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Home Ciência & Tecnologia Rale: de produto de subsistência a produto de mercado competitivo *

Rale: de produto de subsistência a produto de mercado competitivo *

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Em Moçambique o processamento da mandioca é feito com recurso a tecnologias tradicionais. Os produtos dela resultante dependem dos hábitos alimentares e podem ser subdivididos em duas grandes categorias: a primeira compreende a farinha de mandioca consumida maioritariamente pelas comunidades da Zambézia, Nampula, Cabo Delgado e Niassa, onde é designada “karakata”; é resultante da mandioca seca que quando pilada e crivada obtém-se a farinha de textura semelhante à farinha de trigo. Com a farinha prepara-se uma papa consistente que tem o mesmo nome e pode ser consumida como alimento base acompanhada de peixe, folhas confeccionadas de diversas formas, carne ou outro tipo de produto. A segunda categoria é a farinha rale ou simplesmente rale. O rale é consumido maioritariamente pelas comunidades do sul de Moçambique (Inhambane, Maputo e Gaza). Resulta da torragem de mandioca fresca depois de ralada e prensada. Formam-se partículas de diferente granulometria dependendo do tipo de processamento e a habilidade do produtor. As partículas constituem o rale. O rale é consumido basicamente como acompanhante da maior parte das refeições principais, misturado na comida, à mesa. Esta tradição secular, embora possa hoje ser encontrada um pouco por toda parte sul do país, é mais patente nas famílias rurais de Inhambane.

Um pouco por toda a província de Inhambane a produção do rale tem relativa importância na alimentação das famílias rurais. O mercado grossista e retalhista local também é muito concorrido sendo realizado por homens e mulheres (maioritariamente mulheres) ao longo da EN1. Os pontos de concentração dos vendedores são basicamente os mercados de Inharrime e Nhacoongo e Cumbana.

Não raras vezes o rale serve de moeda de troca pela prestação de serviços como lavouras, sachas, colheitas e construção de casas de habitação feitas de material local.

Foi pela importância que este produto tem para as comunidades de Inhambane que instituições do Governo como a Investigação Agrária e a Extensão Rural, vários parceiros e doadores juntaram-se à comunidade de Inharrime, a fim que introduzir melhorias no processo de produção do rale, através da introdução de mecanização e novos procedimentos, possibilitando deste modo uma maior e melhor produtividade e integração num mercado mais competitivo.

O trabalho que se apresenta refere-se a uma experiência vivida na comunidade de agricultores (Associação Josina Machel), localizada no distrito de Inharrime, província de Inhambane.


ANTES DA INTERVENÇÃO....

Até 2004 o método tradicional de processamento do rale consistia em raspar a mandioca descascada numa chapa de zinco perfurada com pregos, prensar a massa obtida usando pedras ou troncos e torrar sobre uma chapa de zinco aquecida. Este método para além de despender muita mão-de-obra, muito tempo no processamento este era feito em condições de higiene pouco recomendadas e consequentemente produzia-se rale de qualidade relativamente baixa, com muita impureza, odor desagradável e sem qualquer uniformidade na granulometrina.
A INTERVENÇÃO .....

A partir de 2004 como uma das acções preliminares foram realizadas demonstrações e os associados receberam treinamento para criação de habilidades no manuseamento de máquinas de processamento de rale (ralador, prensa, crivo), uma experiência do IITA.

Com a introdução do novo método de produção de rale e com a assistência técnica dos técnicos da Agricultura, nomeadamente Instituto de Investigação Agrária e a Extensão Rural, em parceria com outros intervenientes, a associação melhorou a qualidade do rale produzido. As melhorias introduzidas na qualidade permitem uma colocação do produto no mercado competitivo não só nos mercados locais ao longo da EN1, mas também em estabelecimentos comerciais da cidade de Maputo, como por exemplo Casa Tovela, Supermercado LM e O Nosso Supermercado.

O produto vendido nas condições actuais está protegido de contaminações com poeiras, areia e outro tipo de impurezas. Apresenta-se em embalagens timbradas, seladas de um quilograma.


CONCLUSÃO 

A experiência de transferência de tecnologia na Associação Josina Machel produziu mudanças compartamentais no seio dos associados evidenciadas pelas parcerias estabelecidas com vários intervenientes, o auto-emprego, desenvolvimento de habilidades de negócios.

O “know-how” para a produção de rale de alta qualidade coloca os associados numa posição de privilégio como promotores e facilitadores comunitários e são uma referência para outras associações similares e para as comunidades rurais em geral.
* Artigo originalmente publicado no site da Instituto de Investigação Agrária de Moçambique(IIAM)

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