Então, estabelecemos uma linha na qual contribuímos com 50 porcento e o banco entra com outros 50. A nossa comparticipação é para garantir que aquela linha de crédito não tenha os níveis de juros comerciais da banca, mantemos um nível de juro baixo para tornar as linhas mais acessíveis. Esta linha é de um valor bastante mais significativo e vai até cerca de 75 mil dólares norte-americanos. Simplesmente os interessados têm que satisfazer as condições, os requisitos que estão estabelecidos na linha de concessão de crédito. As condições é que o projecto seja viável, a pessoa seja credível e tenha uma carteira limpa do ponto de vista da banca, não seja um devedor incorrigível e que possa oferecer garantias. No caso da linha de crédito centralizada do INATUR, basta a idoneidade da pessoa e as outras condições gerais. Nós damos dinheiro, as pessoas investem, começam a produzir dinheiro, pagam as prestações, estes valores das prestações constituem outras fontes de financiamentos para outras pessoas com projectos turísticos. Quando as pessoas não pagam criam um constrangimento sério porque limita a capacidade de financiamento para novas pessoas interessadas.
NOT – Qual é o volume do crédito malparado?
BD - Temos muitas situações de crédito malparado. A esta altura, na nossa carteira de clientes temos cerca de 45 porcento de crédito totalmente malparado. É um valor muito alto. O que aconteceu é que as pessoas geriram mal o projecto. Em vez de construir quatro quartos previstos no projecto, decidiram construir oito e acabaram não terminando o projecto. Por causa disso o projecto não pode ser operacionalizado e o resultado é que não podem ter recursos para pagar ou, em algum momento, incorreram em desvios de aplicação. Temos 45 porcento de crédito malparado; 20 por cento dessa cifra são pessoas que pagam uma vez a outra e os outros simplesmente não honram com os seus compromissos. Como se pode ver, isto constitui um constrangimento sério à nossa capacidade de continuar a alimentar os vários pedidos que temos.
PROJECTO ARCO NORTE DINAMIZARÁ O TURISMO
NOT - O Conselho de Ministros aprovou o chamado projecto “Arco Norte”. O que já foi feito até este momento para atrair potenciais investidores para os projectos âncoras e para o “Arco Norte”?
BD - Várias coisas foram feitas e continuamos a trabalhar. Em relação ao “Arco Norte” já há vários investidores que, tendo sido contactados directa ou indirectamente ou por via das publicações que estão a ocorrer ou por via da exposição do projecto em várias conferências e seminários de investidores em que participamos e nas feiras de turismo mundial, muitos mostraram interesse e outros inclusive que já têm projectos e estão apenas à espera do plano director. Já foi feito algum trabalho e continuamos a trabalhar na divulgação do instrumento junto da sociedade e dos governos provinciais e distritais. Temos neste momento investidores que tem recursos financeiros e projectos e, como estamos interessados que eles invistam, estamos a fazer de tudo para reter esse investimento. Não queremos perdê-los. Então, logo que o plano director estiver finalizado e aprovado, o nível de publicação das oportunidades, que são enormes, vai ser muito mais massificado.
NOT - E quando é que teremos o plano-director?
BD - A nossa previsão é que nos próximos três meses tenhamos o plano-director; é um projecto delicado, muito sensível, envolve aspectos urbanísticos, planeamento territorial, impacto ambiental, convívio com as comunidades. Mas se for por mais algum tempo, acredito que neste ano, e ainda neste semestre, de certeza absoluta teremos o projecto-piloto aprovado.
A EVOLUÇÃO DO INATUR
O INATUR vem de um processo evolutivo, daquilo que era o Fundo de Turismo (FUTUR), sob tutela do Ministério do Turismo. O FUTUR tinha, dentro do seu âmbito de operação, algumas actividades importantes que eram, particularmente, promover o país como um destino turístico e também fomentar o empreendedorismo no seio dos moçambicanos, criar condições para muitos ingressarem no sector do turismo, exercendo actividades empresariais, bem como dando oportunidade de crescimento do sector, criando emprego e massificar a presença de estâncias e actividades turísticas nos mais diversos cantos do país. Após todo um processo de crescimento que o sector observou, depois de cerca de dez anos, o Governo percebeu que já havia se atingido um certo nível de crescimento nas várias actividades que eram desenvolvidas pelo FUTUR, particularmente nestas duas componentes, daí que havia necessidade de se encontrar um outro organismo que tivesse uma capacidade e amplitude de alargar o seu raio de acção. Foi assim que o Governo decide criar um instituto, no lugar de um fundo. É nessa perspectiva que é criado o INATUR, que passou a englobar a promoção do país como destino turístico e o incentivo ao pequeno e médio empresariado para ingressar no sector de turismo.
Neste momento, temos o INATUR a operar nas áreas de promoção de investimento no sector do turismo, a exercer uma função que era do ministério, que é o processo de classificação e reclassificação de estâncias hoteleiras. O INATUR faz ainda a gestão do património turístico do Estado e exerce as actividades de formação, através de instâncias próprias, como o Hotel Escola Andalucia, instituições do Estado que estão vocacionadas à formação de profissionais do sector. A missão do Inatur é, essencialmente, traduzir aquilo que são as políticas e os objectivos do Governo, a nível central, para o sector do turismo. Constitui o elo de ligação principal entre o Governo central e os operadores turísticos, tendo ainda a missão de promover o crescimento acelerado do sector do Turismo, promovendo a compreensão e a tradução dos objectivos das políticas para aspectos realizáveis, fazer com que o sector privado compreenda, com maior facilidade, aquilo que são as políticas. Para além de ser um órgão de fomento, é também um órgão que exerce a actividade turística.
O INATUR não só faz a gestão de estâncias turísticas existentes, assim como é um factor de promoção e aceleração do crescimento do sector, com a responsabilidade de ser o ponto de partida para o fomento e criação de novas estâncias turísticas.
NOTÍCIAS (NOT) – Com o Campeonato do Mundo de Futebol a ter lugar na vizinha África do Sul, o Governo definiu algumas prioridades com vista a explorar melhor a componente turística deste evento do lado moçambicano. Até aqui o que já foi feito ou que se espera colher com a realização desta competição?
BERNARDO DRAMOS (BD) – O Governo, particularmente o Ministério do Turismo criou um Gabinete Multisectorial que envolve Juventude e Desportos e outros sectores interessados, para promover ou aproveitar o lado turístico que o Campeonato do Mundo de Futebol irá proporcionar. O nosso país é turístico por excelência, por isso tudo estamos a fazer para que algumas claques ou amantes do futebol que pretendam escalar a África do Sul, escalem também Moçambique. A África do Sul estima que vai receber cerca de 450.000 turistas e Moçambique definiu como meta desejável, captar dez por cento desse universo. Estamos a falar de 45 mil turistas.
NOT – Este número não é elevado para aquilo que são as nossas reais capacidades de resposta?
BD - A esta altura, este número é, de alguma forma, bastante elevado. Para alcançarmos qualquer objectivo traçado, seja ele grandioso e logo à partida tido como difícil, é preciso trabalhar e mostrar ambição. Portanto, temos que continuar a mostrar ambição e encontrar espaço para os acomodar. Os 45 mil turistas de que estamos a falar escalarão o nosso país antes, durante e depois do Mundial. As informações que temos dos operadores turísticos são de que na altura da realização da copa, os hotéis, sobretudo os de Maputo, estarão lotados. Já há reservas feitas para os meses da prova. Neste momento, começa a ser difícil ter reservas de acomodação na capital do país e arredores para esse período do ano, o que significa que já há sinais de que estamos na eminência de alcançar o número definido como tecto de visitas. Se não chegarmos aos 45 mil turistas, se formos a computar as pessoas que virão antes, durante e depois do mundial, de facto, teremos uma afluência significativa de turistas que nos orgulhará de termos conseguido alcançar uma parte dos nossos objectivos.
NOT – Que volume de receitas se espera obter com a vinda desse grupo de turistas?
BD – É me difícil neste momento dizer quanto é que esperamos arrecadar. Mas posso dizer que em média esperámos que os turistas que cá vierem no mínimo deverão gastar entre 150 a 200 dólares por dia, só em compras. Este grupo será daqueles turistas que tem a sua “base” na RSA e cá apenas virão passear e conhecer o nosso país por um curto espaço de tempo e que no final deverão gastar até 1 500 dólares. Agora, temos outro grupo de turistas que provavelmente terá a sua base no país. Sairão daqui para assistir aos jogos na África do Sul e voltar para se acomodarem. Esperamos que estes contribuam com um maior volume de receita.
NOT – Quais são as principais estratégias que estão a ser usadas para a promoção de Moçambique como verdadeiro e sério destino turístico?
BD - Há uma estratégia genérica que adoptamos, que é reconhecer que o país ainda não está estruturado de forma a criar uma promoção individualizada como destino turístico. Trabalhamos no sentido de consolidar os produtos que temos. Enquanto vendemos o destino “país-Moçambique”, para torná-lo suficientemente maduro, conhecido, no meio do processo vamos continuar a oferecer produtos específicos. Quero com isto dizer que estrategicamente teríamos pouco sucesso em “vender”, por exemplo, uma província específica como um destino turístico, do que o país no seu todo. É aqui onde estamos a colher resultados bastantes positivos, “vendendo” o país, como um destino. Dentro dos destinos turísticos começamos por vender os diferentes produtos, como são os casos do arquipélago das Quirimbas, numa primeira fase, não como destino, mas como um produto de “destino-Moçambique”. “Vender” a cidade de Maputo como um produto do destino turístico. Neste momento estamos a trabalhar dessa forma e isso está a surtir os efeitos desejados. É com estas acções, com a apresentação destes destinos que as pessoas começam a ter noção de que Moçambique tem algo diversificado a oferecer.
NOT – E que estratégia de marketing tem sido realizada em relação as nossa praias?
BD – Esse é um factor importante. Por exemplo, neste momento oferecemos dentro do “destino-Mocambique” um produto chamado “SSS” - Sea/Sun/Sand - que é o turismo de praia, mas ao mesmo tempo oferecemos produtos eco-turísticos, refiro-me aos parques, reservas. Temos um produto importante que já está a constituir-se numa marca, que é o Parque Nacional da Gorongosa, assim como os de Limpopo, Banhine e a Reserva do Niassa. Estes produtos podem já começar a ser identificados de forma separada do destino macro. Haverá momentos em que as pessoas poderão viajar para Moçambique, mas que o seu destino, de facto, seja o Parque Nacional da Gorongosa. Mas, numa primeira fase, é importante utilizar os produtos, mesmo que sejam auto-suficientemente atractivos. Se “vendemos” o país e as pessoas souberem que estão a visitar Gorongosa, em Moçambique, no dia em que nós oferecermos Banhine, a pessoa facilmente vai comprar porque sabe que Moçambique, do ponto de vista turístico, tem bom eco-turismo. Por outro lado, começamos a ter alguns produtos importantes de serem auto-vendíveis, como por exemplo, o arquipélago das Quirimbas, e a Baía de Pemba, do ponto de vista de sol, para além de Gorongosa, do ponto de vista eco-turístico. A província de Tete, que tanto cresce do ponto de vista económico devido aos investimentos que estão a ter lugar, oferece-nos, turisticamente, a Albufeira do Rio Zambeze, a barragem de Cahora Bassa, que já começa a constituir-se em pólos turísticos independentes, o que é muito bom. É aqui onde queremos chegar, “vender” o país e começar a criar condições de crescimento de alguns produtos específicos que, por sua vez, vão continuar a constituir uma atracção para suportar novos projectos.
PRINCIPAIS MOTIVAÇOES
NOT – Em termos turísticos, o quê que distingue Moçambique de outros países da região, ou seja, o que motiva um suíço ou alemão a escalar o nosso país e não um outro ponto da região?
BD - Há uma abordagem que deve ser feita em duas perspectivas; uma é aquilo que Moçambique tem de Natureza. Moçambique detêm, do ponto de vista turístico, potencialidades que muito poucos países do mundo têm. Isto é uma perspectiv de análise que podemos aprofundar. A outra abordagem é o esforço que o Governo tem feito tanto ao nível público, como privado, incentivando o sector privado no sentido de criar infra-estruturas de qualidade para constituírem uma atracção e criar o nome de Moçambique. Temos que pegar nestes dois aspectos se quisermos fazer qualquer comparação com países da região. A primeira abordagem é que em Moçambique existem todas as condições para fazer qualquer tipo de turismo menos esquiar na neve. Poucos países do mundo têm os atributos que Moçambique possui. Nós temos selva e com vida selvagem. Temos mar, um vasto universo aquático constituído por rios e lagos. Temos sol durante todo o ano. Somos um dos poucos países do mundo em que um indivíduo pode estar numa das praias belas, com corais de qualidade mundial. Um indivíduo está numa praia e em menos de meia hora depois pode ver elefantes, como também pode ver o universo subaquático dos mais prestigiados do mundo. Temos montanhas, serras e todas as condições naturais para que possamos ter turismo de sol e praia, turismo de aventura, de escala de montanha e de pesca desportiva. Moçambique tem províncias que cujas temperaturas no Inverno descem até aos 15 graus, como tem províncias que no verão as temperaturas chegam a atingir os 45 graus. Está é uma vantagem competitiva real que o país detém para competir com qualquer outro país do mundo em matéria de potencial turístico. Há uma outra abordagem que deve ser feita que é a conversão destas potencialidades todas em produtos que possam ser consumidos. Está é a outra parte do desafio e o Governo está a trabalhar na criação de infra-estruturas tanto do ponto de vista de vias de acesso, expansão da energia eléctrica, acesso a água nos mais diversos pontos do país para que estes locais que constituem pólos estratégicos do desenvolvimento do turismo. Em relação aos países a que se referiu, é importante fazer a seguinte análise: olhar para os nossos pontos fortes e os nossos desafios. Para cada país com o qual nos queremos comparar, temos que ver o que é que esse país detêm que nós não temos e vice-versa. Por exemplo, alguns dos países da região não têm uma costa tão longa como a nossa, de areias brancas, mata virgem, dunas de areias, águas quentes do Oceano Índico, como nós temos. É um facto de diferenciação; o que temos que fazer é trabalhar no sentido de que isso constitua um factor de diferenciação claro e uma vantagem competitiva. Alguns desses países não têm florestas de mata virgem como Moçambique, sobretudo no centro e norte. Temos um país longo, que faz fronteiras com muitos outros e alguns desses para terem acesso ao mar precisam de passar por Moçambique. Isto para dizer que o mais importante factor de diferenciação é aquilo que estamos a fazer tanto do ponto de vista de promoção de destino como sobretudo de promoção de investimento para a criação de infra-estruturas (instâncias turísticas).
NOT - Mencionou uma série de atractivos, mas que são postos em causa pelos operadores turísticos quando olham para aquilo que tem sido a actuação da Polícia, acusados de importunar sistematicamente os turistas. Quer comentar?
BD - Bom, é preciso compreender que, muitas vezes, a atitude da Polícia é legal mas ela é mal compreendida. Nós temos que estar claros que para impor a ordem tanto do ponto de vista das vias de trânsito como de segurança rodoviária, precisamos destes agentes. É verdade que no exercício das suas actividades alguns erros acabam sendo registados, e outros ainda facilitados pelos cidadãos. Seja como fôr, há melhorias na forma como os agentes lidam com os turistas, em particular, e com o público, em geral. Isso é fruto de um trabalho que o Governo tem vindo a fazer; ao constituir um comité multisectorial para tratar estes assuntos no sentido de melhorar aquilo que é a actividade do pessoal das Alfândegas, da Migração, e da Polícia de Trânsito. É importante referir que essas queixas não se limitam só aos turistas. Temos que trabalhar todos para superar os erros e fazer do nosso país o mais seguro possível. Se tivermos segurança, teremos tranquilidade.
NOT - Mas como é que se explica que um cruzeiro que atraca no Porto de Maputo, com três mil pessoas, apenas desembarquem 700 pessoas e as restantes permaneçam lá dentro receando questões de segurança?
BD - Está a colocar uma questão importante, mas ao mesmo tempo delicada. Já nos apercebemos desse facto, tanto é que fizémos uma visita ao Cruzeiro, numa das vezes que cá esteve, em finais de Novembro e princípio de Dezembro de 2009. Visitámo-lo que era para nos inteirarmos do seu funcionamento e as possíveis inquietações que a tripulação tinha, por forma a encontrarmos uma saída. Efectivamente, foram levantadas questões relacionadas com a segurança. O Comandante do Cruzeiro se referiu ao facto de, apesar da segurança da cidade de Maputo ter melhorado significativamente, as pessoas tinham receio de que a cidade ainda não oferecia essas garantias. Pior ainda porque as pessoas eram aos milhares, razão pela qual aumentava ainda mais o receio. O comandante disse-nos ter recomendado aos que desceram para que tivessem muito cuidado com os seus bens e que não deviam levar muito dinheiro em mão. É um desafio real mas estamos a trabalhar para fazer perceber que Maputo é uma cidade segura e que os ocupantes do Cruzeiro podem desembarcar, conhecê-la, usufruírem da sua gastronomia durante o tempo de estadia e inclusive levar algumas lembranças. Os visitantes têm que perceber que as coisas estão a melhorar. O que eles conheciam antes de Maputo, agora está mudado e para melhor. Mas se formos a analisar, das vezes que os cruzeiros cá estiveram, nunca nos foi reportado um único caso de assalto a um turista, o que mostra que temos segurança.
FILME SOBRE GORONGOSA APRESENTADO HOJE AO MUNDO
NOT - Fez menção a dois tipos de turismo, um de lazer e outro de negócios. Qual destes reflecte a nossa realidade?
BD - Neste momento há uma tendência clara de predominância do turismo de negócio. O que está a acontecer efectivamente é que Moçambique, por estar a viver uma verdadeira paz, com segurança a altura e em franco crescimento, consegue constituir-se num elemento de atracção de interesses de negócios, de investimentos e outro tipo de actividades, como conferências, seminários de natureza empresarial, político e religioso. Por estes factores, grande parte das pessoas se desloca ao nosso país com missão de desempenhar alguma actividade que não seja somente de puro lazer. É por isso que, se formos a observar, vamos constatar que na cidade de Maputo e arredores, até este momento constitui o grande pólo de recebimento de turistas. Acontece que estas pessoas, cada vez que cá chegam, descobrem que Moçambique tem muito mais a oferecer do que simplesmente ser um ponto de atracção por causa da sua estabilidade política, seu crescimento económico ou por ser seguro. Então, quando vem pela segunda ou terceira vez, a tendência é trazer a família. Enquanto está a participar numa conferência tem a família a usufruir do bom e do melhor que temos. E muitos destes, trazendo ou não família, passado um ou dois dias da conferência, normalmente viajam com dois ou três dias extras que é para conhecer melhor o nosso país. Até aqui Maputo ainda é o pólo de atracção que pode oferecer mais do que uma atracção turística ao mesmo tempo. Na cidade de Maputo temos uma cadeia de restauração e pode-se usufruir de um turismo gastronómico ao longo dos dias, bastante diversificado, Maputo tem uma vida nocturna vibrante, salas de jogos, discotecas, cadeia de bares. Está é a razão que faz com que predomine o movimento turístico com pendência para o negócio. É importante reconhecer que está em franco crescimento o turismo de lazer, um turismo de lazer que se nota tanto na cidade como na província de Maputo, como se estende também a outros destinos fora da capital do país. Por exemplo, temos destinos como Vilankulo, Závora, Ponta de Ouro, Bilene e Pemba, que começam a ser muito procurados. A maior parte das pessoas que vai para lá não vai com motivação de negócios, mas cria espaços de lazer, como a nossa grande costa que é constituída por grandes ilhas que são destinos paradisíacos, ilhas tropicais, onde as pessoas vão para usufruir de um turismo de lazer.
NOT – Recentemente foi lançado um filme sobre o Parque Nacional de Gorongosa. Qual é o impacto que se espera com relação a aquilo que são os objectivos turísticos e mobilização de mais turistas para o país?
BD - A nossa expectativa é que o filme venha efectivamente reavivar aquilo que já foi o Parque Nacional da Gorongosa. O Parque há muito tempo foi conhecido e admirado mundialmente. Em determinados momentos históricos do país ficou, de algum modo, esquecido. O filme vem torná-lo conhecido para aqueles que não o conheciam, mas também vem refrescar a memória daqueles que já o conheciam. Nas várias ocasiões que nós tivemos de expor o filme tanto em Maputo, como em Lisboa (tivemos um lançamento para a comunicação social e outro durante a Feira da Bolsa de Turismo de Lisboa), foi de uma aceitação extraordinária, isso mostra que Gorongosa tem prestigio e mantém a admiração que as pessoas sempre tiveram por ele. Houve gente que conhecia o Parque, e que se entusiasmou ao ver que o Parque da Gorongosa ainda existe, e que tinha animais e a ser bem gerido. Houve uma admiração muito grande em perceber que o Governo de Moçambique tomou uma acção clara no sentido de tornar o Parque da Gorongosa tão importante quanto o era. Se for a observar as várias publicações que ocorreram na imprensa portuguesa, foi alguma coisa fora do comum. À partir de hoje (8 de Fevereiro) o filme passa a ser publicitado para o mundo pelo Canal de Televisão National Geographics. Isso vai ter um alcance ainda maior. O Parque da Gorongosa é um lugar fabuloso, um lugar místico. Acredito que quando começar a passar no National Geographics a reacção do mundo será algo espectacular.
CRÉDITO EXISTE DAI QUE : APOSTA É CONSTRUIR ESTÂNCIAS NOS DISTRITOS
NOT – Sabe-se que o INATUR tem uma linha de crédito para os demais empresários do sector. Como é que está a ser gerido esse dinheiro, uma vez que há informações de certas reclamações tanto dos beneficiários, como da instituição?
BD - Como dizia antes, umas das actividades do Inatur é de fomentar o surgimento e o envolvimento do empresariado nacional no sector de turismo. Sabemos que grande parte dos moçambicanos têm ideias, iniciativas, vontade e espaços com um potencial turístico muito importante, mas não têm capital para arrancar. Então, nós constituímos três linhas de crédito, uma descentralizada e duas centralizadas. Temos uma linha de crédito que vai até 50 mil meticais. Trabalhamos com as direcções provinciais para que possam ceder este crédito para operadores turísticos, grande parte deles na parte de acomodação de pequena dimensão e sobretudo de restauração e que precisam renovar a loiça. Temos as linhas centralizadas, uma é gerida directamente pelo instituto e a outra pelo instituto e BCI. A linha que é gerida directamente pelo INATUR é uma que vai até 500 mil meticais. É uma linha para os pequenos operadores turísticos que estejam situados em alguns distritos, ou em áreas com potencial turístico e que queiram contribuir na capacidade de acomodação. São pessoas que pedem 500 mil para construir uma estância turística para acomodação com quatro quartos, recepção, um pequeno restaurante. É uma linha de crédito humilde mas que a sua massificação ajuda a aumentar, de forma significativa, o número de camas e de quartos para efeitos de acomodação. São seleccionáveis nacionais com espaço e que querem se dedicar à actividade turística e que tem preferencialmente um projecto desta natureza. Por compreendermos que algumas pessoas tinham ideias sem projectos desenhado, dentro da nossa área de apoio empresarial, damos crédito e assessoria técnica a esses projectos. Quer dizer que, se um indivíduo quer investir nesta área mas não sabe desenhar o projecto, cedemos o empréstimo e a custos baixos, só para manter a linha operacional, vendemos essa consultoria para essa pessoa, damos a devida assistência, treinamos e formamos a pessoa sobre como executar o projecto. A terceira linha, aquela em que trabalhamos com o BCI, entendemos que a uma dada altura, um valor de 500 mil meticais era bastante baixo para alguns operadores que queriam entrar num negócio com uma dimensão um pouco maior ou que queriam fazer uns investimentos maiores, mais arrojados ou que já tem os seus investimentos, mas que pretendem tornar os seus investimentos muito maiores. Então, estabelecemos uma linha na qual contribuímos com 50 porcento e o banco entra com outros 50. A nossa comparticipação é para garantir que aquela linha de crédito não tenha os níveis de juros comerciais da banca, mantemos um nível de juro baixo para tornar as linhas mais acessíveis. Esta linha é de um valor bastante mais significativo e vai até cerca de 75 mil dólares norte-americanos. Simplesmente os interessados têm que satisfazer as condições, os requisitos que estão estabelecidos na linha de concessão de crédito. As condições é que o projecto seja viável, a pessoa seja credível e tenha uma carteira limpa do ponto de vista da banca, não seja um devedor incorrigível e que possa oferecer garantias. No caso da linha de crédito centralizada do INATUR, basta a idoneidade da pessoa e as outras condições gerais. Nós damos dinheiro, as pessoas investem, começam a produzir dinheiro, pagam as prestações, estes valores das prestações constituem outras fontes de financiamentos para outras pessoas com projectos turísticos. Quando as pessoas não pagam criam um constrangimento sério porque limita a capacidade de financiamento para novas pessoas interessadas.
NOT – Qual é o volume do crédito malparado?
BD - Temos muitas situações de crédito malparado. A esta altura, na nossa carteira de clientes temos cerca de 45 porcento de crédito totalmente malparado. É um valor muito alto. O que aconteceu é que as pessoas geriram mal o projecto. Em vez de construir quatro quartos previstos no projecto, decidiram construir oito e acabaram não terminando o projecto. Por causa disso o projecto não pode ser operacionalizado e o resultado é que não podem ter recursos para pagar ou, em algum momento, incorreram em desvios de aplicação. Temos 45 porcento de crédito malparado; 20 por cento dessa cifra são pessoas que pagam uma vez a outra e os outros simplesmente não honram com os seus compromissos. Como se pode ver, isto constitui um constrangimento sério à nossa capacidade de continuar a alimentar os vários pedidos que temos.
PROJECTO ARCO NORTE DINAMIZARÁ O TURISMO
NOT - O Conselho de Ministros aprovou o chamado projecto “Arco Norte”. O que já foi feito até este momento para atrair potenciais investidores para os projectos âncoras e para o “Arco Norte”?
BD - Várias coisas foram feitas e continuamos a trabalhar. Em relação ao “Arco Norte” já há vários investidores que, tendo sido contactados directa ou indirectamente ou por via das publicações que estão a ocorrer ou por via da exposição do projecto em várias conferências e seminários de investidores em que participamos e nas feiras de turismo mundial, muitos mostraram interesse e outros inclusive que já têm projectos e estão apenas à espera do plano director. Já foi feito algum trabalho e continuamos a trabalhar na divulgação do instrumento junto da sociedade e dos governos provinciais e distritais. Temos neste momento investidores que tem recursos financeiros e projectos e, como estamos interessados que eles invistam, estamos a fazer de tudo para reter esse investimento. Não queremos perdê-los. Então, logo que o plano director estiver finalizado e aprovado, o nível de publicação das oportunidades, que são enormes, vai ser muito mais massificado.
NOT - E quando é que teremos o plano-director?
BD - A nossa previsão é que nos próximos três meses tenhamos o plano-director; é um projecto delicado, muito sensível, envolve aspectos urbanísticos, planeamento territorial, impacto ambiental, convívio com as comunidades. Mas se for por mais algum tempo, acredito que neste ano, e ainda neste semestre, de certeza absoluta teremos o projecto-piloto aprovado.
A EVOLUÇÃO DO INATUR
O INATUR vem de um processo evolutivo, daquilo que era o Fundo de Turismo (FUTUR), sob tutela do Ministério do Turismo. O FUTUR tinha, dentro do seu âmbito de operação, algumas actividades importantes que eram, particularmente, promover o país como um destino turístico e também fomentar o empreendedorismo no seio dos moçambicanos, criar condições para muitos ingressarem no sector do turismo, exercendo actividades empresariais, bem como dando oportunidade de crescimento do sector, criando emprego e massificar a presença de estâncias e actividades turísticas nos mais diversos cantos do país. Após todo um processo de crescimento que o sector observou, depois de cerca de dez anos, o Governo percebeu que já havia se atingido um certo nível de crescimento nas várias actividades que eram desenvolvidas pelo FUTUR, particularmente nestas duas componentes, daí que havia necessidade de se encontrar um outro organismo que tivesse uma capacidade e amplitude de alargar o seu raio de acção. Foi assim que o Governo decide criar um instituto, no lugar de um fundo. É nessa perspectiva que é criado o INATUR, que passou a englobar a promoção do país como destino turístico e o incentivo ao pequeno e médio empresariado para ingressar no sector de turismo.
Neste momento, temos o INATUR a operar nas áreas de promoção de investimento no sector do turismo, a exercer uma função que era do ministério, que é o processo de classificação e reclassificação de estâncias hoteleiras. O INATUR faz ainda a gestão do património turístico do Estado e exerce as actividades de formação, através de instâncias próprias, como o Hotel Escola Andalucia, instituições do Estado que estão vocacionadas à formação de profissionais do sector. A missão do Inatur é, essencialmente, traduzir aquilo que são as políticas e os objectivos do Governo, a nível central, para o sector do turismo. Constitui o elo de ligação principal entre o Governo central e os operadores turísticos, tendo ainda a missão de promover o crescimento acelerado do sector do Turismo, promovendo a compreensão e a tradução dos objectivos das políticas para aspectos realizáveis, fazer com que o sector privado compreenda, com maior facilidade, aquilo que são as políticas. Para além de ser um órgão de fomento, é também um órgão que exerce a actividade turística.
O INATUR não só faz a gestão de estâncias turísticas existentes, assim como é um factor de promoção e aceleração do crescimento do sector, com a responsabilidade de ser o ponto de partida para o fomento e criação de novas estâncias turísticas.





