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Conhecer a biodiversidade dos ecossistemas montanhosos

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DEVIDO à sua localização e dificuldades de acesso, as zonas montanhosas acima dos mil metros de altitude no nosso país têm sido pouco estudadas, em particular no que respeita à caracterização da vegetação e determinação da riqueza e raridade das espécies de flora e fauna que habitam esses ecossistemas. A recolha de informação de base da biodiversidade permite identificar áreas de interesse biológico e assim propor/promover acções de conservação/desenvolvimento que mitiguem as ameaças e os riscos de erosão biológica, principalmente os causados por factores antropogénicos (extracção do recurso e queimadas descontroladas) a que estes habitats estão sujeitos.

É com este propósito que o IIAM-DARN, em parceria com o Royal Botanic Gardens –Kew (UK), beneficiando de fundos disponibilizados pelo Governo britânico através da Iniciativa DARWIN por um período de três anos (2006-2009), vem implementando o projecto de investigação denominado “Monitoring and Managing Biodiversity Loss in South-East Africa’s Montane Ecossystems”.

Foram seleccionadas cinco montanhas localizadas no norte de Moçambique, nomeadamente os montes Chiperone, Namúli e Mabu, na província da Zambézia, Cucutea e Inago, na província de Nampula, para caracterização da vegetação e levantamento de espécies (plantas, pássaros, répteis, insectos e pequenos mamíferos) que ali ocorrem, identificando as que são endémicas, raras e ameaçadas.

Estes maciços montanhosos estão sendo visitados por uma equipa multidisciplinar composta por 20 cientistas provenientes do IIAM e do Royal Botanic Gardens, e dos outros parceiros deste projecto: o Mulange Mountain Conservation Trust (MMCT) do Malawi, Forest Research Institute of Malawi (FRIM), Herbário do Malawi, e o BirdLife International através do Museu de História Natural de Moçambique.

É importante realçar a componente treino incorporada neste projecto, relacionada com os aspectos de planificação das expedições, técnicas de levantamentos biológicos, avaliação de ecossistemas e caracterização da vegetação, incluindo técnicas de identificação e colheita de espécimes para o Herbário, utilização de Sistemas de Informação Geográfica (GIS), em particular Remote Sensing e uso do software ERDAS.

O uso de dados georeferenciados colhidos durante as expedições científicas permitirá desenvolver programas de maneio integrado dos recursos naturais no espaço territorial e desenvolver um programa de monitoria dos ecossistemas e da biodiversidade.

Em 2007 foi também realizada uma série de seminários de divulgação do projecto tanto ao nível internacional como nacional: no Congresso da AET-FAT nos Camarões, na Conferência da Systematics Association em Edinburgh, e no ciclo de seminários do IIAM. No final do projecto está planificado um seminário de apresentação dos resultados e de promoção das prioridades de conservação nas montanhas estudadas.

No âmbito deste programa, já foram realizadas expedições científicas aos montes Chiperone e Namúli, e a expedição ao monte Mabu estava planificada para Outubro de 2008.

O relatório da pesquisa sobre a expedição havida já está disponível na Biblioteca Central do IIAM e pode também ser consultado no endereço www.iiam.minag.org.mz.

Com uma área coberta de floresta de 1717ha, distinguem-se no monte Chiperone os seguintes tipos de vegetação:

(i)                  Florestas húmidas de média altitude (1000-1600m) em que as espécies principais encontradas são Khaya anthotheca, Strombosia scheffleri, Newtonia buchananii, Chrysophyllum gorungosanum e Rinorea convallarioides;

(ii)                Florestas húmidas de alta altitude (1600-1900m) em que as espécies principais são Peddiea africana, Diospyrus whyteana, Maytenus undata, M. acuminata, Myrsine africana, Ochna holstii, Vepris(Oricia) bachmannii e Olea capensis subesp macronata;

(iii)               Mata esclerófila do pico da montanha (1900-2000m) composta por arbustos e árvores de pequeno porte de Erica sp. (previamente classificada como Phillipia) e Aloe arborescens, e da suculenta Crassula swaziensis e o fecto Mohria lepigera nas rochas;

(iv)              Floresta de miombo (600-1100) com Brachystegia (speciformis, utilis, tamarindoides e boehmii) misturada com Julbernardia globiflora e Uapaca kirkiana, e floresta de Acacia abyssinica nos solos pouco profundos das encostas da montanha inferiores a 1000m de altitude; e

(v)                Em áreas danificadas e de pousio (abaixo dos 900m), devido a queimadas frequentes e machambas, ocorrem a Trema orientalis, Dombeya burgessiae, Bridelia cathartica, Smilax anceps, Annona senegalensis e manchas de bamboo Oxytenanthera abyssinica. Diferente das outras montanhas da região (ex: Namúli, Gorongosa, Chimanimani, Mulanje) no monte Chiperone não ocorrem pradarias de altitude, um habitat que normalmente suporta a maioria das espécies endémicas.

Registou-se um total de 229 espécies de plantas, das quais 145 são lenhosas (árvores, arbustos, e lianas). Das espécies encontradas, 15 não se encontram registadas no checklist das plantas de Moçambique. Realça-se no relatório: a Coffea mufindensis a única espécie com uma categoria formal de ameaça segundo a Red Data List para Moçambique; As espécies Cyperus amauropus, e Abrus melanospermus tiveram o seu primeiro registo em Moçambique; Dracaena fragans e Plectranthus kapatensis tiveram o primeiro registo da área Moçambique “Z”, e a Pollia condensata uma erva comum no estrato herbáceo foi o primeiro registo do género na área da Flora Zambesiaca; e a área de ocorrência da Crassula swaziensis considerada endémica do Namúli foi alargada.

A zoologia foi também objecto deste levantamento da biodiversidade.

Realça-se a descoberta da espécie de lagarto Lygodactylus rex, inicialmente considerada endémica do monte Mulange, a cobra Gaboon viper – Bitis gabonica da qual se conhece somente um registo desta região datado de 1950, o Camaleão pigmeu – Rhampholeon champmanorum, e o morcego Miniopterus inflatus, que teve o seu segundo registo em Moçambique.

Registaram-se oito espécies de pássaros que estão ameaçados globalmente e são restritos a alguns biomas como sejam o Alethe choloensis (Thyolo Alethe) e Apalis chariessa (white-winged Apalis, somente conhecido neste local em Moçambique) e a espécie de floresta aberta Nectarinia shelleyi.

Foi observado a Columba delegorguei que se pensa estar possivelmente extinta no Malawi devido ao elevado nível de desmatamento ali existente.

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