Actualizado em Quinta, 20 Janeiro 2011 08:25 Escrito por Jornal Noticias Quinta, 20 Janeiro 2011 08:02
Segundo Lakatos e Marconi (1982), a ciência pode ser definida como um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objectos de uma mesma natureza.
Nesta ordem de pensamento facilmente podemos deparar com a ciência em tudo o que é natural e inanimado, portanto na ciência não existe limites do saber ou do conhecimento empírico.
Mesmo no passado, os humanos recorreram a ela para obter conhecimentos que alguns deles são úteis até para orientação nos tempos actuais mesmo que esteja globalizado, aliás, a ciência antes da globalização do sistema mundial ela já surgiu globalizada.
DESENVOLVIMENTO CONCEPTUAL
Kourganoff (1961) afirmou que a ciência arruma, classifica, metodiza, simplifica tudo excepto a si própria. Esta afirmação mostra claramente o quanto a ciência é autónoma nos caminhos a trilhar na busca de descobertas, interpretações e até condução do pensamento humano. Isto é o que se passa mesmo até hoje em dia, enquanto o mundo vai abandonando o que considera ultrapassado e até esquece ou apaga as práticas consideradas inúteis na sua memória histórica, a ciência trata de conservar tudo aquilo segundo a qual foi motivo ou objecto de estudo, portanto nunca queima os arquivos. É com esta motivação que o Kourganoff (1961) observou que em muitos campos, a pesquisa científica conserva um carácter artesanal, que dificulta uma divisão mais desenvolvida do trabalho.
Apesar de a ciência ser conservacionista, ela é bastante flexível no desdobramento em mecanismos que a torna mais confortável, por isso ela é metódica. Com a sua metodologia, faz com que os trilhos seguidos sejam racionais. Se até na época de Kouganoff (1961) não vislumbrava separação em diferentes campos de conhecimento científico, já não se pode dizer o mesmo nos nossos dias. Ela se abre e se desdobra em função da demanda contemporânea do mundo actual. Se no passado era o generalismo do pensamento científico, hoje a especialização tomou conta do pensamento e pesquisa científica.
A valorização do conhecimento técnico-científico faz com que as respostas dos cientistas a essas demandas sejam diversificadas no seu meio académico actual. No passado o cientista do século XIX era em geral um professor que dedicava à pesquisa os confortáveis lazeres que lhe deixava o pequeno número de estudantes e a lentidão geral do ritmo da vida, “descobertas” era pago em princípio, tão-somente pelo ensino que ministrava (KOURGANOFF, 1961).
A maximização do capital que caracteriza os nossos tempos, fez com que ao mesmo tempo que se avance na especialização, se busque afirmação económica competitiva entre as diferentes áreas do conhecimento. A globalização actual consiste em mundialização de todos aspectos socioeconómicos dos povos mundiais, isto significa eliminação de fronteiras nacionais e promover a homogeneização e uniformização global. Por isso que Santos (2002) afirma que o processo de globalização mostra que estamos perante um fenómeno multifacetado com dimensões económicas, sociais, políticas, culturais, religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo.
A produção do conhecimento desde nunca observou limites de pensamento, todos grandes pesquisadores ou cientistas desde épocas primitivas produziram conhecimento, interpretaram fenómenos naturais e inanimados, conduziram o mundo com os seus princípios. Independentemente do local onde o conhecimento foi produzido, sempre foi usado além fronteiras locais, nacionais, regionais e universais, fazendo com que a absorção e o linguajar científico fosse o mesmo. Dando como exemplos em áreas como Agricultura e Biologia, a categorização dos seus elementos de estudo em família e até em espécie levou a universalização das linguagens técnicas, que apesar de poder ter nomes locais possui um nome universal de conhecimento de todos.
Embora no mundo actual o localismo vai sempre cedendo lugar ao global ou mundialismo e o individualismo ao colectivo através de eficiente troca de informação, é neste processo de troca de informação que constitui a ciência e o progresso da pesquisa científica. Num período de era de informação em que o mundo está inserido, o localismo e o individualismo embora não menos importante, remete aos seus “fanáticos” ao isolamento e consequentemente ao esquecimento dos próprios pesquisadores e os seus trabalhos, contrariando os objectivos da ciência. (...) toda e qualquer sociedade faz uso do universo material a sua volta para se reproduzir física e socialmente.
Os mesmos objectos, bens e serviços que matam a nossa fome, nos abrigam do tempo, saciam nossa sede, entre outras “necessidades” físicas e biológicas, são consumidos no sentido de “esgotamento”, e utilizados também para mediar nossas relações, nos conferir status, construir identidades e estabelecer fronteiras entre grupos e pessoas.
Para além desses aspectos, esses mesmos bens e serviços que utilizamos para nos reproduzir física e socialmente auxiliam - nos na “descoberta” ou na “constituição” da nossa subjectividade e identidade.
Mediante a oportunidade que nos oferecem de expressarmos os nossos desejos e experimentarmos as suas mais diversas materialidades, nossas reacções a elas são organizadas, classificadas e memorizadas e nosso autoconhecimento é ampliada. (BARBOSA e CAMPBELL, 2007, p. 22). Os autores evidenciam a importância do ser como indivíduo e como grupo em função do ponto socio-económico, cultural e geográfico em que esse indivíduo ou grupo se encontra inserido. A figura abaixo, mostra um campo resultante do processo de partilha de conhecimento através de abordagens participativas no processo de transferência de tecnologias ao produtor.
Embora seja necessário o devido reconhecimento dos que fazem a ciência, é recebendo e transmitindo que se evolui técnica e profissionalmente. Por isso que a universalização não é só um processo linear, mas sim também um processo consensual (SANTOS, 2002). Por isso a partilha de informação não é de certo ponto coerciva, ao mesmo tempo que se mostra tecnicamente e profissionalmente imperativa para que o pesquisador e a instituição em que representa/trabalha saia do anonimato e entra no mundo competitivo na produção do saber cientifico. E porque o desenvolvimento é um processo, possui muitos intervenientes que precisarão de bases anteriores para continuar firmando.
CONSIDERAÇÕES
O individuo, o colectivo, o local e o mundo sempre foram “feitos” e interpretados pela ciência desde o principio dos tempos mundanos, e os que fizeram partilharam informação para que as pesquisas não mais começassem do nada, mas sim usando como suporte algo antes existente, que o individuo/grupo num determinado local fosse do conhecimento mundial com reconhecimento merecido dos seus fazedores. Hoje em dia se fala de “redes” de conhecimento, para que o tempo não mais constitua limitante intransponível para o desenvolvimento.
Apesar de que afirmo que a ciência é a essência da nossa existência, naturalmente não significa que é o princípio e o fim de tudo, há aspectos limitativos a observar como os levantados por Flick (2004) de que a ciência não mais produz “verdades” absolutas, capazes de serem adoptadas indiscriminadamente.
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