O enfarte do novo século



Escrito por Jornal Noticias
Terça, 21 Dezembro 2010 09:02

Uma forte dor no coração, como se ele se rasgasse por dentro, subitamente. A frase parece apenas uma metáfora, sempre acessível para descrever uma mágoa profunda, mas não física. O coração partido, porém, no auge do século XXI, deixou de ser muleta dos sofredores e passou a factor de risco para problemas cardíacos.
Depressão e problemas emocionais, associados a uma predisposição genética, estão entre as causas de enfartes em pacientes jovens, alerta Marcelo Ferraz Sampaio, cardiologista brasileiro do Hospital Oswaldo Cruz, chefe do Laboratório de Biologia Molecular do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo, e especialista no assunto.
O médico revela que nos últimos anos, o índice de enfartes atípicos no sector de emergência do hospital em que trabalha foi surpreendentemente alto. Além do factor numérico, os pacientes tinham características clínicas semelhantes: jovens, na sua maioria mulheres, saudáveis, mas com incidentes cardíacos severos.
“Observávamos, ao fazer a identificação da artéria, que o coração tinha enfartado, mas não havia lesão. Começamos, então, a desvendar como essa artéria poderia ter provocado a restrição do fluxo por mais de 20 minutos, sem ter qualquer comprometimento.”
Ao confrontar os pacientes com pesquisas internacionais, o especialista constatou que essas artérias sofrem um Sistema de Restrição Dinâmica ao Fluxo. A consequência e o processo são semelhantes ao que ocorre em um enfarte tradicional, provocado pela conhecida lista de factores de risco: obesidade, diabetes, hipertensão e tabagismo. Neste caso, no entanto, o gatilho é emocional.
COMO OCORRE?
A passagem de sangue é obstruída não pelas placas de gordura, mas por um estreitamento das paredes da artéria, responsável por interromper o fluxo. O mesmo evento é diagnosticado em casos de overdose de drogas como cocaína e crack, ou no uso de anabolizantes.
"Também é possível que as plaquetas do sangue fiquem como se fossem 'tresloucadas', interrompendo o fluxo subitamente, gerando os enfartes. Descobrimos que esses pacientes têm alteração da formação das plaquetas”, explica o especialista.
Este mesmo processo ocorre em pacientes com depressão. “A doença emocional, em tese, não é factor de risco para uma doença cardíaca, mas pode ser, em determinadas circunstâncias, o factor principal”, endossa Sampaio.
CORAÇÃO RASGADO
Magra, saudável, activa e aparentemente feliz. Os três adjectivos costumeiramente usados para definir Iris Galetti, uma professora de física, também a mantinham fora do grupo de risco de mulheres com problemas cardíacos.
Em Janeiro de 2008, durante uma reunião no colégio onde trabalhava, primeiro dia após as longas férias de verão, a professora sentiu um mal-estar pungente. Uma forte dor no peito e braços dormentes. A pressão, porém, ao ser medida na enfermaria do local de trabalho, estava normal.
Com náuseas e dores no peito, ao chegar ao hospital, Iris descobriu que tinha apanhado um enfarte. Foram oito dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e mais uma semana no quarto, até receber alta. Aos 49 anos, ela tinha perdido boa parte do coração – o ventrículo esquerdo ficou com o músculo praticamente morto.
“Jamais pensei que eu poderia ter um enfarte. A minha família tem histórico de cancro, não de problemas cardíacos. Achei que os médicos estavam enganados. Nunca fui hipertensa, sedentária, e tenho uma verdadeira obsessão por alimentação saudável.”
No entanto, há mais de quatro meses Iris tentava digerir, sozinha, uma mágoa muito profunda. Nas palavras da professora, que prefere reservar a história, a decepção foi difícil de suportar. Por meses, o problema emocional ocupou boa parte de sua vida pessoal.
O stress da vida profissional e o excesso de responsabilidades, dentro e fora de casa, somados aos conflitos e decepções pessoais, transformaram-se em um cocktail venenoso para um coração normal, sem problema algum.
O FACTOR GENÉTICO
A literatura médica mundial aponta que 15 por cento dos enfartes sem os factores de risco tradicionais – cigarro, diabetes, obesidade e hipertensão – foram desencadeados por processos que começaram no âmbito psicológico. A matemática, porém, não é simplista e imediata. Para que o coração partido ultrapasse a metáfora é preciso que exista uma série de combinações genéticas e ambientais.
A analogia da chave e da fechadura é a maneira como Sampaio consegue traduzir os preceitos da medicina genética a seus pacientes. Nas palavras do médico, a predisposição dos genes nada mais é do que uma fechadura. “A porta está fechada. A chave é o stress emocional, e a fechadura sua carga genética. Quando a chave certa encontra a porta certa, a doença aparece.”
O mapeamento genético, porém, não seria uma forma de prevenção. Embora o Projecto Genoma tenha mapeado todos os genes que existem no organismo humano, a medicina ainda não conseguiu antecipar quais combinações entre esses genes são responsáveis por desencadear as mais variadas doenças. A única forma de manter-se longe dos enfartes, tradicionais ou atípicos, seria a manutenção da saúde, tanto mental quanto física, defende o médico.
Na receita médica, as indicações permanecem universais, e cabe a cada um encontrar o seu componente pessoal: alimentação balanceada, actividade física regular, lazer, tranquilidade e terapia – libertar a mente dos problemas e não permitir que eles consumam o organismo – podem ajudar a blindar o coração.
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