ENTREVISTA - Diálogo aberto e franco com fazedores culturais



Escrito por Jornal Noticias
Quinta, 28 Janeiro 2010 08:33

Continuar a consolidar e a cultivar a moçambicanidade, desenvolvendo cada vez mais a auto-estima, garante da continuidade de os substractos sócio-culturais foram parte das exigências e dos compromissos que Armando Artur, ministro da Cultura, assumiu diante do Presidente da República, Armando Guebuza.
Estes desígnios estão no quadro das pretensões de desenvolvimento cultural, social, político, e económico, fundamentos importantes para que o país conheça a estabilidade e evolua.
A ideia é também, segundo revelações feitas pelo ministro da Cultura, continuar a consolidar e a cultivar a auto-estima, pois sem ela em nenhum momento se pode falar de cultura, porque ela não existirá.
“Na verdade tudo o que diz respeito à cultura vem da base, somos nós mesmos como um todo, como um povo. Portanto, nós temos que ter orgulho de nós próprios. Temos que resgatar tudo aquilo que nós fomos perdendo ao longo do tempo, ao longo da história, desde a época da colonização, passando pela Luta de Libertação Nacional, mesmo pela história recente da guerra que nos foi imposta”.
Armando Artur diz ainda que há que continuar a trabalhar em quase tudo que diz respeito a nós próprios como moçambicanos. E o facto de Moçambique estar num ambiente de paz e de reconstrução a todos os níveis, é importante que o mesmo seja igualmente acompanhado também dos valores da nossa identidade cultural enquanto moçambicanos. E, isso passa por todos sentirem-se orgulhosos de serem moçambicanos e amarem a sua cultura.
Os fazedores culturais moçambicanos sempre reclamaram a criação de uma instituição que zelasse unicamente por questões culturais. Neste sentido, e olhando para o estágio de desenvolvimento sócio-cultural moçambicano, o Chefe do Estado acedeu ao pedido dos artistas, criando o Ministério da Cultura. “Agora caberá a todos nós, como actores da cultura, trabalhar para dignificar o nosso Ministério, e o desenvolvimento cultural exige a entrega abnegada dos próprios fazedores da cultura”, diz Armando Artur.
Neste campo, todos os fazedores da cultura, desde os artistas, aos agentes e gestores culturais e até os utentes e destinatários da cultura, são chamados a contribuir para que os resultados almejados sejam, de facto, alcançados.
E os artistas e a sociedade estão expectantes não só quanto em relação ao Ministério da Cultura como também ao seu titular, que é Armando Artur, por sinal também artista. Neste sentido, Armando Artur diz estar confiante quanto a uma acção positiva nas suas actividades.
No entanto, ele chama atenção para o facto de ninguém cruzar os braços e ver os outros a trabalharem: “Eu quero crer que a ideia não seja de esperar que o Ministério vá resolver todos os problemas existentes na área da cultura, mas o que posso assegurar é que estou aqui de portas abertas e vou dialogar bastante com os fazedores da cultura para, em conjunto, encontrarmos uma solução para os vários problemas que enfermam a nossa área que é a da cultura”.
Diz também que vai pedir aos fazedores da cultura para que tenham iniciativas e que não fiquem à espera das acções do Governo, esperando que o Governo que traga soluções mágicas, mas que sejam os próprios artistas a inventar soluções, como inventores da arte que são.
“Eles deverão aprender a inventar fórmulas de como resolver os seus problemas. Então, é esse pedido fundamental que vou fazer aos meus colegas da arte no processo da auscultação e de diálogo que teremos. E esse diálogo será permanente”, afirma o ministro da Cultura.
Falando sobre aquilo que são as atribuições do Ministério da Cultura, Armando Artur refere que, mais do que gerir infra-estruturas, a sua instituição está para responde por tudo aquilo que diz respeito à cultura moçambicana, como também coordenar as áreas de produção de artes, criar um ambiente legal favorável à protecção e desenvolvimento das próprias artes moçambicanas, passando por trazer ou imprimir uma nova dinâmica no processo do nosso ser como moçambicanos.
“É também ver a nossa maneira de ser e de estar como moçambicanos. Nós estamos mais como coordenadores da área cultural. Agora, especificamente, obviamente que há muita coisa por fazer, como por exemplo, a questão dos patrimónios culturais, patrimónios físicos e não físicos, bem como lidar com a questão da produção propriamente dita de todo o conjunto de expressões culturais. Responder a todas as sensibilidades vai exigir de nós um redobrar de esforços”, explica-nos.
Mas, donde é que vai começar, questionamos e ele nos respondeu: “Vou começar por mexer tudo, principalmente a criação de um ambiente saudável e de compreensão mútua entre nós e os fazedores”.
O facto de durante sucessivas fases a Cultura ter sido acoplada a outros substratos como Juventudes e Desportos e mais recentemente à Educação é também visto tendo sido responsável por alguns empecilhos que se registaram no desenvolvimento da cultura, o que influenciou a produção e baixou o estímulo dos artistas para a produção.
“Foi se perdendo também a questão dos patrimónios e também foi se perdendo toda uma vontade por parte de todos que se relacionam com a cultura. Eu julgo que neste momento é preciso que se resgate tudo isso e que os artistas se sintam que são donos, de facto, deste ministério e que podem contribuir com ideias para melhor todos em conjunto rumo ao desenvolvimento da nossa cultura”.
UM POETA EMPRESTADO À POLÍTICA
Armando Artur, o poeta, garantiu à nossa Reportagem que continuará a escrever.
O Armando Artur, acima de tudo é um poeta. Neste momento é um poeta emprestado à política, aos assuntos de governação. Mas ele como poeta continuará a exercer as sua actividade porque ele não é outra coisa senão escritor.
Quais são as suas expectativas? “É que haja uma colaboração de facto. As reacções tranquilizam-me porque sinto que há muita disponibilidade de as pessoas me ajudarem neste desafio que tenho pela frente que é de levar a cultura a avançar. E acima de tudo espero ter muita ajuda”.